sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

ORAÇÃO PARA O NOVO ANO

ORAÇÃO PARA O NOVO ANO


Ó Pai-Mãe de bondade,

concedá-nos a paz e a harmonia,

para neste Novo Ano

realizarmos os sonhos mais queridos:

trabalho e pão,

família e escola,

saúde e dignidade...

derrama a sua benção

sobre todas as mulheres,

para que sejam sempre novas;

sobre todos os homens,

para que sejam sempre novos;

neste Novo Ano que se inicia,

e que juntos trabalhem

pelos pobres e pelo Reino da Vida!

Amém. Axé. Awerê. Aleluia!


TAVARES, Emerson Sbardelotti. UTOPIA POÉTICA. São Leopoldo: CEBI, 2007.

quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

ENTREVISTA COM JON SOBRINO

''A Igreja costuma se distanciar de Jesus para que ele não incomode''. Entrevista com Jon Sobrino

Santo e senha da Teologia da Libertação, o jesuíta salvadorenho de origem basca Jon Sobrino continua sendo uma referência mundial aos que, na Igreja, buscam um Deus encarnado que opta pelos seus preferidos, os pobres. De passagem por Bilbao, ele diz que, "em conjunto, a Igreja costuma se distanciar de Jesus para não incomodar". E também assegura que o "enoja e envergonha" a situação do mundo atual, porque "o primeiro mundo continua colocando o sentido da história na acumulação e no desfrute que a acumulação permite".

A reportagem é de Asteko Elkarrizketa, publicada no jornal Gara, 19-12-2010. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis a entrevista.

 
Contam-me – de brincadeira – que o senhor está cansado do mundo e também lhe ouvi dizer mais de uma vez que o senhor quer poder viver sem sentir vergonha do ser humano. Qual é a razão?

Às vezes, eu sinto vergonha. Por exemplo, interessamo-nos de verdade pelo Haiti? Obviamente, ele levantou interesse no começo e teve algumas respostas sérias. Mas passa um tempo e já não importa... Outro exemplo que contei outras vezes: em um jogo de futebol de equipes de elite jogando a Champions [League], calculei que, no campo, entre 22 jogadores, havia duas vezes o orçamento do Chade... Isso me enoja e me envergonha. Algo muito profundo tem que mudar neste mundo...

Para onde o neoliberalismo e a globalização nos levam?

É tal o desastre que, em boa parte, provocou que alguns respondam humanamente: voluntários, ONGs, muitas Igrejas – católicas ou protestantes –, outras religiões. Mas acredito que o chamado Primeiro Mundo – uma quarta parte da humanidade – continua pondo o sentido da história na acumulação e no desfrute que a acumulação permite. A diversão, por exemplo, é uma megaindústria multinacional: o esporte de elite, o turismo...
Ignacio Ellacuría chamou isso de "civilização do capital", que produz uma sociedade gravemente enferma, em transe fatídico e fatal. E costumava dizer que a solução é inverter a situação. Por isso, forjou a expressão de que precisamos de uma "civilização da pobreza". Ellacuría era cabeça-dura nisto: é preciso inverter a situação: o motor da história não pode ser acumular, mas sim solucionar as necessidades básicas de 6,5 bilhões de seres humanos, e o sentido da história é a solidariedade com espírito.

Em nossa sociedade, é comum que grandes companhias realizem "campanhas de solidariedade" muito midiáticas, com jantares beneficentes, apadrinhamentos, envio de ajudas etc. O conceito de solidariedade está sendo desvirtuado?

Entendo a pergunta, mas acredito que ocorrem as duas coisas. Por um lado, certo bem-estar e certa afluência de recursos fazem com que dar ajuda seja mais fácil e que, se não tivermos o coração de pedra – como dizia o profeta Ezequiel –, que ele se converta um pouco em coração de carne e ajude. Acredito que parte dessas solidariedades são autênticas.
Pois bem, essas solidariedades também costumam ser usadas para ocultar a ignominia da falta de uma solidariedade maior e mais fundamental, e não só isso, mas também a opressão das grandes potências aos países pequenos.

Talvez sirvam para mascarar as raízes dos problemas?

Podem ser usadas assim, embora, ironicamente, boa parte das ONGs existem precisamente para dizer a verdade – embora não façam muito caso disso –, não só para ajudar economicamente, mas também para defender os direitos humanos. Acho isso complexo, e é preciso analisar cada situação. É claro que o poder submete todo mundo, mas cada um deve empurrar o carro da história como puder. Certamente, o que nos oferecem como soluções me causa indignação e me dá tristeza.

Ao cidadão médio do mundo desenvolvido corresponde alguma responsabilidade da pobreza, da opressão ou das guerras que assolam o planeta?

Objetivamente, sim. Quem declara as grandes guerras? Os governos, movidos por oligarquias, mas eleitos pelos cidadãos. Quando os governos oferecem guerra diretamente, alguns os elegem e outros não. Mas eu não ouço que um governante ofereça que se viva pior, que se desça para que outros muitos possam subir um pouco. Nesse sentido, objetivamente somos corresponsáveis. O mundo se divide entre oprimidos e opressores. Não é preciso enrolar muito...

A Congregação para a Doutrina da Fé emitiu em 2006 uma "Notificatio" na qual afirma que o senhor falsifica a figura do Jesus histórico ao destacar muito a sua humanidade em detrimento da sua divindade. É o argumento da velha heresia...

O que eu digo é que, na realidade humana de Jesus de Nazaré, Deus se fez presente. Mas me dizem que não chego a dizer de verdade quem é Deus e que eu falo de Jesus de Nazaré muito concretamente e até que o converto em político, e isso, em geral, não costuma agradar às autoridades das cúrias romanas e também diocesanas. Ocorreu com vários teólogos. No meu caso, começou em 1976.
Na "Notificatio", disseram que dois livros meus continham afirmações errôneas e perigosas. Antes, eu os havia dado para que sete teólogos sérios os lessem, e nenhum me disse que havia algum problema de possibilidade de heresia... Penso que Jesus de Nazaré sempre incomoda. Deus incomoda menos, porque é tão intocável, tão impalpável... Penso que, na Igreja, temos uma tendência a nos distanciarmos de Jesus de Nazaré. Não quer dizer que não falemos de Cristo, mas Cristo é "o ungido", um adjetivo.
Creio que o mais perigoso é ignorar que Jesus não simplesmente morreu, mas que o executaram. E o mataram porque enfrentou o poder dos sumos sacerdotes e, indiretamente, o poder romano. Evidentemente, Jesus não fez só isso. Pregou coisas belíssimas e dificilíssimas: as bem-aventuranças, a misericórdia com as pessoas, a oração ao Pai. Dá gosto de ver Jesus, mas também é coisa séria, e, se alguém quer seguir o caminho de Jesus, vai lhe custar. Por isso, penso que, em conjunto, a Igreja também costuma se distanciar dele para que não incomode. Mas, graças a Deus, há pessoas e grupos aos quais Jesus lhes atrai. Vi isso no El Salvador, principalmente entre os pobres e aqueles que os defendem.

Depois da "Notificatio", o senhor enviou uma carta ao superior-geral jesuíta, Peter Hans Kolvenbach, na qual indicava que diversos teólogos não encontravam incompatibilidade com a doutrina da Igreja, que a campanha contra o senhor e a Teologia da Libertação vinha há 30 anos e que Ratzinger, em sua época de cardeal, já havia tirado de contexto reflexões e expressões suas. Deduzo que há um ataque premeditado contra o senhor...

Não chamaria de ataque, mas sim de predisposição contra mim e vários outros. O então cardeal Ratzinger [hoje Papa Bento XVI], em um artigo no ano 1984-85, me criticava em cinco pontos, mas também criticava Gustavo Gutiérrez, Ignacio Ellacuría e Hugo Assmann. Nós quatro estávamos nessa corrente que se chamava Teologia da Libertação. Ratzinger já era contra essa corrente. Se algum dia me encontrar com ele, espero que falemos como amigos...

Certamente, já não se ouve falar tanto da Teologia da Libertação. Mudou alguma coisa, por acaso?

A Teologia da Libertação nasceu há cerca de 50 anos, na América Latina, um continente de grande pobreza e de fé cristã. Algo irrompeu aí. Algo explodiu. O que irrompeu? A verdade dos pobres, que era realidade durante séculos. A Igreja os havia visto e lhes havia ajudado de várias formas, mas, quando algo é tão real e explode, isso lhe afeta, lhe sacode e lhe anima a fazer alguma coisa.
Assim começou a chamada Teologia da Libertação, que pretendia que os pobres tivessem vida, justiça e dignidade. Para as Igrejas cristãs, essa era a vontade central de Deus. E, nesse sentido, Deus também "explodiu". E, em seguida, houve duas reações. Uma, fora das Igrejas. O vice-presidente dos EUA, [Nelson] Rockefeller, estava viajando pela América Latina nos anos 1970 e disse, entre outras coisas: "Se aquilo que os bispos estão dizendo em Medellín [na Conferência Episcopal de 1968, onde a Teologia da Libertação ganhou corpo eclesial] se tornar realidade, nossos interesses correm perigo". Dentro da Igreja institucional também houve uma reação contrária por parte de alguns bispos e cardeais. Ou seja, a Teologia da Libertação nasceu, e, em seguida, chegaram os enfrentamentos. Tudo isso levou a algo único na história da América Latina. Quiseram freá-la de diversas formas. Uma foi matar. Assassinaram dezenas de sacerdotes, religiosos e religiosas, e quatro bispos. Outros dois se salvaram por erro. E o que é menos conhecido: milhares de leigos, a maioria pobres.
A Teologia da Libertação desencadeou um modo de viver baseado na compaixão, concretizado depois em formas de justiça, baseada no amor aos mais pobres. Isso hoje desceu ao nível eclesial e de bispos que defendem essa linha.

Dom Romero [arcebispo de San Salvador], semanas antes de ser morto em 1980, dizia que "um cristão que se solidariza com a parte opressora não é um verdadeiro cristão".

Evidentemente. Identificar-se con a parte opressora quer dizer fazer parte desse grupo de seres humanos que está oprimindo e tirando a vida de outros, lentamente, por meio da pobreza ou da repressão. Essa pessoa não é cristã. Em que ela se parece a Jesus se é todo o contrário? E além disso não é humana. Dom Romero tinha razão.

Recentemente, em um congresso de pensadores cristãos, o senhor disse – parafraseando o teólogo José María Díez Alegría – que "a Igreja traiu Jesus; essa Igreja não é a que Jesus quis". Para onde a hierarquia está levando a Igreja Católica?

Não parafraseei, mas citei Díez Alegría literalmente. Ele disse que, "em conjunto, a Igreja Católica traiu Jesus", e me parece uma reflexão importante. Obviamente, nem toda a Igreja. Eu acredito que ele está dizendo que Jesus de Nazaré incomoda, e por isso a Igreja o trai. José Antonio Pagola diz: o mais necessário hoje é "mobilizar-nos e somar forças urgentemente para centrar a Igreja com mais verdade e celeridade na pessoa de Jesus e em seu projeto do reino de Deus". Segundo a fé cristã, o reino de Deus é a vontade de Deus sobre este mundo, para que haja vida para todos, começando pelos pobres. E Pagola termina com estas palavras: "A Igreja Católica terá que fazer muitas coisas, mas nenhuma é mais decisiva do que essa conversão".

Eu gosto que se use a palavra conversão: é uma mudança radical. Não vejo nada mais importante do que voltar para esse Jesus, porque tendemos a nos separar dele. Nem sempre, nem todos, nem de todas as maneiras, mas...
Dito com toda simplicidade: quando alguém ouve cristãos, cristãs, sacerdotes, bispos e não bispos falando, como é raro quando se escuta que falem de Jesus de Nazaré, que contem o que ele disse e o que fez... Está se perdendo o que é de Jesus. Foi isso que eu quis dizer no congresso. Na América Latina, ele se fez muito presente em Dom Hélder Câmara, em Dom Pédro Casaldáliga, em muitos outros... Mas também existe a tentação de dizer-lhe, como o grande inquisidor do romance "Os Irmãos Karamazov": "Vá e não volte".

Inclusive de forma drástica... Lembro o slogan da extrema direita e do Exército na época da repressão e da guerra no El Salvador: "Seja patriota, mate um padre". Por que lhes perseguiam de forma tão cruel?

Não perseguiam só nós, sacerdotes ou grupos cristãos, mas principalmente todos os agricultores. Com a Conferência dos Bispos de Medellín de 1968 houve uma grande mudança, uma irrupção, e Jesus de Nazaré se fez presente. Ser cristão era seguir a vida desse Jesus, estar com as vítimas, com os pobres. E, para defendê-los, enfrentar os poderosos. A oligarquia não tolerava isso, e muito menos que viesse de pessoas reconhecidas da Igreja.
Os sacerdotes eram melhores ou piores, mas éramos um símbolo importante no país. Essa Igreja que queriam ter do seu lado foi embora. Então, assassinaram o primeiro sacerdote, Rutilio Grande, jesuíta, grande amigo, no dia 12 de março de 1977. Armou-se uma grande confusão, e Dom Romero tomou uma decisão muito importante: denunciou o fato, disse que não voltaria a estar presente em atos civis públicos até que o crime não fosse esclarecido. E no domingo do enterro ordenou que só houvesse uma missa única.
As pessoas de dinheiro, a oligarquia, foi se encorajando: "Matamos um padre e eles continuam...". Continuaram matando sacerdotes e distribuíam panfletos com aquela frase: "Seja patriota, mate um padre". Em junho, deram aos jesuítas um mês para sair do país ou matariam todos. Não fomos embora. Continuaram matando sacerdotes e freiras e principalmente agricultores.

Nesse contexto, chegou o massacre dos seis sacerdotes jesuítas e das duas mulheres, no dia 16 de novembro de 1989, na Universidade Centro-Americana - UCA. O senhor também era um dos objetivos dos militares, mas se salvou por encontrar-se na Tailândia participando de um congresso. Como o senhor recorda esses fatos?

Um amigo me telefonou de Londres, me perguntou se eu estava sentado e se eu tinha um lápis para escrever. E começou: "Mataram Ellacuría e...". Eu sentia como se arrancassem a pele aos pedaços, mas quando eu mais fiquei com raiva foi quando me disse que haviam matado a cozinheira e sua filha. Que matem Ellacuría, "merecido" – como Jesus de Nazaré. Mas matar uma cozinheira e sua filha de 15 anos...!
Lembro também que um tailandês convertido à religião católica me perguntou se no El Salvador havia católicos que matavam sacerdotes. Ele entendeu bem o horror que entranhava aquilo. No El Salvador, matar sacerdotes significava romper não apenas as regras do bem, mas sim as do mal. Tudo podia acontecer. E aconteceu...

O senhor temeu muitas vezes pela sua vida?

Sim e não. Várias vezes explodiram bombas na UCA e em nossa casa. Estávamos nas litas. Ellacuría em primeiro lugar e os demais também. Às vezes, nos jornais, também me destacavam. Mas pensar que podia acontecer o que aconteceu com Rutilio Grande, com o padre Alfonso Navarro, com Dom Romero não nos provocava temor. Costumavam nos perguntar por que não íamos embora do país, e respondíamos que nos daria vergonha ir embora, nos daria vergonha dizer que é preciso estar com as pessoas e depois ir embora. Eu, além disso, dava aula de cristologia e tinha que contar a vida de Jesus. Com que cara eu ia falar de Jesus se fosse embora? E não fomos, principalmente porque nos sentíamos parte de algo maior, todo um povo ao qual queríamos e que nos queria... Para mim, foi um dom ter ido ao El Salvador. Sou agradecido por toda a vida.

O senhor vive lá há mais de meio século. Mudaram muitas coisas no El Salvador, mas a pobreza continua. A situação até se agravou com a delinquência e a violência das gangues juvenis.

O El Salvador, assim como está acontecendo com o Haiti, desapareceu das notícias. Firmaram-se os tratados de paz, e algo importante aconteceu: dois exércitos concordaram em não continua lutando militarmente. E isso é muito bom. Além disso, nos acordos de paz, decidiu-se investigar as violações dos direitos humanos graves de ambas as partes. As Nações Unidas fizeram um estudo bastante sério sobre isso. Mas o que aconteceu? Antes de que saísse o relatório das Nações Unidas, o presidente Cristiani concedeu anistia aos que apareciam nele. Uma anistia assim não é um ato de reconciliação, de humanização. Serviu principalmente para que não tocasse na parte governamental. Ninguém foi ainda julgado pelo assassinato de Dom Romero – e o Vaticano também não o canonizou...
Pela pressão do tempo, os acordos também não trataram suficientemente da economia, e isso continua sendo notado. Não digo que com bons acordos sobre os modos de produção, a legislação trabalhista etc. se mudaria muita coisa. Não sou muito otimista, mas, ao não fazer nada, a injusta situação econômica continua sem aspectos de solução.
E ocorreram outras duas coisas negativas importantes: muitos salvadorenhos – de dois a três milhões – vão aos Estados Unidos para buscar trabalho, o que traz uma infinidade de problemas humanos, divisões de famílias etc. O outro problema é a violência das gangues, que geraram um tipo de vida em que os jovens encontram um sentido de identidade, estando dispostos a matar e a serem mortos. E é preciso incluir as máfias, o narcotráfico, os sequestros...
Às vezes me pergunto, tragicamente, por que, no El Salvador e em países semelhantes, não se decidiram por um suicídio coletivo. Para muitíssimas pessoas, isso não é viver. Mas, no povo, existe uma força maior para seguir em frente e enfrentar os problemas mais difíceis. Essa força se expressa no empenho para sobreviver, nas tentativas de organização. E é alimentava por muita gente boa, os mártires, com Dom Romero à frente. Aqui, acredito que isso é difícil de compreender.

Surpreende-me o pouco sotaque salvadorenho que o senhor tem. No El Salvador, continuam lhe conhecendo como basco?

É verdade, não mudei o sotaque. Enquanto a ser basco, acho que não perdi minhas origens. Mas também não é um absoluto. Também não é que eu me sinta salvadorenho, embora é o que eu mais me sinto. Acredito que o que me ocorreu no El Salvador é uma maior abertura a tudo o que é humano, para além dos lugares.

O senhor pensa em voltar para Euskal Herria para ficar?

O normal é que eu não volte para ficar. Se eu voltar, terei que pensar o que fazer para poder ajudar aqui [na Europa]. Eu gostaria muito de cooperar, fazer o bem, mas não tenho nenhuma receita. A mudança seria muito grande. No El Salvador, estão os pobres que não dão a vida por óbvia e têm quase todos os poderes do mundo jogando contra. Aqui, na Europa, a vida se dá por óbvia e com muito poder a seu favor. Se me permite dizer isso metafisicamente: os pobres são "os que não são reais". Aqui pensamos que o real somos nós. Estar no El Salvador significa cooperar para que todos vivamos e a utopia de fazer isso como irmãos e irmãs. Aqui, eu teria que repensar, embora veja pessoas e coisas boas às quais poderia me dedicar.


* Esse cara é sensacional...uma das maiores cabeças pensantes da Teologia da Libertação e um dos maiores especialistas em Cristologia da Libertação no mundo.





sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

NATAL: ENCONTRO E DIÁLOGO

NATAL: ENCONTRO E DIÁLOGO


Natal da Paz...Natal do Amor.

Natal do Menino Jesus.

E o que você fez pela Vida?

E o que você fez para acabar com a Dor?
Natal do Abraço Apertado.

Natal do Beijo Demorado.

E o que você fez para fugir da Bala Perdida?

E o que você faz pela Infância Sofrida?

Não acredite nos Presentes...eles passam.

Não acredite nas Festas...elas passam.

Mas acredite no Encontro e no Diálogo.

Solidariedade nunca foi coisa do passado.


Emerson Sbardelotti


10 de dezembro de 2010


14:25


*direitos reservados*

sábado, 27 de novembro de 2010

VELHO ANDARILHO

Contavam os antigos, que numa rua da cidade, chutando pequenas pedras e recolhendo latas de alumínio, o velho andarilho não passava despercebido pelas pessoas que apressadas não paravam para conversar com ele, ou simplesmente lhe dar um “bom dia”, um “como vai”, um “como tem passado”.

Ele seguia em frente...todos os dias, a mesma rotina.

Ninguém sabia a quanto tempo ele vivia na rua. Tinha gente que tinha nascido e morrido, e ele já vivia na rua.

Dizem que no passado, havia sido um homem muito importante daquela cidade e que perdeu tudo por causa do amor.

Não era de falar muito, tinha cabelos brancos compridos, barba branca comprida, bem ao velho estilo hippie...mas fazia tempo que havia deixado o sexo, as drogas...o rock n roll...bem...esse estava dentro dele.

De certa forma, era uma pessoa gentil, pois gostava das crianças que implicavam com ele, chamando o de Beato Conselheiro, e realmente, ele lembrava o Beato Antonio Conselheiro, mas sem a veste; ninguém nunca o viu em confusão, ou bêbado, ou drogado. Ficava horas sentado olhando o mar e os navios que chegavam no Porto de Vitória-ES, abria os braços como se quisesse abraçar tudo o que via, e sem nada dizer saia correndo.

Até hoje ninguém sabe ao certo o nome dele, por isso, irei chamá-lo como as crianças fazem: Beato Conselheiro.

A primeira vez que eu o vi, ele estava fazendo um discurso inflamado na Praça Costa Pereira, no Centro de Vitória-ES, depois que um pastor com cara de poucos amigos, olhando para ele disse que ele era a encarnação do Capeta. O Beato não gostou, mas educadamente, esperou a sua vez para falar. Como o pastor não lhe dava a vez para falar, levantou-se do banco onde estava e começou a fazer a sua defesa:

- Caríssimo pastor, estimados transeuntes, irmãos moradores de rua. Gostaria de proferir algumas palavras em defesa própria: muito me estranha que um homem que se diz de Deus, faça acusações levianas a respeito de uma pessoa que não conhece, que não vive com ela, que não experimentou do mesmo sofrimento e da mesma alegria que experimento. Acredito que Deus não mandou ele fazer isso (apontando para o pastor). E eu pergunto: o senhor realmente conhece a Deus? Ele lhe passou uma procuração dando-lhe plenos direitos para acusar e julgar qualquer pessoa a seu bel prazer? Com qual autoridade o senhor me acusa de ser a encarnação do Capeta? Se é que o Capeta existe.

Todos que ouviam caíram na gargalhada. Ele levantou a mão pedindo para continuar.

- Vocês me conhecem a muitos anos, vi pessoas crescerem e morrerem e eu aqui, nesta praça, caminhando pelas ruas da Capital, sem nada falar, sem mexer com ninguém, apenas catando latinhas, papelão, fazendo um ou outro serviço, dormindo pelos cantos e tomando banho todos os dias.

Outras risadas.

- Vocês sabem que nunca fiz o mal, nem o desejei para ninguém, mesmo quando alguns jovens drogados, de madrugada, me bateram por nada, e tive que ficar meses no hospital, sem a visita, sem o cuidado de ninguém. Eu não sou o Capeta pastor, mas o senhor é. Pois não é feliz...eu sou feliz...eu sou livre. Se o fato de o senhor me ver vestido como estou, com cabelo e barba grande, mal cuidado, lhe dá o direito de acusar e julgar, então não pode ser de Deus, pois Deus nunca acusou ninguém.

As pessoas ficaram espantadas com a firmeza e a convicção do Beato Conselheiro que ao ver o pastor e seus seguidores se retirando pois não conseguiam dar uma resposta a altura, o velho andarilho saiu gritando atrás dele:



- Lembro-me das palavras do filósofo:

"Se Deus existe a solução seria Deus,

mas como Deus não existe,

o muro está próximo".

E pude formular um pensamento herético:

- o gozo espiritual é parte fundamental

da substancialidade da alma;

e para tanto é preciso alcançar

a autotranscêndencia

e penetrar no âmago do ser

para poder atingir o ápice do gozo carnal

- Não me perguntem o que é isso,

pois, depois de Sartre...

me tornei o ser e o nada!



E berrou todas essas palavras até perder de vista o carro importado do pastor se afastando e sumindo.

As pessoas aplaudiram o Beato Conselheiro que aproveitou para pedir uns trocadinhos, afinal, ele também era Filho de Deus. A gargalhada foi imediata, e a ajuda também.

O velho beato estava muito feliz, pois viu que as pessoas agora sabiam que ele era um ser humano, não era um bicho, que havia feito escolhas: certas e erradas, e pagou caro por todas elas.

Viu um rapaz com um violão na mão e disse que gostaria de tocar uma canção antiga, pornográfica, que havia feito quando observava a lua cheia na baia de Vitória-ES, lembrando da sua única paixão e amor, pegou o violão e tocou o velho e bom rock n roll.

- Quero mostrar para vocês uma canção que fiz a muito tempo atrás. Ela se chama: ESTOU EM PAZ!

Pegou o violão...deu uma tossida e mandou ver:



- Eu deixei de ser punheteiro

cansei de ficar horas no banheiro

olhando seu retrato

toda nua na parede

em poses tão exóticas

baby, eu não sabia que era erótica

eu olho as minhas mãos

estão as duas caleijadas

são doenças e paixões

faz tempo que perdi a razão

eu sinto o seu corpo em mim

mas você está tão longe do jardim

você é tão bonita assim

ingênua e felina

deixei de ser down e estou aí

eu deixei de ser punheteiro

cansei de ficar horas no banheiro

se você soubesse

quantos dias fiquei sem dormir

eu queria estar aí

baby, eu queria estar dentro de ti

eu olho minhas mãos

abro os meus braços

coloco óculos e disfarço

a vida é linda

mas a sua bunda é muito mais

quando estou contigo

estou em paz!



Foi aplaudido por mais de meia hora.

Devolveu o violão ao rapaz e voltou a catar as latinhas espalhadas pelo chão.

Dizem que depois disso ninguém mais se meteu à besta com ele, e era bem querido por todos que o encontravam.

Nunca mais falou em praça pública ou cantou.

Até hoje, quem ouviu, quem viu o Beato Conselheiro, entendeu que a loucura é o tesão das pessoas que se dizem normais.

A loucura do Beato era o amor não correspondido, amor que o fez ser livre.

Dizem que disso ele nunca abriu mão.

Quando morreu, estava caminhando; sempre em frente...era o que dizia quando passava por alguém que sorria para ele; foi enterrado com honras de Estado, por serviços prestados aos moradores de rua, andarilhos como ele.

Dizem que hoje em dia ainda é visto por muitas pessoas, nas noites de lua cheia caminhando pelo calçadão da baia de Vitória-ES.



Título: Velho Andarilho ®

Autor: Emerson Sbardelotti

27 de novembro de 2010

12:13

segunda-feira, 15 de novembro de 2010

Artigo - JUVENTUDE: PROFECIA E ESPIRITUALIDADE

JUVENTUDE: PROFECIA E ESPIRITUALIDADE.

Emerson Sbardelotti Tavares

RESUMO

Apresenta e sugere reflexões para questionamentos hodiernos sobre a juventude enquanto portadora de profecia e de espiritualidade, numa sociedade globalizada, onde há uma inevitável mudança de valores, do aumento do individualismo, do fundamentalismo, da violência e do extermínio de jovens. Desenvolve a temática a partir da realidade em que está inserida a juventude, e como a mesma compreende e experimenta a profecia e a espiritualidade, acentuando-se sua vocação, disponibilidade para a missão, sua espontaneidade, seu humor, sua energia rebelde que a coloca em rota de colisão com antigas respostas que já não satisfazem sua curiosidade e sua objetividade, sua presença nos serviços da comunidade eclesial de base ou apenas na participação quase omissa e sem pretensão alguma nas Celebrações da Palavra e nas Celebrações Eucarísticas. Trabalha conceitos básicos mas necessários para uma Igreja que talvez não queira mais falar de injustiça e de pobres e que já esteja convencida que a palavra morreu. Se há jovens profetas, onde eles estão?

 
Palavras-chave: juventude, profecia, espiritualidade, comunidade, vocação, missão, injustiça, pobres.



ABSTRACT

Presents and suggests reflections for today's questions about youth while carrier prophecy and spirituality, in a globalised society, where there is an inevitable change values, increasing individualism, fundamentalism, violence and extermination of young people. Develops the theme from the reality in which is inserted on youth, and how the same understands and experiences the prophecy and spirituality, accentuating their vocation, availability for the mission, their spontaneity, their humor, its energy rebel who puts on a collision course with old answers that no longer satisfy your curiosity and your objectivity, their presence in the ecclesial community services or just almost silent and participation without pretense whatsoever in the celebrations of the word and in the Eucharistic celebrations. Works fundamentals but necessary for a church that might not want more talk of injustice and of poor and already convinced that the word died. If there are young prophets, where they, they are?

Keywords: youth, prophecy, spirituality, community, vocation, mission, injustice, poor.


1 INTRODUÇÃO

Juventude, profecia e espiritualidade são partes do grande memorial que se faz todas as vezes que encontramos um grupo de jovens, debatendo seus sonhos, utopias, esperanças, realizações, mas também a dor, o fracasso e o desânimo com tudo o que vem acontecendo na sociedade e dentro da Igreja. São três elementos indispensáveis para uma entrega feliz ao Reino da Vida. Elementos esquecidos ou mal interpretados, que a presente reflexão surge para dar respostas aos questionamentos hodiernos sobre a mesma enquanto portadora de profecia e de espiritualidade, numa sociedade globalizada, onde há uma inevitável mudança de valores, do aumento do individualismo, do fundamentalismo, da violência e do extermínio de jovens. O presente artigo procura entender a temática a partir da realidade em que está inserida a juventude, e como a mesma compreende e experimenta a profecia e a espiritualidade, acentuando-se sua vocação, disponibilidade para a missão, sua espontaneidade, seu humor, sua energia rebelde que a coloca em rota de colisão com antigas respostas que já não satisfazem sua curiosidade e sua objetividade, sua presença nos serviços da comunidade eclesial de base ou apenas na participação quase omissa e sem pretensão alguma nas Celebrações da Palavra e nas Celebrações Eucarísticas. Trabalha conceitos básicos e necessários para uma Igreja que talvez não queira mais falar de injustiça e de pobres e que já esteja convencida que a palavra morreu. E se pode perguntar, tendo portanto uma pergunta de fundo: Se há jovens profetas, onde eles estão?

Arrisco em repetir as palavras do poeta :

A VIDA SE TECE DE SONHOS

 
A vida se tece de sonhos!

Sonhar é a melhor parte do viver!

Somos jovens do campo e da cidade,

na luta por justiça e solidariedade.



Só ama quem sonha!

Só sonha quem fala:

“por uma terra sem males e demarcada!”

“olha como o vento desfralda a wiphala!”



E não haverá miséria nem fome.

Será diferente o futuro de ricos e pobres

e não haverá miséria nem fome.

Cada um será chamado pelo próprio nome.



São os sonhos da resistência.

É a realidade que surge nova.

Somos jovens em busca da paz.

É paz consciente que da terra brota!



A vida se tece de sonhos!

E sonhar não custa nada.

Somos profetisas e poetas,

Somos gente e profetas!



E estamos aí pelas ruas e praças,

com sonhos, alegrias e virtude,

no Continente da Esperança,

somos Pastoral da Juventude.





2 O Espírito sopra onde quer...

“Não deixe cair a profecia!”

Foi essa a última mensagem que D. Hélder Câmara falou para o monge Marcelo Barros, poucos dias antes da sua morte. E esta, dita por aquele, que havia sido o grande profeta do século XX na América Latina e no Brasil, demonstra que o profeta deve ser um agoniado e que não aceita a morte da profecia, que não aceita que a chama profética se apague do coração e da alma da Igreja.

O Espírito sopra onde quer, e ninguém tem poder sobre ele, mesmo assim, é tempo de atentamente esperar os sinais dos tempos.

A juventude do século XXI no Brasil, tem consciência de que a profecia é uma ação pública de grande visibilidade necessária? Ela sabe que é a espiritualidade encarnada na vida do povo que a faz ser profeta de Deus? Onde estará a juventude, já que muitas vezes não está nas comunidades eclesiais de base, nos movimentos sociais, nos partidos políticos?

A juventude está no mundo. E quais seriam as visões distorcidas ou não que o mundo tem dela? Mas o que seria a juventude, a profecia e a espiritualidade?



2.1 Conceitos básicos, mas que foram esquecidos.

Sobre juventude há muitos pontos de vista para analisá-la; indico a classificação mais objetiva e sintética, construída em mutirão, que parte da perspectiva cristã católica e comprometida com milhares de grupos de jovens espalhados pelo Brasil.

Quatro visões de juventude :

1. Visão Biocronológica: define a juventude em termos de idade, etapa de transição. Aquela que tem de 15 a 24 anos .

2. Visão Psicológica: identifica a juventude com os conflitos pessoais em que tem a vida nas mãos, mas não tem o reconhecimento e a capacidade, etapa de construção da identidade: tempo de opções e definições.

3. Visão Sociológica: vê na juventude um grupo social e, dentro dele, diferentes setores.

4. Visão Cultural-Simbólica: procura ver a juventude em seu habitat cultural, produzindo movimentos culturais que acentuam a estética e o lúdico.

Para DICK (2003), estaria faltando, entre essas visões uma quinta: a Visão Jurídica ou Legal de Juventude – aquela que impera em muita leitura ou abordagem a respeito do tema .

FREITAS (2007), aponta que no Brasil, tanto as diretrizes da Secretaria Nacional de Juventude como o Plano Nacional de Juventude, definem como jovens aqueles que têm entre 15 e 29 anos. Mas o que é juventude?

A palavra juventude remete-nos a idéia de uma fase da vida, situada entre a infância e a vida adulta, entre a dependência – caracterizada pela primeira – e a autonomia – caracterizada pela segunda. Mas ainda que na maior parte das sociedades, ao longo da história, a idéia de fases da vida esteja de alguma forma presente, elas adquirem diferentes recortes e significados. A noção de juventude, assim como as das demais fases do ciclo de vida, apresenta-se como uma construção sócio-histórica. Em cada sociedade, em cada época histórica, e de acordo com os diferentes grupos que a compõem, as fases da vida assumirão características específicas quanto à duração de cada uma delas, às suas características e aos seus significados. Nem sempre a juventude aparece como fase claramente distinta da infância e da maturidade. [...] Percebe-se que a vida adulta parece estar cada vez mais difícil de ser atingida, o que provoca o alongamento da juventude. No mundo atual, porém, a juventude não se torna apenas mais longa; torna-se também mais complexa. [...] Na sociedade contemporânea, podemos dizer que os jovens e as jovens não apenas se preparam para o futuro: inserem-se no presente, inserem-se na vida adulta; não tem na escola seu único espaço: fazem-se presentes em diferentes âmbitos da vida social. Ocupando os mesmos espaços que os adultos, destes se diferenciam pelo caráter mais experimental de sua inserção. Rapazes e moças experimentam diferentes inserções nas mais diversas dimensões: do trabalho, da vida afetiva, da sexualidade, da cultura e do lazer, da participação política.



LIBANIO (2004), diz que há um olhar duplo: o da sociedade para o jovem e o do jovem para si mesmo. A sociedade olha o jovem e o considera em fase importante do desenvolvimento de sua personalidade. Mas também, o vê como alguém subordinado e ainda submetido a uma marginalização do trabalho e das funções políticas. O jovem olha a si mesmo e entra numa idade de apropriação das diferenças que o afetam no campo sociopsicológico, ao mesmo tempo que se prepara para enfrentar situações adultas diferenciadas, passando do mundo particularista da família para o mundo universalista do trabalho e das relações sociais. Os grupos de jovens ajudam a integrar o modelo de família com a vida em sociedade. A escola surge como lugar intermediário da socialização entre a sociedade e a família .

A CNBB (2007), afirma que, conhecer os jovens é a condição prévia para evangelizá-los. Não se pode amar nem evangelizar a quem não se conhece. Se busca conhecer a geração de jovens cuja evangelização se apresenta como um dos grandes desafios da Igreja neste início do século XXI. Destaque para a subjetividade, para as novas expressões da vivência do sagrado e a centralidade das emoções, enquanto elementos da nova cultura pós-moderna que influenciam no processo de evangelização dos jovens e no fenômeno da indiferença de uma parcela da juventude face à Igreja .

Sobre profecia há uma palavra-chave para entendê-la: resistência.

Resistência na etmologia, é o prefixo re, que aponta para uma duplicação, uma insistência, um desdobramento, uma outra vez; um substantivo derivado do verbo sistere: parar, permanecer, ficar, ficar de pé, estar presente. A esse verbo se associa também a stantia que invoca a estadia.

Resistência é insistir em estar - em permanecer, em ficar de pé.

O profeta fica de pé e anda, fala, grita, mas não se cala. Mesmo sendo assassinado, sua voz ecoa e incomoda.

Resistir é se opor: é lutar. Mas é também resistir à tentação, manter-se firme diante de uma força contrária.

Resistência a todo tipo de opressão causado pelo sistema, seja ele, monárquico, ditatorial ou democrático, de ontem e de hoje, que impede a abundância da vida e a construção do projeto de um outro mundo possível e melhor.

No Primeiro Testamento, a profecia aparece no período histórico da monarquia israelita e durante a tutela de assírios, babilônicos, persas, helênicos; são apontados os abusos cometidos pelos reis, monarcas e imperadores, durante a monarquia unida em Israel e depois com os reinos divididos: Israel e Judá, contra o povo. Contra esses abusos, os profetas levantaram suas vozes e fizeram ouvir a mensagem de Deus para aqueles governantes. Pois a profecia é um apelo de Deus à conversão. Ela não se separa da pessoa do profeta. Não é puro discurso, mas ação pública de grande visibilidade. O profeta quando se levanta, se levanta do meio do povo. E não fala somente com palavras, mas com toda a inteireza da vida. Contra o poder opressor o profeta se dirige ao rei e também o faz junto ao povo quando este se corrompe e se afasta da sua missão. O profeta é aquele que fala em nome de alguém. Fala aquilo que vê. Quanto maior a opressão, mais forte será a reação por parte da profecia.

No Segundo Testamento, a esperança dos pobres se realiza no Moreno de Nazaré e nas Primeiras Comunidades criadas após a sua ressurreição no contexto do império romano. Na época de Jesus, a Aliança com Deus estava falhando, e o primeiro sinal era justamente o aparecimento de gente cada vez mais empobrecida no seio do povo. O pobre, pelo fato de existir e de ser empobrecido, acusa a todos e se torna para o povo de Deus na boca e nas ações de Jesus uma denúncia vinda do próprio Deus. Jesus captou, como o fizeram os profetas antes dele, a voz de Deus escondida no clamor dos pobres. A pregação de Jesus não agradou a todos, pois, colocou-se do lado dos pobres, marginalizados, excluídos, violentados em sua dignidade enquanto seres humanos; mas os grandes não o quiseram, preferiram as suas próprias idéias, matando-o na cruz, com o consentimento dos romanos. Sua morte foi a de um maldito. Morreu gritando. E Deus, que ouve o clamor do seu povo, dos pobres, ouviu o grito de Jesus, desceu e o ressuscitou, transformando a cruz, de perdição, em único caminho para alcançar a salvação.

VASCONCELLOS & SILVA (2003), afirmam:

O termo profeta já foi definido como crítico religioso da realidade. É pessoa crítica porque não se conforma com o erro, a injustiça e a opressão. Sua crítica é religiosa porque se expressa em nome da transcendência de Deus. É crítica religiosa da realidade pois se destina a seres humanos precisos, em determinado momento histórico bem concreto. Está no coração da profecia, portanto, o seu caráter denunciatório. Em Israel, foi no período dos reis que a profecia falou mais alto. [...] Profetas eram pessoas totalmente imbuídas da Palavra de Deus e absolutamente convencidas de que essa Palavra devia perpassar toda a realidade circunstante. Por isso, em nome de sua vocação profética podem atuar em todos os setores da sociedade, e o fazem de maneira implacável. [...] Na política, a atuação de profetas foi decisiva. Como pessoas bem informadas, agiram de maneira concreta e por vezes até revolucionária. [...] A problemática social é um campo fértil para a atuação de todos os profetas. [...] A visão profética da história é peculiar, e única a capacidade de análise de conjuntura. Os profetas lêem o momento histórico, inspirando-se no passado e com os olhos voltados para o futuro. A história sempre é, para eles, mestra da vida e eles se tornam sujeitos da história que seu povo está vivendo. [...] Ao culto e à religião constituída, a profecia reserva duríssimos ataques. Profeta nenhum agüenta uma religião sem vida, ou seja, um culto sem justiça social. Por isso transmitem a repugnância que Deus sente das liturgias, das ofertas e dos sacrifícios que apenas acobertam vícios e enganos. [...] A denúncia profética atinge os mais diversos campos da vida do povo, tais como economia, exploração, despotismo, escravidão, terra e latifúndio, corrupção, política, julgamentos nos tribunais, violência e sangue derramado, roubo, extorsão, luxo e ócio. [...] A profecia nesses tempos antigos, manifestava-se regularmente junto ao povo. As pessoas citadas como profetas representavam momentos privilegiados dessa revelação, mas a linha profética não abandona o povo de Israel. [...] A profecia representa o lado explosivo do povo de Deus. Ela é sempre necessária. O esquecimento desse lado acarreta enormes prejuízos para a Igreja e para a sociedade .



Os profetas eram, portanto, pessoas com um caminho de vida iluminado pela Palavra de Deus. Ao serem chamados por Deus, puderam senti-lo, puderam experimentá-lo. Deus trabalhou normalmente dentro da mente deles, trabalhou sem pressa dentro do coração deles. Cada profeta teve uma vocação específica, contudo, possuem três elementos em comum: 1. Forte experiência de Deus. 2. Ao experimentar Deus se certifica de que é o próprio Deus que o chama para uma missão especial. 3. Esta experiência causa uma mudança profunda na vida do profeta.

Essa mudança profunda, que transforma o ser humano por inteiro, chamamos de Espiritualidade.

Há vários conceitos e definições a respeito de espiritualidade, pois há várias espiritualidades. A que se trabalha aqui é a espiritualidade cristã católica, “pé-no-chão”. A palavra espiritualidade tem sua raiz na palavra espírito (ruah – em hebraico – cf. Gn 2,7; Jo 20,22).

CASALDÁLIGA & VIGIL (1996) dizem assim:

A espiritualidade não se opõe à matéria nem ao corpo nem à história. A espiritualidade de que a gente fala não acontece fora do mundo; vive-se aqui, “pé-no-chão”, no dia-a-dia da vida humana, trabalhadora, militante, de luta e festa, de vida e morte e de Vida! A espiritualidade de uma pessoa é o mais profundo de seu próprio ser: suas motivações maiores, seu ideal, sua mística de vida, a utopia que a dinamiza e empolga. Ter ‘espírito’ e ter ‘espiritualidade’ equivalem praticamente. ‘Espírito é substantivo concreto’. ‘Espiritualidade é o substantivo abstrato’ .



Espiritualidade é a capacidade do ser humano de dialogar com o Eu profundo e com o Totalmente Outro que lhe fala. É a possibilidade dada e recebida graciosamente de ouvir os apelos do coração e dialogar com o que nos transcende, o que nos inunda de mistério. Nesse sentido, a espiritualidade é a aura que sustenta os valores de solidariedade, compaixão, cuidado e amor, fundamentais para uma sociabilidade verdadeiramente humana, e se é verdadeira, portanto divina.

Essa mudança profunda, que transforma o ser humano por inteiro, na revelação bíblica se define como uma forma de estar no mundo. Interpretando todos os acontecimentos à luz da fé, e agindo por impulso do Espírito que nos liberta das idolatrias (idolatria é tudo aquilo que nos afasta do divino, que nos leva a desgraça) e nos transforma para criar comunidade solidária. Foi essa a vocação da humanidade que, realizada no Moreno de Nazaré, se vai concretizando pouco a pouco em nossa história de graça e de pecado. Ele vai nos inundando com a sua mística.

Quando falamos de mística estamos nos referindo ao mistério que nos faz viver. É o mistério que comunica, é o sentido que tende a construir uma fraternura na Terra: harmonia com a Natureza, com as coisas, entre nós, com Deus. A palavra mística tem sua raiz na palavra mistério (mysterion - em grego - cf. Mc 4,11; 1Cor 2,1.7; Cl 1,27; Ef 1,9). Espírito e Mistério são palavras que se completam, e no nosso caso, estão estritamente ligadas ao Mistério Pascal de Jesus e ao Espírito Santo de Deus que nos impulsiona e encoraja na caminhada cotidiana, de conversão, de recuos e avanços. Espiritualidade e mística, se não forem sentidas e bem usadas, se tornam fuga. E o que mais acontece hoje em dia é a fuga. Mística é o fio condutor, uma linha invisível que une a memória e os sonhos, que une a história e a utopia, que une o passado e o futuro e que faz do presente uma grande festa, uma grande celebração. E porque se faz uma grande celebração? Porque Deus é fiel e nós reconhecemos isso. Se Deus é fiel, nós até gostamos!

Mas quais são os passos para fazer um itinerário na espiritualidade?

Primeiro passo: fazer silêncio. A juventude deve perceber que é no silêncio que Deus se revela a nós e nós nos revelamos a Ele; deve entender que ao calarmos nossas vozes interiores e exteriores, todo o nosso ser se cala e aguçam-se nossos sentidos na escuta daquele que vem.

Segundo passo: pedir humildemente a ajuda do Espírito Santo. É necessário pedir ao Pai que mande o seu Espírito. Pois, sem esta ajuda do Espírito de Deus, não é possível descobrir o sentido que a Palavra de Deus tem para o seu povo hoje.

Terceiro passo: a Leitura Orante da Bíblia. É necessário subir os degraus:

Primeiro degrau: a leitura - o que o texto diz em si?

Segundo degrau: a meditação - o que o texto diz para mim, para você?

Terceiro degrau: a oração - o que o texto me faz dizer a Deus?

Quarto degrau: a contemplação - ver o mundo em que vivemos com os olhos de Deus, saboreando o jeito de ser e agir de Deus; o quanto Ele é bondoso e o que faz para nós.

Quarto passo: a reza do Ofício Divino das Comunidades – Ofício Divino da Juventude.

Quinto passo: o contato com a literatura especializada sobre o tema.

3 Se há jovens profetas, onde eles estão?

É uma pergunta difícil de ser respondida no atual cenário de Igreja, em que há a supervalorização de uma experiência da fé de fora para dentro da Igreja, sendo uma experiência muitas vezes fundamentalista, alienante, desapegada da práxis libertadora.

A juventude não se vê mais apaixonada pela mensagem da Igreja, eis a questão.

Ela está apaixonada pelos prazeres que o mundo pode lhe oferecer.

Se não há um amor verdadeiro da juventude pela Igreja e da Igreja pela juventude, não há evangelização da juventude, não há civilização do amor.

Não é de agora que a catequese (Primeira Eucaristia, Crisma, Catecumenato) não é assumida pela juventude, portanto não há uma continuidade do chamado iniciado com o Batismo; continua ainda nas mãos de adultos, bem intencionados, mas muitas vezes, desfalcados de conhecimentos históricos, bíblicos e teologais, de carinho, compreensão e entendimento do pensamento e dos sentimentos dos jovens espalhados nas paróquias deste País. Entender o mundo juvenil não é prática comum, não é para qualquer pessoa.

E o que dizer sobre os jovens que estão nas comunidades eclesiais de base e que assumem, com certos custos, a missão de evangelizar a juventude, e que não contam muitas vezes com o apoio da própria comunidade, de outros jovens, do padre, da religiosa, do bispo...são como águias estressadas, avistam o horizonte ao longe, mas já não conseguem bater suas asas e voar bem alto, próximas do sol...querem comer, mas já não sabem caçar. Reclamam mas não conseguem avançar.

Mesmo tendo uma estrutura bem montada na Igreja, com um belo trabalho por parte de uma juventude militante, não se consegue ouvir a voz da profecia. Quando isso ocorre, com certeza, por conta de uma ação isolada não atingiu o todo da Igreja, por todo o País. De fato, os gritos estão silenciados e não evidenciados. Há uma incoerência programada no meio da juventude militante de pensar que, por estarem nos lugares mais altos dentro da estrutura, que não devam mais participar e partilhar suas experiências nas suas comunidades e paróquias de origem, enfraquecendo toda a engrenagem de formação de novas lideranças juvenis. Se estes militantes (coordenadores e assessores), mais experimentados, assumem coordenações diocesanas, regionais e a nacional, mas não são conhecidos, reconhecidos, e não estão a disposição em suas bases, qual o crédito que terá, se dará, a tais testemunhos no seio das comunidades que os enviaram em missão? Afinal, o jovem é sujeito da História, é o sujeito de sua realidade, mas o protagonismo é da comunidade eclesial de base que chama em nome de Deus e envia para a evangelização, de dentro para fora da Igreja. Ao agirem, distanciando-se da base, pregando que ela não é importante, desvalorizando e caluniando o trabalho de outros coordenadores e assessores, por pensarem e agirem diferente, estão sendo os culpados pelo calar-se da profecia; e o que é pior, arrastam outros jovens a cometerem o mesmo pecado.

O cansaço e o desânimo tem levado a juventude a desistir muito facilmente da Palavra de Deus e de todo comprometimento que ela sugere para a humanidade. Tem levado-a para o encontro e o diálogo com várias outras ideologias que são diferentes daquelas oriundas de um ambiente religioso familiar onde a fé é mais cultural e tradicional do que pessoal.

Do ano de 2003 até o atual, se pode constatar um pequeno crescimento e melhora na educação e na saúde, beneficiando assim a juventude. Mas ainda é pouco. É necessário que se tome ações mais enérgicas. A juventude é chamada a ser portadora de profecia e de espiritualidade, numa sociedade globalizada, onde há uma inevitável mudança de valores, do aumento do individualismo, do sexo desenfreado, do fundamentalismo, da violência e do extermínio de jovens. A violência permeia a vida humana desde os primórdios, sendo que nos últimos anos aniquilou de várias maneiras a existência juvenil no Brasil. Se mata e se morre muito mais no Brasil, por conta das drogas lícitas e ilícitas, do trânsito, das DST, do que durante a Primeira e a Segunda Guerra Mundial, um verdadeiro extermínio.

O jovem envolvido com a violência e sem uma estrutura familiar e de um círculo de amizades, não quer perder tempo encontrando um emprego em que o salário mínimo não irá lhe garantir a realização dos seus sonhos e prazeres imediatos, ele prefere ser uma “mula” do tráfico na escola em que estuda, não importando se irá ficar reprovado ou não; prefere tomar conta da “boca” exterminando os rivais e mantendo a polícia longe, pois assim terá poder material e pessoal. A violência tem povoado os noticiários, os programas de TV, as discussões no barzinho da esquina. Os crimes cometidos contra a juventude e pela juventude deixam aos poucos de serem números preocupantes, pois se tornam senso comum. E aumenta o coro daqueles políticos que querem diminuir a maioridade penal. Será que é essa a solução para todos os problemas?

As ações são tímidas e as vozes proféticas na Igreja não são ouvidas!

A injustiça está batendo à porta e não se faz nada.

Enquanto houver injustiça e pobres o Reinado da Vida não acontecerá.



4 Considerações Finais

Juventude é um tempo propício de educação, de encontro e diálogo, de oferta e descoberta. Tempo em que o amor avança para uma relação nova. Relação em que o jovem experimenta o Transcendente a partir de uma análise da própria vida e da própria vocação. Os mesmos passos que Deus percorreu para dar uma resposta adequada à sua vocação: ouvir, lembrar, ver, conhecer, descer, decidir, chamar. Eis o desafio da profecia e da espiritualidade juvenil.

Falamos aqui da profecia e da espiritualidade que borbulha dentro e para além de nossa Pastoral da Juventude: O Mistério Pascal do Moreno de Nazaré. Muitos jovens vieram antes de nós e testemunharam os ares da abertura do Concílio Vaticano II, de Medellin, de Puebla; se colocaram em missão e levaram o Evangelho a todos os cantos deste Continente. Somos frutos destes testemunhos proféticos; somos frutos da libertação de uma teologia européia para uma Teologia da Libertação, onde o centro é o Moreno de Nazaré e sua prática e pedagogia libertadora em direção aos pobres. Muitas cruzes foram levantadas, sangue inocente foi derramado por causa da Palavra germinada nestas terras continentais, de rostos indígenas, negros e brancos. Nossa profecia e espiritualidade é martirial. E com o sangue de nossos mártires não se pode brincar. Nossa profecia e espiritualidade é diaconal, é de comunhão, é de anúncio e de denúncia, é de defesa constante da Vida.

No Brasil, na Nossa América Afro-Latíndia, o compromisso com as causas do Reino, nas causas do Povo, fizeram da Pastoral da Juventude, um ponto de encontro, um porto seguro, para as discussões sócio-políticas, religiosas e econômicas, que não podem e nem devem ser vividas, entendidas e interpretadas separadamente: é o Caminho de Emaús a ser percorrido!

E não há caminho a ser percorrido sem cruz a ser carregada! Falar de profecia e espiritualidade nos dias atuais é encontrar em nós e na comunidade, o mistério que nos faz viver com os pés no chão, atentos aos apelos e aos clamores do povo, com o coração e os ouvidos bem abertos para o que Deus tem a nos dizer.

Que nossa juventude possa retomar a profecia ao experimentar do cálice...há muita coisa a ser feita...o Reino ainda não chegou...mas continuamos na luta!

Na Paz militante do Reino da Vida! No Sonho do Outro Mundo Novo Possível!



5 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

 
CASALDÁLIGA, Pedro. VIGIL, José Maria. Espiritualidade da Libertação. Rio de Janeiro: Vozes, 4ª. ed. 1996.
CELAM – Conselho Episcopal Latino – Americano. Seção Juventude – SEJ. Civilização do Amor: Tarefa e Esperança. Orientações para a Pastoral da Juventude Latino-Americana. São Paulo: Paulinas, 1997.
CNBB. Evangelização da Juventude – Desafios e Perspectivas Pastorais. São Paulo: Paulinas, 2007.
COMBLIN, José. A Profecia na Igreja. São Paulo: Paulus, 2008.
DICK, Hilário. Gritos Silenciados, Mas Evidenciados – Jovens Construindo Juventude na História. São Paulo: Edições Loyola, 2003.
LIBANIO, J.B. Jovens em Tempos de Pós-Modernidade – Considerações socioculturais e pastorais. São Paulo: Edições Loyola, 2004.
TAVARES, Emerson Sbardelotti. O Mistério e o Sopro – Roteiros para Acampamentos Juvenis e Reuniões de Grupos de Jovens. Brasília: CPP, 2005.
____________. Utopia Poética. São Leopoldo: CEBI, 2007.

VASCONCELLOS, Pedro L. SILVA, Valmor da. Caminhos da Bíblia – Uma História do Povo de Deus. São Paulo: Paulinas, 2003.

sábado, 13 de novembro de 2010

CURRICULUM VITAE PASTORALE

Nascido em 13 de setembro de 1972, Vitória – Espírito Santo, durante o pontificado de Sua Santidade Paulo VI, durante o arcebispado de D. João Baptista da Motta e Albuquerque na Arquidiocese de Vitória do Espírito Santo.


Sua atuação sempre foi com Juventude: Pastoral da Juventude, Crisma, Música.

É Agente de Pastoral Leigo da Paróquia Nossa Senhora da Conceição Aparecida em Cobilândia, Vila Velha – Espírito Santo.

É professor de História da Igreja e de Espiritualidade Litúrgica na Escola de Teologia João Maria Vianney, na mesma Paróquia, onde assessora as formações para ministros extraordinários da Sagrada Comunhão.

Faz conferências nas áreas de Espiritualidade e Mística, Juventude, Bíblia e Liturgia.

É autor do livro O MISTÉRIO E O SOPRO – ROTEIROS PARA ACAMPAMENTOS JUVENIS E REUNIÕES DE GRUPOS DE JOVENS, publicado pelo Centro de Pastoral Popular em 2005 (cf. www.cpp.com.br). É apresentado por D. Pedro Casaldáliga – bispo emérito de São Félix do Araguaia – MT.

É autor do livro UTOPIA POÉTICA, publicado pelo Centro de Estudos Bíblicos em 2007 (cf. www.cebi.org.br), apresentado pelo poeta e cantador Zé Vicente.

Começou suas atividades pastorais em 1980, quando fez a Primeira Eucaristia, indo servir na equipe de catequese da comunidade eclesial de base Nossa Senhora do Magnificat. Conheceu a Pastoral da Juventude em 1985, nas comemorações do Ano Internacional da Juventude, no Ginásio Dom Bosco-Salesiano, Vitória-ES. Participou de todas as instâncias da PJ: grupo, paróquia, área pastoral, coordenação arquidiocesana, foi secretário arquidiocesano, e micro-capixaba (as quatro dioceses capixabas). Participou da equipe que elaborou o projeto Momento Novo – projeto de formação de lideranças jovens; o projeto Germinando – projeto de formação para coordenadores paroquiais e de grupos de jovens. Participou da equipe que preparou o DNJ Estadual de 1992: Ouça o Eco da Vida. Reunindo na Prainha em Vila Velha – ES, mais de 30 mil jovens vindos de todas as paróquias do Estado.

De 1993 a 1996 estuda e se forma em Turismo, atuando na equipe de crisma paroquial, assessorando os grupos e as catequistas.

Em 2000 entrou para o grupo de assessores da PJ da Arquidiocese de Vitória do Espírito Santo, passando a acompanhar a coordenação da área Serrana.

Em 2004 foi viver uma experiência vocacional junto à congregação dos padres do Sagrado Coração de Jesus no Maranhão, morando na casa paroquial do Monte Castelo com o então padre, hoje bispo de Caxias-MA, D. Vilson Basso, scj; antigo assessor nacional da PJ. No mesmo ano foi morar em Imperatriz do Maranhão, atuando enquanto assessor nesta diocese até o final daquele ano.

Em 2005 publica seu primeiro livro e retoma seus trabalhos pastorais na Paróquia de Cobilândia.

Em 2007 publica seu segundo livro e volta a assessorar grupos de jovens na Arquidiocese de Vitória do Espírito Santo.

Atualmente está cursando o Bacharelado de Teologia pelo Instituto de Filosofia e Teologia da Arquidiocese de Vitória do Espírito Santo, custeado pela Paróquia de Cobilândia.

Se coloca a disposição para assessorar em qualquer diocese do País, desde que seja dado uma contribuição (um salário mínimo) ou próxima daquelas dadas a outros assessores, as passagens de ida e volta (avião – para locais longe / ônibus – para locais próximos), hospedagem, alimentação, transporte, toda a estrutura (notbook, data show, material de secretaria, material litúrgico, etc) para desenvolver a temática proposta com a antecedência de um mês, para que o material escrito possa ser feito e mandado para o contratante. Mas pode haver um acordo que beneficie tanto o assessor como quem o contrata, pois o mesmo vive de seus livros e das assessorias que faz.

YVY MARÃ EI

YVY MARÃ EI (A TERRA SEM MALES)
- Releitura do Êxodo 3: enquanto vejo Tupinikins e Guarani sendo mortos pela Aracruz Celulose -
Muito tempo depois morreu o Imperador do Mal, e os Filhos do Sol, gemendo sob o peso da escravidão e da extinção, clamavam, e do fundo da escravidão e da extinção o seu clamor subiu até Tupã. E Tupã ouviu os seus lamentos e gemidos; Tupã lembrou-se do dia em que dançou com os grandes caciques, com os grandes pajés, com os grandes xamãs com os grandes anciãos. Tupã viu o os Filhos do Sol e os conheceu e se compadeceu.
Eis que caçava e pescava Galdino, Pataxó Hã-Hã-Hãe, as margens do Araguaia, próximo aos Karajás, num território que já não pertencia a ele, nem aos seus semelhantes, muito menos aos seus antepassados e isso aumentava ainda mais o sofrimento que trazia em sua alma. E Tupã lhe apareceu no meio dos toros. Os toros originaram o Quarup. E os toros dançavam, como se estivessem vivos e estavam. E os toros dançavam ao som do canto dos pássaros da floresta, ao som de tambores que Galdino nunca tinha ouvido antes. E Galdino disse: "Darei uma volta e verei este fenômeno estranho, verei por que os toros dançam, como se vivos estivessem, como se guerreiros fossem".
E Tupã viu que Galdino deu uma volta para ele ver. E Tupã o chamou: "Galdino, Pataxó Hã-Hã-Hãe".
Galdino respondeu: "Eis-me aqui".
Tupã disse: "Eis a Criação! Dance! Dance para te aproximar. Eis a Pacha Mama e teus antepassados, eis a Grande Gaia! Eu sou Tupã! Eu sou Tupã!"
E Galdino dançou, e ouviu os cantos dos pássaros e dos tambores. E dançou ao redor dos toros onde estava Tupã.
E disse Tupã: "Eu vi, eu vi a miséria do meu povo que está nesta terra continental. Ouvi o seu clamor, o seu lamento por causa dos opressores; pois eu conheço as suas angústias. Por isso desci a fim de liberta-lo da mão do Mal, e para faze-lo subir desta terra a uma terra boa e vasta, terra onde se pesca e caça, onde se planta e colhe, terra onde não existe a morte, onde não há extinção, terra em que não há exclusão. Agora o clamor dos Filhos do Sol chegou até a mim, e também sinto a opressão com que o Mal está oprimindo. Vai, agora, pois eu te enviarei para subir desta terra e ir para o lugar que se chamaYvy marã ei, onde dançaremos a feliz dança da vida".
Então Galdino disse a Tupã: "Como farei sair os Filhos do Sol para a terra sem males?"
"Eu estarei contigo", disse Tupã. E disse ainda: "Vai, reúne os caciques e anciãos e diga-lhes: "Tupã, o Deus de nossos pais, de nossas mães, me apareceu dizendo: "Subirão todos para Yvy marã ei, e dançaremos a dança da vida".
Mas disse Galdino: "Não nos deixarão sair. Seremos assassinados... Destruirão nossa cultura. Nos queimarão vivos enquanto dormimos!"
E disse Tupã: "Estenderei minha mão e ferirei aquele que se diz poderoso. Neste dia a onça pintada não sairá para caçar, o jacaré não entrará no rio, as piranhas não se alimentarão, os pássaros não irão voar nem cantarão, pois Tupã ferirá a casa d'Aquele que se diz poderoso. Se ouvirá em toda a floresta, vale ou campina, na praia ou sertão, o som da guerra em favor do meu povo. E quando todo o povo indígena partir, uma vida nova estará nascendo por essa nova estrada em que caminham os meus guerreiros, as minhas guerreiras.
Eis a terra que lhes dou: Yvy marã ei!"
E Galdino saiu da presença de Tupã com seu espírito fortalecido. Sentira agora, coisas que o sofrimento apagara de seu coração guerreiro. Correndo pela floresta fez a experiência plena na certeza da vitória, pois Tupã desceu e se fez indígena no meio do seu povo.

Emerson Sbardelotti
Prêmio Páginas Neobíblicas da Agenda Latinoamericamundial 2003.

domingo, 26 de setembro de 2010

BAIÃO DE DOIS DO POETA

BAIÃO DE DOIS DO POETA

Este é um prato típico da culinária nordestina, imortalizado na música de Luiz Gonzaga. Assim como os nordestinos é um prato forte, mas de sabor inigualável.
E se tornou um verdadeiro sucesso quando eu fiz para as festas de confraternização da COMUNA PRÉ-VESTIBULAR POPULAR, sendo lembrado e requisitado até hoje.
Espero que vocês possam fazer em casa e que se lambuzem muito. Vamos a minha receita já adaptada do que ouvi meu pai me falar a muito tempo atrás. As medidas vocês podem ir diminuindo conforme a quantidade de pessoas, e não fiquem nervosos, demora mesmo para fazer o prato...rs...
Abreijos.
Ingredientes:
2kg de feijão de corda
1kg de carne seca (dessalgada, cortada em cubos, cozida)
1kg de costelinha de porco (cozida, cortada em pedaços)
500g de mandioca
300g de bacon
300g de queijo coalho (cortado em fatias finas)
4 colheres (sopa) de manteiga de garrafa
3 paios (cortados em rodelas)
3 linguiças defumadas grandes (cortadas em rodelas)
3 linguiças defumadas finas (cortadas em rodelas)
3 tabletes de caldo de bacon
3 xícaras (chá) de arroz
2 pimentões verdes (picados)
2 cebolas grandes (picadas ou raladas)
2 abobrinhas cortadas
1 cabeça de alho amassada
tempero verde a gosto (picado)
Preparo:
1. Lave o feijão de corda e deixe-o de molho de véspera, troque a água de tempo em tempo.
2. No dia seguinte, cozinhe-o juntamente com o paio, as linguiças defumadas, o bacon, a carne seca, mandioca, costelinha de porco, abobrinhas e o caldo de bacon, dissolvido em dois litros e meio de água fria ou mais se for o caso.
3. Tampe a panela e deixe cozinhar em fogo baixo por cerca de 1 hora.
4. Em outra panela doure a cebola e o alho, na manteiga de garrafa.
5. Junte o coentro e o arroz e refogue bem até ficar brilhante e um pouco transparente.
6. Misture bem com o feijão e os outros ingredientes, tampe a panela e deixe cozinhar até que o arroz fique cozido, úmido e com consistência cremosa.
7. Durante o cozimento do arroz, se necessário adicione água, tomando o cuidado para não deixar a mistura ficar seca.
8. Junte a salsinha, salsão, cebolinha verde...tudo bem cortado e ou picado...e mexa com cuidado.
9. Cubra com as fatias de queijo coalho.
10. Tampe a panela e deixe que o vapor derreta o queijo.
Depois disso tudo...nem cachorro come...pois não sobra...bom apetite.
Me mandem suas conclusões depois de terem saboreado esse prato maravilhoso da culinária nordestina e brasileira.
Emerson Sbardelotti

terça-feira, 31 de agosto de 2010

Campanha TODOS CONTRA A DEMAGOGIA

TODOS CONTRA A DEMAGOGIA

Pedidos de camisa pelo email: todoscontraademagogia@gmail.com
Estas serão entregues antes das eleições deste ano.
Maiores informações pelo email ou pela comunidade no orkut.

segunda-feira, 12 de julho de 2010

PENSO, LOGO EXISTO

PENSO, LOGO EXISTO

Estou sentado no banco da praça
meu cachorro testemunha o meu cansaço
olho para frente e só vejo o passado
as marcas estão no corpo e por todo o lado

as pessoas passam depressa
não olham para mim
queria estar conversando com alguém
pois conversar é igual a cuidar de um jardim

eu cuido do jardim da praça
aqui é a minha vida e a minha casa
é esta a crença que sigo
penso, logo existo

a solidão das pessoas pode ser a culpada
pela violência que aumenta ainda mais
uma menina se interessou pelo meu cachorro
e pra mim um sorriso cheio de paz

mas o meu cachorro insistiu em ficar
e eu fiquei um pouco mais feliz
amanhã seu moço, se passar por aqui
não se esqueça de admirar o jardim

Emerson Sbardelotti
12 de julho de 2010
15:58
Foto de Anny Arantes
*direitos reservados*

NAQUELA CASA

NAQUELA CASA

Naquela casa
o tempo não passou
naquela casa
nosso amor começou

aquelas árvores são testemunhas
dos gemidos e de todas as aventuras
nas noites de lua cheia não tinhamos medo da escuridão
dormiamos à beira da fogueira, como viemos, no chão

mas não há loucura maior do que bem viver
naquele mar planejamos ser três
só restou a lembrança no retrato antigo
e o desejo de lhe abraçar só mais uma vez

naquela casa
quando entro, choro de emoção
naquela casa
deixei minha paz e o meu violão

e a vida insiste em continuar
e a cada nova estrada sinto algo
que naquela casa experimentei
por mais que eu ande, ali é o meu lugar

Emerson Sbardelotti
12 de julho de 2010
15:39
Foto: Anny Arantes - Paraty/RJ
*direitos reservados*

sexta-feira, 9 de julho de 2010

A CAPELINHA


A CAPELINHA

A capelinha ainda está no mesmo lugar
onde nos vimos pela primeira vez
onde fizemos as primeiras juras de amor
lá eu lhe entreguei o meu coração

a capelinha nos abrigou nas noites de lua cheia
nos protegeu de todos os perigos e das tentações
tanta história para contar e relembrar
mas a vida não parou e eu só pude olhar

para o presente que hoje vivo
a ferida cicatrizou e insisto em
visitar os lugares de nossa felicidade
consigo relaxar e entrar para a eternidade

a capelinha pode não estar ali quando eu voltar
daqui alguns anos se a idade deixar
e aproveito para tirar uma foto e por instantes
vejo você com braços abertos a me chamar

Emerson Sbardelotti
09 de julho de 2010
19:53
Foto de Anny Arantes - Capelinha da Fazenda Santana - Pantaleão (Amparo/SP)
*direitos reservados*

DE COSTAS

DE COSTAS

Os cabelos soltos e encaracolados
o olhar fixo para a beleza
na praia do Félix encontrou a certeza
que estar vivo é estar feliz
de costas para a tristeza
de frente para a natureza

e as ondas ainda não alcançaram os seus pés
e os pensamentos viajam na mesma direção
o olhar fixo não percebe a lágrima que escorre
deslizando por todo o corpo alcança o chão
e as ondas ainda não alcançaram os seus pés
mas o barulho que fazem...fazem uma canção

de costas a sensualidade aflora
de tarde está na hora de ir embora
sentada na pedra ela olha
e os cabelos encaracolados se soltam mais
o vento sopra na matinha anunciando
que as ondas molham seus pés...é a paz

Emerson Sbardelotti
09 de julho de 2010
19:22
modelo fotografada: Anny Arantes - Praia do Félix
*direitos reservados*

quinta-feira, 8 de julho de 2010

CASA DA VÓ JOANA

CASA DA VÓ JOANA

O tempo passou tão depressa
o tempo é amigo que chega sem avisar
o tempo é inimigo para quem não reza
naquele número 3 em Paraty, a bonança
a casa da Vó Joana

naquela antiga janela ela ainda está descansando
olhando o futuro com olhos cansados do passado
e coloca suas mãos no rosto segurando o queixo
as mudanças não mudaram o que tem de melhor
dentro do peito...depois do último beijo...dentro do peito...

nenhuma ruga irá sair do seu rosto
ela não apagará tudo o que de bom viveu
o que de aconteceu de ruim, chorou e já se perdeu
nos cabelos brancos a serenidade dos dias e da canção
não há só a saudade, mas sim, a vida em seu coração

na casa da vó Joana você será sempre bem vindo
você estará sempre perto do aconchego
naquela antiga janela os olhos do passado
enxergam o presente com esperança e amor
na casa da vó Joana, o tempo foi mas voltou

Emerson Sbardelotti
09 de julho de 2010
02:46
A partir de foto de Anny Arantes em Paraty/RJ
*direitos reservados*