quarta-feira, 30 de julho de 2008

ROTEIRO DE ENCONTRO 1

Este roteiro de encontro foi elaborado para uma assessoria que fiz para coordenadores de grupos de jovens de Alfredo Chaves, no ano de 2003.

A PRÁTICA LIBERTADORA DE JESUS

UMA TENTATIVA DE DESCOBRIR NOSSAS ORIGENS:
1.1. Levantamento da história do grupo de base.
1.2. Cada participante fala o que sabe das suas origens, dos seus antepassados.
1.3. Quem é você e como chegou até aqui?

INTRODUÇÃO:
2.1. Quem é Jesus para Marcos, Mateus, Lucas e João?
2.2. Como Jesus é apresentado para nós?
2.3. Um novo jeito de entender a terra,o povo e a proposta de Jesus.
2.4. CHAVE DE LEITURA:
· Jesus se apresenta com sua mensagem ao povo.
· Jesus se coloca ao lado dos excluídos do sistema.
· Jesus nega e combate as divisões criadas pelos seres humanos.
· Jesus combate os males que estragam a vida humana.
· Jesus desmascara a falsidade dos grandes.
· Jesus propõe uma nova ordem.
· Obediente até a morte, Jesus revela o rosto do Pai.

AS MULHERES E JESUS DE NAZARÉ – Mc 7, 24-30 e Lc 15,8-10
3.1. Recontar e memorizar os textos.
3.2. Comentar qual a relação JUDEUS X GENTIOS?
3.3. Como apresentar os textos na plenária?

JESUS E A RELIGIÃO – Mt 21, 23-46 e Mc 12,13-17
4.1. Recontar e memorizar os textos.
4.2. Comentar a relação JESUS X SADUCEUS X FARISEUS!
4.3. Como apresentar os textos na plenária?

JESUS E O TEMPLO – Jo 10, 22-39 e Mc 11, 15-17
5.1. Recontar e memorizar os textos.
5.2. Qual é o posicionamento de Jesus em relação ao Templo? É opressão ou salvação?
5.3. Como apresentar os textos na plenária?

JESUS E OUTROS GRUPOS SOCIAIS – Mc 2, 13-17 e Lc 10, 25-37
6.1. Recontar e memorizar os textos.
6.2. Em que sentido o sacerdote e o levita satisfazem sua própria consciência mas não amam a verdade?
6.3. Hoje em dia os “pecadores” são discriminados? A quem discriminamos? Por quê discriminamos?
6.4. Como apresentar os textos na plenária?

JESUS E OS DISCÍPULOS – Mc 4, 27-38 e Jô 13, 1-20
7.1. Recontar e memorizar os textos.
7.2. Qual a relação JESUS X DISCÍPULOS/AS?
7.3. Como apresentar os textos na plenária?

QUESTÕES REFERENTES À TODOS OS GRUPOS DE TRABALHO:

A) Como os textos estudados ajudam a compreender a nossa realidade hoje?
B) Quem somos? Quem sou?
C) De onde viemos? De onde vim?
D) Qual a nossa identidade? Qual é a minha identidade?
E) Que mensagem libertadora podemos/posso tirar desse estudo?

BIBLIOGRAFIA SUGERIDA:

· BÍBLIA DO PEREGRINO, Paulus, 2003.
· BÍBLIA DE JERUSALÉM, Paulus, 2003.
· TEB, Loyola, 1996.
· A PRÁTICA LIBERTADORA DE JESUS, Carlos Mesters, CEBI
· COM JESUS NA CONTRAMÃO, Carlos Mesters, Paulinas
· JESUS SEGUNDO O JUDAÍSMO, Vários, Paulus, 2002
· COMO LER OS EVANGELHOS, Paulus
· JESUS, SUA TERRA, SEU POVO, SUA PROPOSTA,ACO, 1988

Emerson Sbardelotti
Mestre em Teologia pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo

* foto de Valcey Capixaba *

MÍSTICA PARA O CAMINHO

MÍSTICA PARA O CAMINHO

1. Contemplação Confiada - Abrir-se mais gratuitamente a Deus, que é por autodefinição suprema: amor. Uma contemplação mais necessária do que nunca nestes tempos de eficiências imediatas e de visibilidades. Confiada porque está de volta a religião do medo, do castigo, da prosperidade ou do fracasso, do diabo e do pecado, conforme a gente se haver com Deus. Falta-nos confiança filial, infantil, descontraída liberdade dos pequenos do Reino.


2. Coerência Testemunhante - Vivemos na civilização da imagem, o mundo quer "ver". O testemunho sempre foi uma espécie de definição da pessoa de boa vontade. Esse testemunho, hoje mais do que nunca, quando tudo se vê e tudo se sabe, tem que ser coerente, sem fissuras, na vida pessoal e na gestão estrutural de nosso grupo. Veracidade e transparência pedem o mundo, tão submetido à mentira e à corrupção.


3. Convivência Fraterno-Sororal - Este é o maior e o mais cotidiano desafio para as pessoas, para as comunidades, para os povos. Conviver, não coexistir apenas; conviver carinhosamente em fraternura e sororidade; não apenas em tolerância mútua. Ajudar a tornar a vida agradável.


4. Acolhida Gratuita e Serviçal - Capacidade de encontro e de serviço. Não somente descer do burro e atender o caído quando, por casualidade, a gente ao encontrar à beira do caminho, mas se fazer encontradiço. Acolher às vezes somente com uma palavra ou com um sorriso, porém acolher sempre, gratuitamente. Fazer de todos os serviços, mandatos, profissões aquele serviço desinteressado e generoso.


5. Compromisso Profético - Continua a ser a hora, e talvez mais do que nunca, de se comprometer profeticamente contra o deus neoliberal da morte e da exclusão, contra todo tipo de imperialismo, e em favor do Deus do Reino da Vida e da Libertação. É preciso sugar da fé toda a sua força política. Viver a fé militantemente, transformadoramente; fazer da profecia uma espécie de hábito conatural, de denúncia, de anúncio, de consolação. A caridade sócio-política é a caridade mais estrutural. Vai às causas, não somente aos efeitos. Cuida a Vida. Transforma a História.


6. Esperança - Depois da "morte de Deus" e da "morte da Humanidade", nesta pós-modernidade facilmente sem sentido, e já no "final da história", parece que a esperança não tem muito a fazer. Hoje, mais do que nunca, se impõe a esperança! Ela é a virtude dos "depois de". "Contra toda esperança" (produtivista, consumista, imediatista, fundamentalista, individualista, passiva), esperamos. Devemos torná-la crível aqui e agora. Porque esperamos, agimos. O tempo e a história são o espaço da esperança. Esperança que vence o medo!


Pedro Casaldáliga

bispo emérito da Prelazia de São Félix do Araguaia / MT.


(livremente adaptado por Mauro Kano em 1/11/2002 e readaptado por Emerson Sbardelotti em 3/12/2003).

DESAFIOS ATUAIS PARA A ESPIRITUALIDADE DA LIBERTAÇÃO

Desafios atuais para a Espiritualidade da Libertação

José Maria Vigil *


Introdução: Dois motivos me levam a refletir sobre este tema.

Quando no começo da década de 90 alguns mais perspicazes mencionaram pela primeira vez a necessidade de uma “mudança de paradigma”- uma expressão que escutamos então pela primeira vez e que “vinha para ficar” -, pareceu que alguns dos que levantavam esta bandeira, o faziam para justificar seu abandono do compromisso com os pobres, a quem, naquela hora muitos, militantes “socialistas” e “revolucionários” até então, começavam a deixar sozinhos, sem protagonismo nem futuro. Entendendo que se tratava de dissimular um abandono – e creio que, na verdade, em muitos casos assim era – houve outros que recusamos aquela pretendida mudança de paradigma para nos manter fiéis aos compromissos fundamentais de nossa espiritualidade da libertação (E.L), cuja opção evangélica pelos pobres não nos permitia abandonar um paradigma como quem muda simplesmente de camisa para se acomodar a uma nova situação.
Já se passou tempo suficiente desde então para que já se tenha como fato indiscutível e evidente a mudança profunda que se produziu, por uma parte, e para que, por outra, possamos avaliar isso que mudou e colocar nome concreto para os novos desafios com os quais a E.L. vai medir-se agora.
Um segundo motivo. Nestes tempos de crise e -por que não dizer- de abandonos e retratações, não poucos militantes se afastaram da teologia da libertação (TL) e da EL. Com freqüência pensamos que se tratava de verdadeiros pecados de infidelidade ao evangelho e à Causa dos pobres e em certos casos o foi realmente. Mas também é verdade -isso aparece agora com mais clareza– que, de algum modo, a situação ambiente se configurou como “exatamente contra” ao que a EL tem de mais próprio e substancial. Diríamos que o momento cultural atual é estruturalmente contraditório com a própria EL. Em muitos aspectos, professar hoje a EL é ir diretamente na contra corrente da plausibilidade social vigente. Muitos dos que a abandonaram simplesmente “não puderam fazer outra coisa”, honradamente não viram outra saída. (excetuando-se enunciados mais heróicos não se crê no que se quer, mas no que se pode...).
Pois bem, numa situação tão radical, não basta querer superar o problema com simples boa vontade, mas é conveniente medir bem a magnitude do problema e detectar a identidade exata de cada um de seus componentes, para estar capacitado a dar uma resposta “digerida” conscientemente, em vez de se empenhar em uma fidelidade cega e obstinada que não saiba “dar razão de sua esperança”. Ter bem assinaladas as características do problema já é parte da solução.
É isso que me proponho neste estudo: colocar nome concreto para os problemas, elencá-los e trazê-los à luz. Não pretendo resolvê-los nem dar-lhes resposta –se isso fosse possível– neste momento. Interessa-nos somente analisar de um modo particularizado como e em quais campos este contexto atual desafia (dificulta, julga, inviabiliza) a Espiritualidade da Libertação.
Faz-se difícil encontrar uma classificação “clara e distinta” dos fatores da crise, pois todos eles têm aspectos múltiplos mutuamente interligados e pertencem simultaneamente a níveis diversos. Por isso vamos abordá-los simplesmente de um modo sucessivo, sem marcar demais suas delimitações, prioridades ou mútuas relações.

1. Dificuldades provenientes da cultura ideológico- política atual.



Um primeiro bloco de dificuldades para com a EL é o fato de que, como disse José Maria Mardones, com frase lapidária, “a caída do Muro de Berlim indica o fim de uma política entendida como promessa de libertação; o fim da visão teológica da política; nós nos encontramos diante do fim do messianismo político e religioso”. (Neoliberalismo y religión, Verbo Divino, Estella, 1998, p. 45).
Ainda que o que “fracassou” com o Muro de Berlim não tenha sido nada mais que o experimento bolchevique, um a mais na grande história de tentativas para construir uma sociedade mais fraterna, o caso é que a atmosfera utópica e messiânica, em que todas aquelas tentativas militantes e esperançadas se desenvolveram, desapareceu em muitos setores e na sociedade como conjunto cultural. Já não é possível, para muitos, pensar o mundo em coordenadas de transformação histórica e libertação. A consciência de fracasso das tentativas revolucionárias realizadas nos últimos tempos calaram profundamente no subconsciente coletivo da sociedade. Perdeu-se a “inocência idealista”, e a sociedade ficou vacinada contra toda proposição utópico- messiânico; o cidadão moderno atual neoliberal se “ruboriza” diante da presença de um utopia messiânico- escatológica, ou sorri benevolamente. Fez-se céptico, pragmático, incrédulo diante das utopias, voltado ao aqui e agora, sem qualquer concessão para devaneios messiânicos.
O “pensamento único” dominante inculca a inviabilidade de toda mudança, a impossibilidade de encontrar uma alternativa, o convencimento de estar “no melhor dos mundos possíveis” no “final da história”, com a conseguinte desesperança por parte dos outrora militantes da transformação social e da libertação dos pobres.
Um dos eixos centrais da EL –como a estrutura central sobre a qual se constrói– é precisamente a leitura que faz da realidade em termos de história, de utopia e de praxe para realizá-la. A EL é um espírito que chama a pessoa para se auto realizar como sujeito, mediante o compromisso na praxe de transformação histórica de libertação, que quer se inspirar no projeto mesmo de Deus, manifestado na Causa de Jesus, assumida e feita Causa nossa. Isso, evidentemente, choca frontalmente com as dificuldades ideológico-políticas que esta sociedade atual tem com relação ao pensamento e à praxe utópica. É o próprio esquema mental da EL que é contrário à crise da cultura atual.

2. O pós modernismo.

Simultaneamente e, vindo sem dúvida de mais longe, ainda que reforçado também por esses fracassos históricos, tanto das tentativas socialistas e revolucionárias como dos mesmos processos revolucionários, difundiu-se amplamente um novo fator, o pós modernismo, com forte componente de reação decepcionada com o pensamento modernizante, com o qual também se considera que fracassou, não somente porque não trouxe o que suas promessas tanto tempo anunciaram, como também porque trouxe a frustração decepcionante, a desigualdade crescente, a depredação da natureza e uma forma de civilização estressante e violenta.
O pós modernismo está “de volta” das grandes visões de conjunto, dos grandes projetos históricos, das utopias e das grandes metas. Não crê neles. Recusa os “grandes relatos”. Refugia-se no fragmento: viver o momento presente (carpe diem), renunciando a grandes ideais e projetos históricos, resignando-se a um “pensamento débil” posto que não crê que seja possível outra coisa. A pós modernidade questiona e ridiculariza a militância, acreditando que ela é não só inviável e sem objetivo no atual contexto histórico, mas também ridícula e digna de melhor causa. Melhor causa que pode ser, para o pensamento pós moderno, a crescente valorização do prazer, do corpo, do hedonismo, do gozo estético...
Também esse pós modernismo está exatamente nas antípodas da EL. Essa tem em si mesma toda a característica de ser uma espírito irmão do pensamento moderno; e não é que ela seja assim por ocidentalismo e por modernismo, mas por herança bíblica, por imitação do Jesus histórico. É, em todo caso, isso sim, um pensamento forte, seguro de si mesmo, com um grande relato (o projeto de Deus, a Causa de Jesus, o Reino!). Por isso, não se pode suportar facilmente o pensamento light do entorno pós moderno. Diríamos que em princípio não se pode ser ao mesmo tempo pós moderno e espiritual da libertação. Como, então, viver e pregar hoje a EL?
A pergunta não é somente com relação a EL, mas ao cristianismo todo porque é o cristianismo inteiro que é um grande relato, “um pensamento forte e uma estrutura lógica de alguma maneira “moderna” (também aqui: não por influência moderna, mas por herança bíblica; talvez o modernismo seja devedor do cristianismo – através do qual teria bebido do pensamento histórico bíblico – e não o contrário).

3. “Destradicionalização”, relativismo e cepticismo.

Desde um campo menos filosófico e mais sociológico e cultural, um novo fenômeno que analistas e sociólogos, como Giddens, chamam de “destradicionalização” vem aprofundar o mesmo estado de coisas que o pós modernismo produz, acrescentando-se novos e mais abrangentes elementos de relativismo e cepticismo cultural.
O mundo se mundializou e hoje já todos existimos uns junto com todos os outros pelo bombardeio permanente dos meios de comunicação social, ainda antes que viajemos e caminhemos fisicamente ao encontro dos outros. Hoje, e já desde crianças, observamos, e as culturas, religiões, tradições, folclore, rituais de todos os povos da Terra estão muito perto de nós. E, ao observar todas essas tradições, torna-se inevitável a comparação com as nossas próprias. A partir desse momento, vamos compreendendo cada uma delas como “umas a mais” entre as muitas que existem na Humanidade, e assim vamos deixando de considerá-las como reflexos da objetividade do real para passar a considerá-las, por nós mesmos, como simples tradições, como construções humanas, queridas e muito nossas, mas despojadas agora desta auréola de justificação que dá o fato de considerá-las em referência a uma ordem objetiva universal indiscutível.
Nesta vizinhança universal exigida, a que nos submete a mundialização diante dos povos, culturas e religiões do planeta, o “sentido da vida” deixa de ser para nós (para cada povo, para cada sociedade) “o sentido”, passando a ser “um sentido”, um sentido mais entre outros, o sentido concreto em que nós nascemos, o sentido que nos foi dado (ou que construímos). Já não podemos desconhecer que há outros sentidos, e um incontido instinto de realismo nos diz que nenhum deles pode pretender ser “o” sentido, “o único” sentido.
O problema é que, quando o sentido da vida humana é assim descoberto como construção humana, deixa de ser sentido, deixa de ter sentido. As gerações jovens se incorporam à sociedade de um modo essencialmente diferente do modo em que nos iniciamos as 800 gerações anteriores; eles já não nascem nem entram em uma cosmovisão tida como objetiva, certa e indiscutível, mas em um mundo que sabem ser desprovido de toda pretensão de absoluto, de objetividade e de universalidade, carregado de relativismo e também de humildade. Humildade que em muitos casos não é fácil deslindar de um cepticismo latente ou declarado com respeito à existência de uma ordem objetiva, segura e indiscutível.
Assim, o resultado final converge com os enfoques deletérios do pós-modernismo: já não há grandes valores seguros, nem “grandes relatos” que possam se apresentar para nós, nem causas pelas quais valha a pena viver (e morrer! Camus dizia que as grandes causas pelas quais vale a pena viver são precisamente aquelas pelas quais vale a pena também morrer). Para uma sociedade “destradicionalizada”, já não existem verdadeiramente essas causas, pois elas não são mais que “construções humanas de sentido”, às quais não se quer renunciar para não perder o gozo que proporcionam e para não ficar despidos ante a falta de sentido da vida, - mas às quais tampouco se pode prestar uma adesão vital, cordial, apaixonada, já que tudo nessa “destradicionalização” aparece como sem profundidade, desprovido de consistência objetiva e reduzido à “ilusão de sentido” na qual consiste a vida humana. O relativismo e o cepticismo espreitam de perto.
Essa é, sem dúvida, uma cosmovisão nova, que, para nós que nascemos e nos configuramos como adultos em uma sociedade de tradições fortes, é difícil captar, mas é uma cosmovisão emergente nas novas gerações, que está formando um homem e uma mulher realmente novos, bem diferentes dos “tradicionais”.
A EL é um pensamento forte, um espírito convencido e entusiasmado, uma paixão consciente do que vive e enamorada de Causas pelas quais vive e está disposta a morrer, apoiada na grande tradição de Jesus à qual se remete, reivindicando precisamente sua fidelidade e sua imediata proximidade. As gerações jovens -e todos os que de alguma maneira entraram nesta “destradicionalização”– não vão poder assimilar a EL se não ajudamos a fazer uma acomodação de categorias e uma releitura da EL em diálogo com esta nova cultura geracional emergente.
Separadamente, –como logo veremos- resta-nos refletir hermeneuticamente na possibilidade de ser crente “destradicionalizado”, como em outros momentos estudamos a possibilidade de ser “crente a- religioso”, categorias todas elas aparentemente contraditórias, mas carregadas de possibilidades em sua aparente impossibilidade.
Tudo isso não é algo que ocorre particularmente com a EL, mas com toda espiritualidade e crença religiosa.

4. Hegemonia neo-liberal conservadora

É desnecessário insistir no evidente: a direita, o capital, os poderosos levam a hegemonia neste mundo atual. Costuma-se dizer de muitas maneiras: o neoliberalismo triunfou, estamos em uma revolução da direita, tivemos nestes anos uma avalancha do capital contra o trabalho: A “globalização” financeira mundial, o domínio e o controle que o capital conseguiu articular a nível planetário, até se mover sem qualquer restrição ou imposição tributária e até chegar a ter mais poder que qualquer entidade política ou de outro gênero, seria a expressão simbólica e ao mesmo tempo efetiva desta hegemonia das classes poderosas e endinheiradas.
Não é que somente as idéias socialistas – ou ao menos socializantes – estejam em declínio ou tenham menos adeptos, mas, na opinião pública dominante – a controlada pela classe dominante, a que se expressa pelos grandes meios de comunicação massiva- estão desprestigiadas e com freqüência satanizadas. Em muitas ocasiões, os mesmos setores populares pobres reproduzem esse “pensamento único”, dominante, hegemônico, de um modo a-crítico e ingênuo, freirianamente introjetado como por osmose pelo ambiente. Não é preciso ser marxista para recordar aquelas palavras do Manifesto: “As idéias dominantes de cada época foram sempre as idéias dominantes da classe governante”. Não é diferente do que está acontecendo agora.
Não cabe dúvida de que uma “hegemonia” dos poderosos e ricos, na cultura e na opinião pública da sociedade, é um ambiente negativo, de dificuldade acrescentada à dificuldade que a EL carrega em si mesma. Os pobres e seus interesses, com os quais a EL se identifica, são interesses secundários, inclusive antagônicos numa sociedade sob o influxo de tal hegemonia. Os pobres estão excluídos de todo o protagonismo. Corresponde a eles somente deixar-se levar por aqueles que estão capacitados para conduzir a sociedade. Os pobres só podem ser objeto (de misericórdia, de beneficência), mas não sujeitos de sua própria história. Os que cometem a loucura de apostar (optar) pelos pobres optam também por ficar fora do protagonismo da história, que corresponde aos que detêm a hegemonia ou pactuam com ela.
É mais difícil assimilar e viver a EL nestes tempos da atual hegemonia neoliberal, conservadora e de direitas, do que na sociedade latinoamericana de trinta anos atrás. Apesar das ditaduras militares e da repressão, toda ela era um clamor pela justiça, pelas reivindicações sociais, pelas transformações revolucionárias... Esse clamor pela justiça era detentor da “hegemonia” dos pobres na sociedade de então. Abraçar a EL naquela hora não era uma decisão contrária à marcha da sociedade, mas algo que gozava da plausibilidade social mais alta e da aceitação coletiva mais profunda. Hoje sucede o contrário, e a EL não pode ignorar isso.

5. Depressão psicossocial

As sociedades têm também sua psicologia. Por mais que nos pareça que somos autônomos e independentes em nossa vida, somos também membros da sociedade e participamos inevitavelmente de seus estados de espírito, altos ou baixos, sãos ou enfermos, que nos afetam, de um modo ou de outro, com maior ou menor intensidade.
Em outro lugar, sustentei que, concretamente na América Latina dos anos 90, e olhando para ela do lado dos interesses dos pobres, podemos descobrir que entramos há algum tempo numa “noite escura” que, psicologicamente, pode ser explicada, dentro das hipóteses da psicologia condutivista, como depressão. Nossa sociedade latinoamericana, como resultado da crise da passagem dos 80 aos 90 – que culminou numa trabalhada história de várias décadas de luta e conflito, de heroísmo e martírio, de esperanças e fracassos -, entrou em uma etapa de depressão psicológica em muitos setores populares que até então haviam levado o peso da militância e da esperança. Todos os sintomas coletivos evocam a mesma síndrome de depressão individual, com um claro paralelismo. É algo que tratei de mostrar em meu livro “Aunque es de noche”.
A EL tem que ser consciente de que ela é contrária a uma depressão psicológica. A EL é paixão, força, criatividade, energia, enamoramento, vida e luta pela causa, tenacidade (“teimosia”)... e há de saber, portanto, que em uma situação de depressão coletiva psicossocial, o sujeito social mesmo –e em cada caso também talvez o sujeito individual– está impossibilitado de viver essa espiritualidade com esse espírito.
Será que a EL não é possível em nossa sociedade? Não diria tanto. E a prova dessa possibilidade é que ela existe, nós a apalpamos, há muitos setores que a proclamam e por ela se sentem inspirados e transformados. Direi, no entanto, que numa sociedade na qual essa síndrome depressiva aparece, a EL será duplamente difícil; e deverá contar sempre com essa dificuldade a mais. Talvez deva, inclusive, encontrar formas “light”, ou seja alimento de criança para aqueles que não agüentam o alimento adulto, mas que estão dispostos a responder, a seu modo, ao chamado da esperança, “mesmo que seja noite”.

6. A animosidade da instituição eclesiástica.



A estas alturas da história, e após as últimas décadas, talvez já não cause espanto – como se isso pudesse ter acontecido em outros tempos - a afirmação de que uma das patologias próprias da Igreja católica é o tema do poder e de sua relação com o carisma, com a profecia, com o compromisso criativo com a libertação dos pobres. Os interesses da instituição não somente são muito poderosos por serem próprios de uma entidade internacional de tal envergadura, mas pela própria estruturação da desigual distribuição jurídica (canônica) do poder dentro da comunidade cristã. A história da igreja católica é uma trabalhada história de repressão contra todos os brotos proféticos que surgem em seu seio. Existe um rosto oculto do cristianismo na história dos movimentos proféticos de compromisso com os pobres, de diálogo com a vanguarda profética da sociedade, sufocados e reprimidos pela autoridade eclesiástica, como o deus grego que devora seus próprios filhos, aqueles que mais poderiam devolver-lhe a vitalidade e a criatividade perdida.
A TL e a EL se inscrevem nessa corrente profética que atravessa toda a história. Foram o broto profético que na segunda metade do século XX levou mais à frente a renovação do cristianismo, o diálogo com a modernidade (da primeira e da segunda ilustração), a volta a suas origens proféticas mais primitivas de compromisso com a justiça e com os pobres. Enquadrada no movimento de reconciliação da Igreja católica com o mundo contemporâneo, depois da primavera iniciada com o Concílio Vaticano II, imediatamente a esperança foi abortada com o movimento de involução que implementou o cardeal Wojtila, dirigente do grupo de oposição (coetus minor) derrotado no Concílio, quando foi nomeado Papa, ajudado pelo teólogo José Ratzinger, que por sua vez modificou profundamente a primeira orientação de sua teologia. A TL e a EL foram atacadas frontalmente – com um afã e persistência digna de melhor causa – mediante a perseguição de agentes de pastoral, o pretendido esquecimento dos mártires, a censura e o silenciamento dos teólogos, a destituição autoritária de autoridades (CLAR, congregações religiosas...), a imposição ao povo de Deus de bispos numa linha conservadora radical em sistemática desestima da própria voz desse mesmo Povo de Deus, a desvalorização progressiva das conferências episcopais até o sufocamento da grande tradição da Igreja latinoamericana, construída em Medellin e Puebla e bloqueada na imposição metodológica de Santo Domingo e no centralismo emudecedor do Sínodo para a América em Roma...
Falou-se da Igreja como sociedade “disfuncional”, enferma, carregada de medo e carente de coragem para dar respostas novas e criativas que concretamente nestas décadas já não resolve os problemas, mas simplesmente os prorroga, repetindo respostas que provavelmente não os resolvem.
Neste contexto tão conhecido, e tão poucas vezes tematizado serenamente –como efeito mesmo do que descrevemos- a TL e a EL hão de saber, sabem que, ainda dentro da Igreja, estão em terra estranha, exiladas, clandestinas e perseguidas. Vencidas, mas não convencidas... Este é um desafio real, muito concreto, muito doloroso, quase nunca tematizado. E a pergunta é: como fazer teologia e como viver a EL no seio de uma Igreja que a persegue e que se mostra radicalmente incapacitada para dialogar? Talvez, precisamente por amor à Igreja, a TL e a EL não tenham elaborado praticamente o tema da contenda, a análise desta situação disfuncional e anômala que atravessamos. Mas, sem dúvida, é uma de suas tarefas pendentes e inclusive urgentes, tanto por motivos evangelizadores e missionários, como em atenção a tantos cristãos e cristãs que vivem sinceramente o cristianismo a partir desta ótica libertadora tão genuinamente evangélica e se acham gravemente desconcertados e decepcionados.

7. As suspeitas confirmadas.

A crise do marxismo fez com que alguns esquecessem muito precipitadamente desenvolvimentos elementares da sociologia da religião que já possuíamos pacificamente.
Não é preciso reviver qualquer extremismo ideológico para se fazer consciente do que já pertence ao acervo popular: a religião sempre tem, ineludivelmente, uma dimensão social e política. Desempenha um papel na sociedade, não pode deixar de desempenhá-lo e tampouco pode subtrair-se ao influxo social, nem pode deixar de ser requisitada pela sociedade para cumprir um papel que atenda os interesses dos que o reclamam.
O quadro atual que os diversos fenômenos da religiosidade compõem se presta facilmente a uma interpretação das diversas funções sociais cumpridas pelos movimentos religiosos maioritários. Um comentarista tão alheio aos interesses eclesiásticos e aos dos pobres e aos da TL, como Huntigton, professor de Harward, apresentado como expert em transformações mundiais, sustenta a tese de que a religião conservadora e fundamentalista é, paradoxicamente, a que melhor se adapta ao mundo moderno da globalização.
A modernidade, diz, está chegando já à prática totalidade do planeta, não quanto do desenvolvimento humano, lamentavelmente, mas nas estruturas de dominação que se fazem presentes em toda parte. Não poucas religiões tentaram um diálogo com a modernidade a nível profundo, com meritórias tentativas de aggionamento e reformulação. Mas – diz Huntigton – os resultados não foram favoráveis, e sim perturbadores e desestabilizadores para as grandes religiões como instituições mundiais. Ao contrário, a religiosidade fundamentalista é a que está se revelando como mais conjugável com a modernidade mundializada. Esta religiosidade aceita a modernidade em seus sucessos científico-técnicos e em sua eficácia produtiva, assim como no jogo democrático representativo, já que compatibiliza e combina essa aceitação com uma interpretação fundamentalista clássica, que se nega a toda hermenêutica atualizadora e reafirma o mais tradicional, oferecendo orientação, tranqüilidade, segurança dogmática. Isto é, aceita os sucessos da modernidade, mantendo as vantagens da tradição.
Definitivamente, o fundamentalismo é a religião do presente neoliberal porque é a que melhor resolve as necessidades dos indivíduos submetidos aos traumas da modernidade, já que deixa passagem inteiramente livre para a economia neoliberal de livre mercado, interesse supremo do capital e dos grandes deste mundo. Assim, Huntigton, a quem se pode acusar de qualquer coisa, menos de propensão ao marxismo, interpreta para nós o papel da religiosidade no atual quadro da modernidade neoliberal com base em sua funcionalidade para com o sistema.
É evidente que a TL e a EL são disfuncionais ao sistema. Não somente porque supõem um diálogo em profundidade com a modernidade, que reinterpreta a religião mesma e produz, não poucas vezes, insegurança e desestabilização, mas também porque representam e fazem seus os interesses dos pobres em seu tríplice caráter de sujeito coletivo, conflitivo e alternativo. Tudo isso, realmente, não é nada novo; mas em um tempo em que a hegemonia silencia esses aspectos, é bom recordá-los e retomá-los.
A TL e a EL são uma peça de discórdia e conflito na engrenagem do sistema socioeconômico e, também aqui, poderão sair na frente, somente na contramão, “desde o reverso da história”, “com os pobres da terra” e com o “pequeno resto de Israel”, que possa se manter a salvo dos movimentos de massa bem controlados pelo sistema. A EL há de saber que tem diante de si, em contra, todo o sistema da globalização e que só será tolerada enquanto esteja calada. Quando a influência de sua denúncia exceder os limites toleráveis pelo sistema, voltarão a perseguição e o sangue até o martírio. Há de saber também que essa hegemonia neoliberal atravessa a Igreja e que também nela coloca todos os ventos contra os que defendem o Reino de Deus entendido como boa nova para os pobres. É tempo de exílio- na Igreja e no mundo- além de ser permanentemente tempo de êxodo. Hoje, mais que nunca, temos que ser conscientes de que o Senhor não nos chama ao triunfo histórico, mas escatológico...

8. O desafio do pluralismo


Sempre houve na humanidade pluralidade de religiões. O que não houve é o pluralismo, aquele que começa quando as religiões travam contato (em vez de se ignorarem) e estabelecem alguma forma de reconhecimento mútuo e, eventualmente, de colaboração. É uma realidade inevitável num mundo crescentemente unificado como atual. O diálogo, a mútua influência entre as religiões começou já de fato e está em curso na arena da vida religiosa da humanidade, ainda antes dos diálogos oficiais das cúpulas de diferentes religiões.
Por sua parte, o tema teológico do pluralismo religioso é reconhecidamente novo, pois “surgiu no tempo de vida da presente geração” (Hick); no entanto, alcançou um desenvolvimento notável sobretudo no mundo anglo saxão. Atualmente está invadindo- é uma verdadeira irrupção- o campo latino e está fazendo sentir seu desafio em todos os tratados teológicos (sobretudo na cristologia e na eclesiologia), assim como na liturgia, na linguagem, nas categorias... que foram criadas em um modelo exclusivista e ignorante da existência de outras religiões, e que exigem agora que sejam reformulados e adaptados às novas coordenadas.
Há grandes temas mais concretos, ainda que transversais, que experimentaram já uma revisão mais profunda: a própria concepção de revelação, a missão evangelizadora e missionária, a “eleição” do “povo de Deus”...
Também a TL e EL hão de enfrentar este desafio. Não podemos pedir que tenham antecipado tudo isto. Vão resistir muito dignamente ao desafio, mas em todo caso, certamente, devem enfrentá-lo, desenvolvendo ulteriores proposições. Concretamente o macroecumenismo da EL, se bem que em boa parte se tenha antecipado aos questionamentos atuais, pode sem dúvida dar um passo adiante em diálogo com tudo que se elaborou nestes últimos anos em torno deste tema do diálogo religioso.
Podemos dizer sem dúvida que o diálogo e o pluralismo religiosos são “um novo paradigma”, um novo esquema de pensamento, um salto qualitativo com o qual todo o universo do pensamento cristão está desafiado a concordar. Até onde nos levará...? É difícil prever, mas aqui temos já, para este início de terceiro milênio, uma tarefa coletiva nova, inexplorada, que, sem dúvida, vai ser apaixonante.
Quero destacar a chamada de atenção que há algum tempo Paul Knitter - um dos mais destacados teóricos dos questionamentos pluralistas - fez sobre a necessidade de que os teólogos do pluralismo religioso dialoguem com os teólogos da libertação. O “novo paradigma” do pluralismo religioso não vai significar uma abandono da TL e da EL. Ao contrário, vai pedir que o cristianismo traga ao diálogo inter-religioso o mais nuclear de si mesmo, o que constitui a própria essência do cristianismo, e, nesse campo, ninguém como a TL e a EL tem conseguido se remeter ao mais primitivo da herança bíblica e judeu-cristã. A TL e a EL não vão ser substituídas pela teologia do diálogo religioso, mas vão ser nele continuadas e continuadamente convocadas a se incorporar ao diálogo. O caminho prossegue.

9. A crise epocal.


Podemos assim chamar a uma crise mais ampla, mais de fundo, mais profunda e mais embaixo de tudo que acabamos de dizer, como uma crise que afeta os cimentos de todo o edifício. Martin Buber a chama de “eclipse de Deus”, lembrando-nos a expressão “Deus está morto” de Nietzsche. Juan Bautista Metz a chamou de “crise de Deus”, considerando-a o “fato nuclear” que está repercutindo na configuração da pessoa humana moderna. Os traços desta crise de religiosidade atual foram prodigamente descritos pelos comentaristas e sociólogos e não vamos repeti-los aqui.
Na prática, na Europa e na América do Norte, a gravidade da situação adquire níveis dramáticos. Claude Imbert, diretor de “Le Point” fala do “desmoronamento do universo cristão”. E. Poulat fala de uma “era pós-cristã”, de uma lenta “evaporação do sistema cristão” ou de uma “crise espetacular” que as Igrejas – sobretudo a católica – estão atravessando hoje em dia, e da distância considerável que existe entre a Igreja solenemente convocada por João Paulo II para o jubileu e aquela que cada dia os sociólogos da religião quantificam e analisam. Os números, com efeito, confirmam esta interpretação: nos Países Baixos, por exemplo, no Centro da Europa, a percentagem dos cidadãos que têm ensino superior e declaram não formar parte de nenhuma Igreja passou de 44% em 1970 para 66% atualmente. Se dermos crédito a um estudo recente, 75% dos holandeses estarão fora de qualquer Igreja em 2010. A prática dominical continua em baixa contínua em todos os países europeus, e o catolicismo alemão perde concretamente cada ano cerca de duzentos mil fiéis. Na católica Espanha, José Maria Mardones afirma que “em dez anos, os efetivos eclesiais estarão dizimados, algumas instituições religiosas e dioceses praticamente desaparecerão”, e acrescenta: “o pior é que já não há possibilidades de reagir criativamente, cabem apenas medidas reativas e de defesa: fazer uma retirada ordenada e inteligente, com o menor custo possível.
Não pensemos muito precipitadamente em nosso Continente na hora de resolver a crise primeiromundista, porque a Igreja católica do Brasil perde anualmente mais de 500 mil fiéis, que emigram para as Igreja evangélicas e para novos movimentos religiosos (Lupeau – Michel). No mesmo Brasil, 70% das celebrações dominicais se realizam sem a presença de ministro ordenado.
É lógico que, numa situação assim, a Igreja católica registre as reações típicas das instituições em perigo ou em crise de esperança, como aquelas às quais aludimos no item 6. É um círculo vicioso que esperamos que seja logo quebrado.
É lógico que, a EL, ao ser uma espiritualidade voltada para o mundo, reinocêntrica, não esteja espontaneamente inclinada a se ocupar do intraeclesiástico. A isso acrescenta-se um sentimento como de pudor e de pena; preferiríamos que tudo isso não fosse realidade e, por ser desagradável, tende-se a pensar que é melhor construir positivamente o Reino fora do que discutir a problemática interna dentro...
Mas toda essa situação de mal estar e de desconforto é algo cujo enfrentamento a TL e a EL não podem continuar adiando. Os muitos cristãos e cristãs desorientados e decepcionados merecem uma palavra. A gravidade da situação também merece uma abordagem urgente, humilde, mas nada tímida. A libertação integral que a TL e a EL proclamam inclui a libertação da desesperança e da crise de futuro que esta situação está gerando.

10. Um novo tempo axial?



Dispostos a ir até o fundo na análise da crise em curso, devemos tomar consciência das múltiplas vozes que repetem uma e outra vez que estamos em uma “mudança de época”, muito mais profunda do que se poderia imaginar. Cada vez é mais freqüente a lembrança da mutação civilizacional que Jaspers denominou de “mudança do tempo eixo”, que abarcou aproximadamente uns 500 anos, entre 800 e 200 A.C., e que introduziu na consciência humana uma ruptura radical, a partir da qual se operou uma profunda inflexão no curso da história e da civilização tal como as conhecemos hoje em dia (Carlos Palacio).
A secularização, entendida como esse processo que começou na idade moderna, não é a causa última da crise que experimentamos. Para Pánikar, a secularidade atual indicaria que “o passado período de 6.000 anos está sendo substituído progressivamente por outras formas de consciência. No meu entender, a consciência histórica, ou o mito da história, começou a ser substituído Kairologicamente (não cronologicamente) pela consciência transhistórica. Talvez estejamos enfrentando outro “período axial”.
Tudo parece abonar a hipótese de que nossa época está vivendo uma mudança religiosa que não se esgota na reelaboração da tradição, como ocorreu permanentemente ao longo da história religiosa da humanidade, mas que autorizaria a afirmação de que se trata de uma mudança no próprio horizonte em que se inscrevem as tradições e no sentido que lhes é atribuído. Isto é, forçaria a reconhecer uma verdadeira “metamorfose do sagrado” (J. Martin Velasco).
Acontece uma crise das crenças, uma progressiva emancipação dos crentes com respeito à ortodoxia vigente nas Igrejas, abandonam-se as práticas religiosas, distanciam-se os fiéis da moral oficial, dilui-se o sentimento de ser propriedade da instituição, produz-se uma regulagem individual do sistema religioso (uma “religião de escolha”)... A crise da religião nos países ocidentais de tradição cristã é um fato unanimemente reconhecido. E, afortunadamente, cada vez se é mais consciente da envergadura e da profundidade epocal que a crise tem...
A crise é, então, maior e mais profunda do que se poderia imaginar à primeira vista. Não é nossa, não é da TL e da EL. Transborda inteiramente, é impossível abarcá-la. Nós a sofremos, estamos no meio dela, como ocorre com todos os outros. Convém sermos conscientes disso para não desanimar nem culpabilizar-nos indevidamente. A própria crise precisa de ser sistematizada como um novo Kairós moderno, uma oportunidade de reformular, de reinterpretar, de recriar inclusive toda a religiosidade em diálogo com a situação do homem e da mulher modernos. A TL e a EL, em vez de maldizer a escuridão da crise, hão de colaborar para acender uma luz.
Perguntamo-nos: será que a TL e a EL, com o que significaram no momento de sua irrupção na terceira parte do século XX, eram precisamente uma tentativa positiva e original de recriação (“refundação” é o nome usado agora) do cristianismo, que respondia a essa necessidade epocal de repensar tudo de cima até embaixo? Acreditamos que sim, acreditamos que, apesar de perseguidas e difamadas, a EL e a TL serão os pontos mais avançados do cristianismo, que ajudarão a atravessar a crise com credibilidade e com criatividade.

Questões para ajudar a Leitura individual ou o Debate na Comunidade religiosa o na Comunidade cristã.


1. A Vida Religiosa latino-americana e as CEBs têm sido os sujeitos coletivos a quem a Espiritualidade da Libertação mais deve. Por sua própria natureza de experiência forte de Deus, de seguimento de Jesus em radicalidade, de liberdade diante da estrutura hierárquica do poder, procurou libertar-se para se deixar impulsionar pela profecia e pela solidariedade com os oprimidos.
Como esta hoje a vida religiosa a respeito da EL? Continua sendo um sujeito coletivo que a apóia? Sai a vida religiosa em defesa da opção pelos pobres, na defesa das perspectivas liberadoras? Onde está hoje maioritariamente a vida religiosa em seu compromisso com os pobres e excluidos: alentando a libertação ou a resignação, com o asistencialismo da promoção humana ou com os projetos liberadores, consolando ou conscientizando…?

2. (A respeito especialmente do ponto 6, a situação eclesial). Qual é realmente a situação da Igreja como comunidade humana e cristã hoje em dia, com relação à liberdade, com relação aos direitos humanos dentro dela, a participação comunitária em sua gestão, a situação da mulher?
Como qualificar a posição atual dos religiosos e das comunidades cristãs diante desses problemas: ausência, participação no sofrimento, denúncia profética, ajuda positiva (ainda que inevitavelmente conflitiva) para fazer a Igreja avançar, inibição, voz dos que não têm voz, compromisso militante contra qualquer tipo de opressão dentro da Igreja?

3. Por baixo da aparente crise de simples cansaço, apatia ou depressão, as águas estão se movendo profunda e vertiginosamente. O tema do diálogo interreligioso e do pluralismo religioso irromperam com toda força no cenário mundial das religiões. Está em curso por outra parte uma crise de fundo de dimensões epocais. Muitas coisas do velho mundo que morre clamam por uma reformulação criativa, uma recriação original que as torne aptas para dialogar com o mundo novo que ainda não acabou de nascer.
Como estamos como religiosos/as, “especialistas em Deus” no dizer de Paulo VI, e as comunidades cristãs de vanguardia, diante de todos estes desafios da espiritualidade da libertação? Temos lido ou ouvido falar em nossa comunidade da renovada opção pelos pobres em contexto neoliberal? da teologia do pluralismo religioso? Quanto temos estudado ou simplesmente escutado sobre a metamorfose atual do religioso em comparação com a crise do “tempo axial” que Jaspers situa no século VII A.C.? São temas que estão na agenda de nossa formação permanente, pessoal ou comunitária? Que preocupação lhe dedicam nossas congregações como entidades globalmente responsáveis? As congregações que se dizem missionárias estão preocupadas em estudar e enfrentar estes fenômenos que indicam como será o futuro, ou estão simplesmente tapando os buracos de um sistema já decadente, destinado a morrer?

Publicado em papel em “Convergência” (abril 2001)155ss


* autorizado pelo próprio autor para a divulgação neste blog *

BÍBLIA E LITURGIA: REFLEXÕES DA CAMINHADA VIII

BÍBLIA E LITURGIA: REFLEXÕES DA CAMINHADA VIII

"Hoje nasceu para vós na cidade de Davi o Salvador, o Messias e Senhor. Isto vos servirá de sinal: Encontrareis um menino envolto em panos e deitado numa manjedoura" (Lc 2,11-12)


Eis o grande milagre de Deus: a sua Encarnação/Ressurreição no meio de nós!
Tão simples assim, tão humano assim, só poderia ser Deus!
Qual é a nossa surpresa hoje, quando refletimos sobre a Encarnação/Ressurreição de Deus no meio de nós?
Outra pergunta: o que sinto de mais profundo neste fato, que queima e acende novas e velhas esperanças caladas dentro do peito?
E em você minha jovem, meu jovem?
Neste tempo litúrgico,a esperança brota do coração da(o) jovem que acredita que o mistério da encarnação do Verbo, e sua inculturação neste chão latino-americano, em toda a humanidade, deve ser celebrado como sacramento pascal.
É vida e alegria!
É o compromisso com a liberdade do povo, a liberdade que Jesus veio estabelecer.
No passado, o 25 de dezembro, era uma festa romana, portanto pagã, ao "sol invencível", que recebeu novo sentido: celebrar a memória da natividade de Jesus, o Cristo, "SOL DA JUSTIÇA"!
E como estão nossas crianças? Possuem ao menos uma manjedoura? E o que fazemos para mudar tal realidade?
Na maioria das vezes apenas falamos e escrevemos, o papel tudo aceita, e o que entra por um ouvido costuma sair pelo outro.
Nos preocupamos com a festa, os presentes e o local para colocarmos o presépio...Mas, isto é tudo?
Encontramos pessoas, que participam de comunidade, de grupos diversos, que não acreditam que o Filho de Deus fosse tão pobre assim, mas os evangelistas se preocupam, no nosso caso, Lucas, o grego, o médico, o companheiro de Paulo em sua segunda viagem missionária, em escrever aquilo que ouviram/ouviu das primeiras testemunhas.
É claro, que ligar Jesus à cidade de Davi, é assegurar a renovação da Aliança entre Deus e o seres humanos, é o cumprimento das Escrituras!
Se fez humilde, simples e jovial.
Se fez pobre, se fez ser humano.
É lembrar das palavras de Leonardo Boff, em sua obra - NATAL: A HUMANIDADE E A JOVIALIDADE DE NOSSO DEUS - Vozes, 1976: " O Natal revela o projeto que Deus se propusera a si mesmo. Deus quis comunicar-se de forma completa a um outro ser diferente dele. Dignou-se dar-se de presente a alguém. Não quis ficar unicamente Deus. O criador dispôs-se fazer-se também criatura ".
Convido você agora a ler esta obra e a viver em plenitude o Natal.
FELIZ NATAL. A PAZ ESTEJA COM VOCÊS!

Emerson Sbardelotti


Membro do Grupo de Assessores da PJ da Arquidiocese de Vitória do Espírito Santo

BÍBLIA E LITURGIA: REFLEXÕES DA CAMINHADA VII


BÍBLIA E LITURGIA: REFLEXÕES DA CAMINHADA VII


FESTA DE CRISTO REI: JESUS CRISTO, SENHOR DO UNIVERSO


Todos os anos, a Igreja comemora a Festa de Cristo Rei, encerrando assim o Ano Litúrgico e abrindo a casa para a salvação que vem. A Igreja se prepara para o Advento e o Natal do Senhor Jesus.

Na Festa de Cristo Rei, somos chamados, convocados, convidados a partilhar a vitória da justiça que aconteceu na ressurreição de Jesus. A única realeza que brilha é a justiça prometida por Ele, desejada por todo ser humano que luta por direito e por dignidade na vida; justiça, que em nosso Brasil, em nossos Estados, pouco se celebrou neste ano que está por findar...
O Evangelho nos apresenta Jesus como Rei e Juiz Universal, mas emprega a imagem de Pastor para mostrar o Mestre da Justiça, julgando a nós e a história que ajudamos a construir a cada dia.
A solidariedade e a partilha, são sinais da presença salvífica de Jesus no mundo; ser solidário é estar no caminho de transformação, partilhar é cultivar a esperança que insiste em dizer que a vida é viver.
Quem são os irmãos menores de nossas comunidades hoje? De nossa sociedade?
O que estamos fazendo para mudar a situação?
A Festa de Cristo Rei é a festa da vida em comum, da vida digna e fraterna.
Festejar a justiça em comunidade é festejar a vida.
Há um ditado popular que diz: "Em terra de cego, quem tem um olho é rei"...continuamos a pensar assim?
Somos felizes apenas quando levamos vantagem?
Não é este o sentido da Festa de Cristo Rei. O sentido é uma preparação, uma espera para o que virá.
E o que virá?
A Vida, a Vida!

Emerson Sbardelotti 
Mestre em Teologia pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo
BÍBLIA E LITURGIA: REFLEXÕES DA CAMINHADA VI

"Nisso chegaram os discípulos e se maravilharam ao vê-lo falar com uma mulher. Mas ninguém lhe perguntou o que procurava ou por que falava com ela" (Jo 4,27).


Certa vez, lecionando Segundo Testamento, na Escola de Teologia para Leigos(as), da Paróquia Bom Pastor, em Campo Grande, Cariacica/ES, conversávamos sobre "A SITUAÇÃO DA MULHER NO TEMPO DE JESUS".
Eu dizia que a estrutura social era patriarcal, a mulher não tinha direitos. Como mãe, ela era respeitada, reverenciada e bendita por seus filhos homens, pois são presentes e bênção de YHWH.
No tempo de Jesus a mulher judia era considerada em tudo inferior ao homem. Poderia ser vendida como escrava, pelo pai, quando tivesse entre 6 e 12 anos e meio de idade.
A religião judaica era uma religião de homens.
Apesar de serem numerosas não contavam, por exemplo, num culto na sinagoga, só começava se tivesse no mínimo 10 judeus; mas eram obrigadas a cumprir todas as proibições da Lei, inclusive a pena de morte.
Havia uma oração que os judeus do século II d.E.C., faziam na sinagoga:
"Rabi Jehuda diz: devem ser feitas três orações diárias:
Bendito seja Senhor que não me fez pagão.
Bendito seja Senhor que não me fez mulher.
Bendito seja Senhor que não me fez ignorante.
Bendito seja Senhor que não me fez pagão:
Porque todas as nações diante dele são como nada (Is 40,17).
Bendito seja Senhor que não me fez mulher:
Porque a mulher não está obrigada a cumprir os mandamentos.
Bendito seja Senhor que não me fez ignorante:
Porque o ignorante não se envergonha de pecar".
Depois que escrevi no quadro esta "oração", uma mulher falou:
"Eles esqueciam que Deus é mãe também?"
Eu lhe respondi com uma outra pergunta:
"Não se tem tratado as mulheres da mesma forma hoje em dia?"
"Qual é a atitude de Jesus perante às mulheres?"
Ela respondeu:
"A atitude de Jesus é enfrentar a estrutura patriarcal, é a de iniciar um diálogo sincero, criar laços de amizade, ter discípulas não importando se são solteiras, viúvas ou casadas. As primeiras testemunhas da ressurreição são as mulheres-discípulas".
Nada mais falei, não havia o que dizer, aquela mulher simples do povo já havia dito tudo. Só comentei que na genealogia de Jesus encontramos cinco mulheres: - Tamar, Raab, Rute, Betsabéia e Maria (cf. Mt 1,1-17) que são precursoras da Promessa.
É bom lembrar sempre: - o argumento de uma mulher pagã prevaleceu sobre o de Jesus (cf. Mc 7,24-30).
E cabe perguntar: - "E nos nossos grupos de base da PJ, como tem sido esta relação – participação das jovens mulheres?"


Emerson Sbardelotti
Mestre em Teologia pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo

BÍBLIA E LITURGIA: REFLEXÕES DA CAMINHADA V

BÍBLIA E LITURGIA: REFLEXÕES DA CAMINHADA V

"Se levanta da mesa, tira o manto e, tomando uma toalha, cinge-a. A seguir, põe água numa bacia e começa a lavar os pés dos discípulos e a secá-los com a toalha que tinha cingido" (Jo 13,4-5).


Em 1988, eu participava do grupo JEFAC (JOVENS EM FUNÇÃO DO AMOR DE CRISTO), da CEB Nossa Senhora do Magnificat, Jardim Marilândia, Vila Velha/ES. O grupo e a equipe de liturgia haviam se responsabilizado pela encenação da Semana Santa, indo do domingo de Ramos até o domingo da Páscoa.
Das celebrações, a que me gritava mais forte no coração era a do lava-pés!
A cena é muito forte: simples e reveladora.
A partir dela entendi qual era o meu papel no grupo de jovens, na paróquia e na sociedade como um todo: - "servir o meu próximo!"
Percebi que a ação simbólica de Jesus não era uma ação de poderes plenos, mas havia um enorme desejo de humildade: transformadora e inquietante.
Senti em meu coração, no silêncio, que Jesus lavava os pés de todos(as) que estavam presentes naquela celebração, e também aquelas que não estavam.
Pela primeira vez na vida ouvi a palavra DIACONIA, que significa serviço.
Jesus estava me mostrando como ser um diácono.
Lembrei-me que segundo o livro de Gênesis (cf. 18,4), oferecer água ao hospede que lavasse os pés, por causa da poeira do caminho, era um gesto cortês de quem recebia. Mas o ato de lavar os pés, não cabia ao dono da casa ou a um mestre; nenhum homem judeu lavava os pés de outro homem judeu, isto era um serviço para escravos pagãos.
As mulheres judias eram obrigadas a lavar os pés dos seus maridos.
Pude notar que o gesto de Jesus, a princípio, era escandaloso, principalmente para os discípulos que nada entenderam. Somente mais tarde, quando as primeiras comunidades começam a sofrer perseguições por parte dos judeus e do Império Romano é que se entenderá o profundo significado do gesto de Jesus.
O exemplo deste serviço humilde deve animar a vida de nossos grupos de base da PJ!
Não somos convocados para que nos sirvam, nossa missão está em servir sem esperar "obrigado" ou agradecimentos.
No final da celebração, envolto em meus pensamentos, me perguntava: - "você reparou que Jesus não tirou a toalha da cintura após secar os pés dos discípulos?"
Acredito que esta toalha tenha sido repartida com as outras peças de roupa que Ele usava, quando já estava na cruz. Não há comentários no próprio evangelho, que Ele tenha tirado ou depositado em algum lugar, deixando entender que a tenha usado até o final.


Emerson Sbardelotti
Mestre em Teologia pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo

BÍBLIA E LITURGIA: REFLEXÕES DA CAMINHADA IV

BÍBLIA E LITURGIA: REFLEXÕES DA CAMINHADA IV

"Jesus empreendeu viagem com seus discípulos para as aldeias de Cesaréia de Filipe. No caminho perguntava aos discípulos: - Quem dizem os homens que eu sou?" (Mc 8,27)

Fui convidado a assessorar um encontro de três dias numa paróquia do interior do Estado do Espírito Santo, sobre "A PRÁTICA LIBERTADORA DE JESUS".
Um dos instrumentos que utilizei para o trabalho em pequenos grupos, foi um livrinho do Frei Carlos Mesters publicado pelo CEBI, com o mesmo nome, mas: - simples, profundo, direto e esclarecedor.
O sub-tema do encontro: "QUEM É JESUS?"
No domingo celebraríamos Ramos; por estarmos nas dependências de uma escola agrícola, lembrei em silêncio, que Jesus era carpinteiro e agricultor, senti que seria um encontro gostoso de se viver, gostoso de praticar depois no cotidiano dos grupos de jovens.
Estávamos num total de 30 jovens.
Comecei dizendo, que sem dúvida, as duas perguntas que Jesus faz a seus discípulos, de certa maneira, nos causa um incômodo até hoje, agora mesmo!
- "Quem dizem os homens que eu sou?"
- "E vós, quem dizeis que eu sou?"
Um silêncio arrasador tomou conta do salão!
Estas perguntas nos desafiam!
Nestas perguntas, Jesus, tem uma preocupação velada à respeito da identidade messiânica (primeiro, porque, tinha curiosidade em saber sobre a opinião que o povo (homens e mulheres) tinha dele; segundo, pois, esperava do seu grupo de base, os seus amigos mais íntimos, os discípulos, uma resposta diferente da do povo comum).
O evangelista diz que eles estão no caminho que leva a Jerusalém, mas as perguntas são feitas em território pagão, onde os discípulos podem estar mais livres da pressão ideológica dos fariseus, da sociedade como um todo. Mesmo assim, e aí se percebe, aparece um certo descontentamento da parte de Jesus: os sinais messiânicos que deu não tiveram repercussão neles.
Cabe perguntar:
- "Nós, dos grupos de base da PJ, estamos neste caminho?"
- "Estamos prontos(as) para responder: - "Quem dizem os(as) jovens que eu sou?"
Com certeza as respostas a estas perguntas poderão não agradar aos coordenadores, aos assessores, e melhor que não agradem mesmo, mas devem ser respeitadas, nem tudo está perdido!
O que não vale é ficarmos espiritualizando os fatos históricos da vida de Jesus: sua encarnação, sua humanidade.
Se o grupo fizer uma leitura fundamentalista da Bíblia, distante da realidade que o cerca estará vivendo uma fuga!
A fuga sempre leva ao fracasso!
Alienação é fracasso!
Hoje, os meios de comunicação oferecem para os grupos de jovens um Jesus mercadológico. UM JESUS COM G!
G, de genérico! Jesus virou produto (= GESUS!)
Afinal, quem é Jesus?
É Jesus = Vida? Ou, Gesus = Fuga?

Emerson Sbardelotti
Mestre em Teologia pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo

QUANTO TEMPO FAZ


QUANTO TEMPO FAZ

quanto tempo faz que a gente não conversa?
quanto tempo faz que juntos fomos a uma festa?
e todas aquelas brincadeiras de criança?
e todos os nossos sonhos?

encontrei um álbum antigo com fotos atuais
encontrei fotos antigas num álbum moderno
ficamos de braços cruzados
e se cruzaram no ar os nossos sorrisos

quanto tempo faz hein...
quanto tempo faz que somos amigos?
quanto tempo faz hein...
que deixamos de ser perseguidos?

a vida é mais simples quando estamos em perigo
a vida é mais simples quando encontramos no outro um abrigo
a vida é simplesmente vida
quando se sabe morrer por aquilo que se acredita

Emerson Sbardelotti
30 de julho de 2008
15:01
*direitos reservados*

* foto de Valcey Capixaba *

NÃO ME CULPE POR SONHAR


NÃO ME CULPE POR SONHAR

não me culpe por sonhar
não me culpe por querer acreditar
que com todos os espinhos e pedras
pela estrada podemos caminhar

não me culpe por sonhar
um outro novo mundo possível
mesmo com a violência incrível
que insiste em acabar

com cada sopro divino
com cada beijo sentido
com cada olhar partilhado
no momento único do abraço

não me culpe por sonhar
uma utopia poética
uma música tão bela
fazendo da lágrima uma aquarela

não me culpe por sonhar
com novos dias
toda volta tem a sua ida
é o lado feliz da vida

que insiste em fazer brotar
em me fazer acreditar
que para ser feliz
só é preciso amar

Emerson Sbardelotti
30 de julho de 2008
14:36
* direitos reservados *

* foto de Valcey Capixaba *

QUATRO MÃOS

QUATRO MÃOS

você apareceu na minha vida sem pedir licença,

sem nada dizer

e o meu mundo girou tão depressa

que não vi o tempo passar

você sorriu e eu respondi com uma canção

sem nada dizer, você saiu assobiando

e o seu mundo girou tão depressa

que eu não vi a noite chegar

eu não vou me proteger dos seus encantos

eu não vou deixar de tocar o meu rock'n'roll

se a ida é maravilhosa, a volta será melhor

meu abraço é quente, mas você é o meu sol

você me abraça e esqueço todos os problemas

você me escuta e já não rolam as minhas lágrimas

estamos no início de uma linda história de amor

e escreveremos a quatro mãos muitas páginas


Emerson Sbardelotti Tavares

05 de setembro de 2007

15:41

*direitos reservados*

sábado, 26 de julho de 2008

UM POUCO POR DIA

UM POUCO POR DIA

você me pede
um canção bonita
você me pede
aquela voz tão ativa
mas se esquece
que sou apenas humano
você quer o diabólico
mas dorme com o santo

você reclama
que estou bebendo muito
eu sou brasileiro
não desisto nunca
você chora
por eu estar me perdendo
eu sou brasileiro
estou sempre morrendo

um pouco por dia
hora após hora
você sorri e segue
eu chego e não vou embora
você lê o que escrevo
mas não consegue escrever
um pouco por dia
demora após demora

você me chama de poeta
outro dia de profeta
mas você se esquece
eu sou apenas humano
você me pede
uma antiga canção
simbólica, apócrifa
o amor é profano

Emerson Sbardelotti
27 de julho de 2008
01:47
*direitos reservados*

* foto de Valcey Capixaba *

terça-feira, 22 de julho de 2008

EU SÓ QUERIA ESTAR SEMPRE AO TEU LADO

EU SÓ QUERIA ESTAR SEMPRE AO TEU LADO

o mundo dá voltas
e a minha cabeça pira
em saber que você se foi
neste caminho sem volta
a ida não tem prestado

você deu tantas voltas
e eu já sabia o final
você pediu para eu ter cuidado
mas eu só pensava em sexo
e em não sair do seu lado

baby...eu vacilei com você
baby...eu estou pagando o preço
ninguém merece ser só
é a sina do não recomeço

o mundo dá voltas
e a minha cabeça pira
em saber que não irá voltar
nesta estrada a ida não tem prestado
é ruim voltar sem ninguém ao lado

você deu tantas voltas
e eu já sabia o final
você me pediu para ter cuidado
mas eu só queria ficar ao teu lado
eu só queria estar sempre ao teu lado

Emerson Sbardelotti
22 de julho de 2008
13:13
* direitos reservados *

segunda-feira, 21 de julho de 2008

POR CAUSA DAS ESTRELAS E DA LUA

POR CAUSA DAS ESTRELAS E DA LUA

por causa das estrelas e da lua

eu vim até aqui para lhe visitar

por causa do ar e das gaivotas

eu vim até aqui para lhe amar

mesmo sabendo dos seus problemas

mas trago soluções para os meus

se juntos caminharmos pela areia

iremos chegar onde ninguém chegou

ao coração um do outro: ao amor

ao amor brotado do peito ao vento

sem camisa e com os cabelos soltos

nossos sorrisos irão se encontrar

cada dia mais inocentes e felizes

vamos sair por aí e por todos os países


Emerson Sbardelotti Tavares

sexta-feira, 18 de julho de 2008

NÃO PERCA SEU TEMPO

NÃO PERCA SEU TEMPO

não perca seu tempo
se você não irá deixar recado
não perca seu tempo
se o endereço que lhe deram
foi o errado
não perca seu tempo
pensando que o cara é o melhor
namorado
a verdade baby
é que não existe verdade
não perca seu tempo
lendo as poesias dos outros
se ainda não conseguiu fazer as suas
não perca seu tempo
escolhendo o futuro como saída
se o seu presente é uma merda
não perca seu tempo
comprando roupas intímas
pensando que ele irá lhe notar
o fogo diminuiu baby
ou então ele arrumou outra
não perca seu tempo
tentando me criticar
por querer lhe ajudar
não perca seu tempo
sabendo que o tempo
nunca mais poderá voltar
não perca seu tempo
esperando o abraço amigo
ou o sorriso consolador
não perca seu tempo
pois a vida é uma só
e ninguém irá ter dó
quando você não mais
servir para nada

Emerson Sbardelotti
18 de julho de 2008
16:39
*direitos reservados*

* foto de Valcey Capixaba *

ENGANO

ENGANO

eu quero dizer a verdade
pois cansei das suas mentiras
eu quero ver você cair
e nunca mais levantar
estarei sorrindo
vendo você chorar
nestas noites quentes
meu coração está gelado
não sinto nenhuma emoção
se você passar do meu lado
pagarei a multa
mas não vou parar no sinal

não quero mais saber
dessas histórias idiotas
a partir de agora
inventarei a minha rota

meu inferno é o teu amor
graças à Deus acabou
eu quero cantar o que gosto
eu quero tentar e posso
vou acreditar em mim mesmo
e parar de viver a esmo
e para isso não mando recado
você foi o meu engano e pecado

a primavera está acabando
espero o inverno chegar
no outono vou secar
no verão aproveitar
dizendo a verdade
quero ver você dançar
baby, você vai dançar

Emerson Sbardelotti

ACERTAR E ERRAR

ACERTAR E ERRAR

sonhos que não saem da minha cabeça
sonhos que fazem que a realidade aconteça
eu quero gritar para que o mundo amanheça
e que a paz seja uma certeza

eu vou cantar aquele blues do Barão Vermelho
eu vou escrever pensando no Renato Russo
vou praticar o amor que tenho no peito
vou viver minha juventude de todo jeito

mantendo a atenção no caminho
compreendendo que toda ida tem volta
por mais que demore a vitória
não desistir é fazer a História

e para quem tem memória
sabe que o bom de se estar vivo
é poder arriscar, acertar e errar
amor, amor, amar, amar, amar...

Emerson Sbardelotti

quinta-feira, 10 de julho de 2008

O MAL

O MAL

O mal da gente,
é querer o mal dos outros.
O mal dos outros,
é não saber quem é o próximo.
O mal do próximo é acreditar,
que é o fim...
O mal do fim é saber,
que não vai começar.
O mal do começar,
é não perceber o meio.
O mal de estar no meio,
é sentir-se dividido.
O mal de dividir é não partilhar.
O mal de não se partilhar,
é não perceber o quanto falta:
para muitos...
O mal de muitos,
é saber que poucos mandam.
O mal de poucos é a solidão.
O mal da solidão é não querer ninguém.
O mal de ninguém é não existir.
O mal de existir é não ser um ser humano.
O mal do ser humano,
é querer ser Deus!
E quando se quer ser Deus,
a Criação toda sofre...
O mal de sofrer,
é não saber sorrir.
E quando não se pode sorrir,
é porque os sonhos se acabaram.
Se os sonhos se acabaram,
que vantagem se tem em viver?
E quando não se sabe viver,
que bem poderá se encontrar?
O mal de não se encontrar,
é ter a certeza,
de que ainda não sabemos,
a importância do verbo amar.
O mal de se amar,
é ter consciência de errar.
E mesmo assim,
recomeçar.
E não desistir...
E sempre lutar...
E exterminar todo o mal,
que contamina
o que de melhor
podemos plantar.
E se plantamos,
um dia iremos colher.
Há dois caminhos:
mas só um,
se pode escolher.
E aí, como vai ser?

TAVARES, Emerson Sbardelotti. UTOPIA POÉTICA. São Leopoldo: CEBI, 2007.

terça-feira, 8 de julho de 2008

HOMENAGEM A PEDRO

HOMENAGEM A PEDRO

Pedro: Dom!

Espanhol latino brasileiro,

catalão afro-latíndio,

Casaldáliga dos mártires...

sua fé,

é um canto de amor.

sua vida

nos ensina o que é viver

no viver do Nosso Senhor.

Pedro: pedra

Dom da gente...

do povo lascado...

que vai em romaria,

que vai de canoa

por águas calmas,

por águas tempestuosas.

Dom da mística,

Dom da espiritualidade:

que sua memória não nos deixe dormir em paz!

Pedro: povo!

A caminhada é longa:

cruzes na estrada,

estrada da vida que muitos não sabem andar

e partilhar o que é bom.

Dom de Tupã,

Dom que anda

entre os Tapirapé e os Karajá.

Dom: do respeito aos Orixás!

Dom da Paz!

Que desta terra sofrida, seca, destruída,

insiste em brotar.

Dom dos rios,

Dom dos Pampas,

Dom do Sertão...seu sorriso faz sorrir

quem acredita que viver é o melhor risco de vida!

Dom: Pedro Poeta!

Casaldáliga alegria!

Teu coração bendiz...bendiz teu nome:

Casa...

Casaldáliga...

Casa de um Deus Mártir- mulher, indígena e negro -

casa que entramos e saimos:

felizes e preenchidos.

Bispo Jovem,

como jovem é esta homenagem...

que vai sobrevoando o mar, o rio, a cascata e o sertão.

Pedro Cantador,

Casaldáliga Dom,

humilde servidor,

amigo também...

que São Félix do Araguaia interceda e te abençoe Deus...amém!


12 dezembro de 2002

dia de Nossa Senhora de Guadalupe, celebrando com D. Pedro Casaldáliga, o ofício divino das comunidades, em sua humilde casa na Prelazia de São Félix do Araguaia/MT.


Emerson Sbardelotti

BINO SANTO

BINO SANTO

ô Iaiá, ô Iaiá

vou louvar São Benedito

vou bater tambor

na beira do mar

a minha alegria, o meu amor

fui abençoado por Nosso Senhor

a banda de congo vai animando a festa

fazer o bem é o que me resta

aos seus olhos graças recebi

mesmo rouco e cansado estou aqui

ô Iaiá, ô Iaiá

vou bater tambor

vou louvar São Benedito

na beira do mar


Emerson Sbardelotti

sábado, 5 de julho de 2008

A HORA

A HORA

penso em você
mesmo sem querer
naquela antiga canção
do amor que ficou escondido

penso em você
mesmo sendo a vontade
ou não querendo pensar
o inferno está em outro lugar

penso em você
sabendo que o blues
não irá poder expressar
a lágrima sentida

hoje, pior do que ontem
enfrento a despedida
com certeza eu não vou embora
se você ficar, será a hora

Emerson Sbardelotti

NO MEIO DA SALA

NO MEIO DA SALA

no meio da sala
encontraremos lembranças
de um tempo bom
que se foi
agora é somente um oi

no meio da sala
e longe dos teus braços
o poeta escolhe o melhor verso
na esperança do abraço certo
e que nunca mais saia de perto

mas você agora está em outra
a chave continua debaixo do tapete
o mundo é estranho quando se está sozinho
viajar se torna chato demais
solidão acaba com a minha paz

mas você agora está com outro
e por mais que o ciúme me consuma
as flores nunca foram do mal
no meio da sala nossos olhares
no meio da sala...

Emerson Sbardelotti