quarta-feira, 22 de março de 2017

PARTILHA DA PALAVRA - HOMILIA



PARTILHA DA PALAVRA – HOMILIA

Emerson Sbardelotti*

            Tenho a oportunidade de ser convidado para fazer a Partilha da Palavra – Homilia em muitas comunidades eclesiais de base e paróquias, e sempre que isso acontece, com muita humildade e alegria, me preparo com muita antecedência para dar o melhor de mim, pois entendo que uma Partilha bem feita produz bons frutos para aquela comunidade reunida em torno da Palavra de Deus. Tomo o cuidado de conhecer a realidade daquela comunidade, daquela paróquia, suas vitórias, suas derrotas, alegrias e tristezas. Procuro sempre falar de forma simples, independente da instrução escolar da assembleia.
            Nesta preparação, além da Bíblia de Jerusalém, do Peregrino, TEB e a Pastoral, utilizo as reflexões da Revista Vida Pastoral, muitos livros com comentários bíblicos e o livro Roteiros Homiléticos, do padre José Bortolini.
            No caminho para o local da celebração agradeço a Deus por estar servindo ao Povo enquanto homiliasta, enquanto ministro da Palavra, e peço a Ele para falar por mim enquanto estiver conversando com as famílias cristãs ali reunidas.
            Muitas pessoas me perguntam: como fazer uma boa partilha da Palavra – Homilia? Quanto tempo deve ter? Digo sempre a anedota que D. Pedro Casaldáliga, um dia em sua casa, em São Félix do Araguaia-MT, quando eu lhe perguntei quanto tempo deve demorar uma homilia? Pedro me disse: “Os 5 primeiros minutos é Deus falando por você. De 5 a 10 minutos é você falando para a assembleia. Dos 10 minutos em diante é o espírito de porco...”. Ri muito com ele neste dia e entendi a mensagem.
Acredito que o segredo para uma boa Partilha está na preparação que você faz para realizá-la.
            Por estar sempre me preparando com antecedência, observo sempre aquela leitura que possa ser um pouco mais complicada e a melhor forma de explicá-la à assembleia me detendo um pouco mais nela, mas não deixo de falar das outras fazendo a ponte com a realidade da comunidade. O Evangelho do dia sempre tem um maior destaque!
            Para ajudar meus amigos e amigas e a você que me curte e me segue nas redes sociais eu escolhi alguns trechos de livros, com pessoas que são especialistas em Liturgia e que de forma simples podem nos ajudar a entender um pouco melhor a arte de fazer a Partilha da Palavra – Homilia.
            É apenas um aperitivo o texto que segue. Haverá algumas repetições, no geral, as informações irão lhe ajudar a entender um pouco melhor a Partilha da Palavra – Homilia. Uma dica valiosa: busque ler os livros citados nas notas de rodapé do texto. No final do texto há algumas questões para reflexão pessoal ou em grupos.
            Boa leitura! E se gostar pode compartilhar com todos os seus contatos. Havendo dúvidas entre em contato.
            Que o Moreno de Nazaré sempre lhe abençoe e lhe inspire na defesa da Vida!


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Maria de Lourdes Zavares diz que “a Liturgia da Palavra é diálogo amoroso e comprometedor entre Deus e seu povo, congregado em Cristo e animado pelo seu Espírito.
            A homilia, como parte integrante deste diálogo, merece nossa atenção.
            Homilia significa conversa familiar. Um diálogo fraterno, continuando o assunto da conversa que Deus vem fazendo conosco através das leituras e dos fatos da vida. Ela tece harmoniosamente uma relação entre a Bíblia, a celebração e a vida. Estabelece um elo entre a proposta de Deus e a resposta da assembleia.
            A homilia é ação simbólica assim como cada momento da Liturgia da Palavra.
            Homilia não pode ser confundida com sermão, discurso temático ou pregação com caráter moralizante. Não é estudo bíblico ou catequético nem reflexão e, muito menos, deve ser substituída por desabafos pessoais de quem a faz.
            Não basta simplesmente explicar os textos bíblicos. É preciso interpretá-los a partir da realidade, atualizando-os na vida concreta da comunidade celebrante, tendo como referência o mistério de Cristo. Ele faz arder os corações, abrindo-os à conversão, à transformação pessoal, comunitária e social”[1].

Ione Buyst nos diz que “a Palavra de Deus é sempre viva e atual. Traz uma boa notícia, um conforto, um alento, alegria, esperança, e também um apelo, um chamado à conversão e à missão, em cada momento de nossa vida. Por isso, as leituras bíblicas são meditadas, comentadas, confrontadas com os fatos de nossa vida pessoal, comunitária, social. Relacionar Bíblia e Vida é tarefa da homilia, numa conversa familiar, de irmãs e irmãos prestando atenção àquilo que o Senhor nos tem a dizer.
            É tarefa ainda da homilia de nos preparar para a segunda parte da celebração, ligando as leituras bíblicas com o mistério celebrado na Eucaristia ou na louvação.
            A homilia é da responsabilidade de quem preside. Às vezes é conduzida em forma de uma conversa comunitária, deixando aberta a participação do povo.
            Existe a possibilidade de se retomar a temática das leituras bíblicas e da homilia, com um canto após a homilia”[2].

            Maria de Lourdes Zavarez afirma que “cremos que é o próprio Cristo que fala, quando na Liturgia, são lidas e explicadas as Escrituras. E a homilia é a ação do seu Espírito.
            Ele abre a comunidade para compreender, saborear e aceitar a Palavra proclamada, perceber o sentido dos acontecimentos à luz da Páscoa, renovar em ação de graças sua fé, retomar os motivos de sua esperança e se comprometer com a fraternidade, a justiça e o mandamento do amor.
            Esta ação não se dá automaticamente. É trabalho conjunto do Espírito e da comunidade celebrante.
            Além de fazer a ligação entre os textos bíblicos e a vida, é função da homilia abrir e conduzir a assembleia para dentro do mistério da salvação, acontecendo no momento celebrativo. É sua dimensão mistagógica nem sempre levada em conta em nossas celebrações.
            E como fazer isto? Primeiramente, evocando as ações libertadoras que Deus realizou e realiza por nós em Jesus. Ele é o grande motivo da ação de graças que a comunidade faz a seguir na oração eucarística. E, depois, despertando na assembleia a atitude de oferenda e comunhão com Cristo ao Pai.
            A pessoa responsável pela homilia é normalmente quem preside, que poderá envolver outras pessoas e até toda a assembleia na partilha da Palavra. É uma tarefa sagrada. Daí decorre sua responsabilidade de preparar-se bem durante a semana.
            Neste sentido, muito tem ajudado um jeito antigo de ler a Bíblia, redescoberto e utilizado recentemente, por muitas comunidades cristãs, a leitura orante, ou lectio divina. Esse método consta de quatro momentos ou passos:
a)     A leitura aprofundada e cuidadosa dos textos bíblicos indicados, ou pelo menos do evangelho;
b)     A meditação, ligando os textos bíblicos com nossa vida, com a realidade que nos cerca;
c)      A oração brotando desta meditação: “O que esta Palavra nos leva a dizer a Deus?”;
d)     A contemplação, momento de entrar em comunhão íntima, deixando-nos conduzir pela ação amorosa do Senhor.
Para manter a dimensão orante, dialogal, profética e mistagógica, três perguntas poderão orientar e facilitar a participação da assembleia nesta conversa familiar, que é homilia:
a)     Qual a boa notícia de Deus para nós hoje?
b)     Qual o apelo que Ele nos faz?
c)      Que resposta daremos a esta Palavra na celebração e na vida?
O silêncio torna-se indispensável no final da homilia. Assim a resposta à Palavra, a ser dada pela comunidade, na celebração e na vida, ganhará autenticidade, realizada primeiro no íntimo de cada pessoa, pela ação do Espírito”[3].

            Ione Buyst afirma que “é preciso fazer com que Cristo, o Senhor, possa falar ao coração e à mente de seu povo reunido, dentro da realidade de sua vida cotidiana, de sua cultura, de sua história.
            Normalmente, a homilia é tarefa dos padres; faz parte de seu ministério. Porém, todos nós sabemos que mais ou menos 70% das comunidades, que se reúnem aos domingos, não podem contar todos os domingos com um ministro ordenado. Mas nem por isso as comunidades ficam sem alguém que faça a partilha do pão indispensável da Palavra de Deus. Por toda parte, o Espírito Santo foi suscitando e a Igreja foi organizando e preparando ministros da Palavra de Deus, homens e mulheres da comunidade que se colocam à disposição do Senhor e dos irmãos e irmãs. Entre outras tarefas, cabe-lhes fazer a homilia.
            Quem já fez homilia sabe que se trata de uma tarefa nada fácil.
            Qual a maior diferença entre homilia e sermão? No sermão falava-se de qualquer assunto, não necessariamente ligado com os textos sagrados. E também não fazia parte integrante da Liturgia: interrompia-se a missa para fazer o sermão e o padre até tirava a casula para subir ao púlpito e fazia o sinal da cruz no início e no fim. Então, o sermão era como um corte no meio da missa, uma interpolação.
            Somente na década de 1960, com a renovação do Concílio Vaticano II, é que a homilia foi reintroduzida na prática da Igreja. E assim, aos poucos, foi recuperando o lugar que jamais deveria ter perdido.
            Diz o Concílio Vaticano II, na Constituição sobre a Sagrada Liturgia (1963), SC, n. 52:
·         A homilia é parte da liturgia;
·         Expõe os mistérios da fé e as normas de vida cristã, no decorrer do Ano Litúrgico;
·         Faz-se sobre o texto sagrado;
·         Não deve ser omitida sem grave causa nas missas de domingo e dias de guarda.
A Introdução ao Elenco das Leituras da Missa (IELM, 1981) no n. 24, retoma estes dados e acrescenta mais um elemento importante:
            Cristo está sempre presente e operante na pregação da Igreja.
            Com isso, retoma um ensinamento do papa Paulo VI em sua encíclica Mysterium Fidei (1965), completando o texto da SC, n. 7 que fala da presença de Cristo quando se leem as Sagradas Escrituras na comunidade reunida. Ou seja, também na homilia, Cristo está presente e nos dá sua Palavra.
            Portanto, a homilia é, juntamente com toda a Liturgia, uma ação sacramental: pelas palavras humanas (ou, às vezes, apesar delas!), Deus está presente, nos atinge com sua Palavra e nos transforma”[4].
           
            Luis Maldonado diz que “a homilia é a pregação cristã que ocorre no âmbito de uma celebração litúrgica. São duas as suas características: ser pregação e ser pregação litúrgica.
            Como pregação deve corresponder às características fundamentais desta tarefa pastoral básica na Igreja, que podemos também denominar serviço à Palavra de Deus.
            Como pregação litúrgica reunirá e refletirá os traços e elementos essenciais de toda liturgia. Desta maneira, não há de ser corpo estranho dentro da celebração, nela inserido apenas de modo extrínseco, mais ou menos forçado, porém, enxertar-se-á harmoniosamente em seu contexto como etapa mais de fluência ritual e como ingrediente perfeitamente homogêneo dentro do conjunto do universo festivo celebrativo”[5].

            Yone Buyst diz que a “a liturgia da Palavra é memória de Jesus, diálogo da Aliança entre Deus e o seu povo em clima orante, instrução do povo de Deus, confrontando textos bíblicos e vida pessoal e social, exortação e animação para uma vida de acordo com o Evangelho de Jesus e também intercessão para apressar a vinda do Reino de Deus em nossa realidade.
            Cabe à presidência, sobretudo, a responsabilidade pela homilia, partilha da Palavra. É o momento da interpretação das leituras bíblicas ouvidas (incluindo o salmo), relacionando-as com a vida e com a liturgia que estamos celebrando. Ou seja, trata-se de fazer uma ‘leitura espiritual’ das escrituras e da vida. Para muitos, a celebração dominical é a única escola, o único fórum para tomar conhecimento dos valores cristãos, formar uma opinião sobre os acontecimentos da vida pessoal, comunitária e social. Necessitamos de um espaço onde possamos avaliar a opinião pública e confrontar as ideias divulgadas por jornais, rádio e televisão. E a melhor maneira de fazer isso é aproveitar os fatos do momento, comentados por todos, e abordá-los na homilia à luz das sagradas escrituras.
            Quem faz a homilia ou partilha da Palavra não pode se esquivar dessa tarefa formativa da comunidade ante a atualidade.
            O homiliasta é um pedagogo na fé: cria em nós a atitude espiritual própria de cada tempo e festa litúrgica, para que possamos assimilar em nossa vida, em nossas atitudes, os vários mistérios de Cristo; ajuda-nos a crescer espiritualmente para ‘que todos juntos nos encontremos unidos na mesma fé e no conhecimento do Filho de Deus, para chegarmos a ser o homem perfeito que, na maturidade do seu desenvolvimento, é a plenitude de Cristo’ (Ef 4,13).
            A homilia poderá ser feita de forma comunitária, como uma conversa, um diálogo, pois o Espírito Santo está presente e fala à comunidade como um todo. Mas quem preside não pode deixar a conversa correr solta: deve iniciar, conduzir a conversa, dar e retomar a palavra, assegurar “o fio da meada”, garantir que o Senhor possa dizer sua Palavra à comunidade reunida, ligar a liturgia da Palavra com a vida e com a liturgia eucarística. É oportuno deixar um longo silêncio no final da homilia para que a Palavra ouvida possa ecoar no fundo de nosso coração e dar frutos[6].

              Segundo a CNBB: “é função da homilia atualizar a Palavra de Deus, fazendo a ligação da Palavra escutada nas leituras com a vida e a celebração. É importante que se procure mostrar a realização da Palavra de Deus na própria celebração da Ceia do Senhor. A homilia procura despertar as atitudes de ação de graças, de sacrifício, de conversão e de compromisso, que encontram sua densidade sacramental máxima na Liturgia eucarística.
            Os fiéis, congregados para formar uma Igreja pascal, a celebrar a festa do Senhor presente no meio deles, esperam muito dessa pregação e dela poderão tirar fruto abundante, contanto que ela seja simples, clara, direta e adaptada, profundamente aderente ao ensinamento evangélico e fiel ao magistério da Igreja. Para isso é necessário que a homilia seja bem preparada, relativamente curta e procure prender a atenção dos fiéis”[7].

            A CNBB afirma que “a homilia é também parte integrante da Liturgia da Palavra. Ela atualiza a Palavra de Deus, de modo a interpelar a realidade da vida pessoal e comunitária, fazendo perceber o sentido dos acontecimentos, à luz do plano de Deus, tendo como referencial a pessoa, a vida, a missão e o mistério pascal de Jesus Cristo. A explicação viva da Palavra de Deus motiva a assembleia a participar na oração de louvor e na vivência da caridade, buscando realizar a ligação entre a Palavra de Deus e a vida, com mensagem que brota dos textos em conjunto e em harmonia entre si, atingindo a problemática do dia a dia da comunidade.
            Quando oportuno, convém que a homilia ou a partilha da Palavra desperte a participação ativa da assembleia, por meio do diálogo, aclamações, gestos, refrães apropriados. Segundo as circunstâncias, quem preside convida os presentes a dar depoimentos, contar fatos da vida, expressar suas reflexões, sugerir aplicações concretas da Palavra de Deus. Poderá haver troca de ideias em grupo, seguida de uma breve partilha comum e a complementação de quem preside”[8].

            Nosso querido Papa Francisco nos diz assim: “Consideremos agora a pregação dentro da Liturgia, que requer uma séria avaliação por parte dos Pastores. Deter-me-ei particularmente, e até com certa meticulosidade, na homilia e sua preparação, porque são muitas as reclamações relacionadas a este ministério importante, e não podemos fechar os olhos. A homilia é o ponto de comparação para avaliar a proximidade e a capacidade de encontro de um Pastor com o seu povo. De fato, sabemos que os fiéis lhe dão muita importância; e, muitas vezes, tanto eles como os próprios ministros ordenados sofrem: uns a ouvir e outros a pregar. É triste que assim seja. A homilia pode ser, realmente uma experiência intensa e feliz do Espírito, um encontro consolador com a Palavra, uma fonte constante de renovação e crescimento.
            Renovemos a nossa confiança na pregação, que se funda na convicção de que é Deus que deseja alcançar os outros por meio do pregador e de que Ele mostra o seu poder pela palavra humana. São Paulo fala vigorosamente sobre a necessidade de pregar, porque o Senhor quis chegar aos outros por meio também da nossa palavra (cf. Rm 10, 14-17). Com a palavra, Nosso Senhor conquistou o coração das pessoas. De todas as partes, vinham para ouvi-Lo (cf. Mc 1,45). Ficavam maravilhados, ‘bebendo’ os seus ensinamentos (cf. Mc 6,2). Sentiam que lhes falava como quem tem autoridade (cf. Mc 1,27). E os Apóstolos, que Jesus estabelecera ‘para estarem com Ele e para os enviar a pregar’ (Mc 3,14), atraíram para o seio da Igreja todos os povos com a palavra (cf. Mc 16, 15.20).
            Agora é oportuno recordar que ‘a proclamação litúrgica da Palavra de Deus, principalmente no contexto da assembleia eucarística, não é tanto um momento de meditação e de catequese, como, sobretudo, o diálogo de Deus com o seu povo, no qual se proclamam as maravilhas da salvação e se propõem continuamente as exigências da Aliança'. A homilia possui um valor especial derivado do seu contexto eucarístico, que supera toda a catequese por ser o momento mais alto do diálogo entre Deus e o seu povo, antes da comunhão sacramental. A homilia é um retomar este diálogo que já está estabelecido entre o Senhor e o seu povo. Aquele que prega deve conhecer o coração da sua comunidade para identificar onde está vivo e ardente o desejo de deus e também onde é que este diálogo de amor foi sufocado ou não pôde dar fruto.
            A homilia não pode ser um espetáculo de divertimento, não corresponde à lógica dos recursos midiáticos, mas deve dar fervor e significado à celebração. É um gênero peculiar, já que se trata de uma pregação no quadro de uma celebração litúrgica; por conseguinte, deve ser breve e evitar que se pareça com uma conferência ou uma lição. O pregador pode até ser capaz de manter vivo o interesse das pessoas por uma hora, mas assim a sua palavra torna-se mais importante que a celebração da fé. Se a homilia se prolonga demasiado, prejudica duas características da celebração litúrgica: a harmonia entre as suas partes e o seu ritmo. Quando a pregação se realiza no contexto da Liturgia, incorpora-se como parte da oferenda que se entrega ao Pai e como mediação da graça que cristo derrama na celebração. Este mesmo contexto exige que a pregação oriente a assembleia, e também o pregador, para uma comunhão com Cristo na Eucaristia, que transforme a vida. Isso requer que a palavra do pregador não ocupe um lugar excessivo, para que o Senhor brilhe mais que o ministro”[9].

            Alguns lembretes para o momento de fazer a homilia:
1)       Lugar da homilia: na cadeira da presidência (de pé ou sentado), ou na estante da Palavra (cf. IELM, n. 26).
2)     Duração: “Nem muito longa e nem muito curta – e que se leve em consideração todos os presentes, inclusive as crianças e o povo, de modo geral as pessoas simples”, diz a IELM, n. 24.
3)      Preparar bem os equipamentos de som, saber falar bem, ter boa dicção.
4)     Cuidar da postura, movimentos, expressão corporal (na medida certa e na hora certa). Semblante sereno; fazer transparecer a esperança.
5)     Comunicação: passar um bom conteúdo em pouco tempo. Dar uma palavra pessoal, que venha da própria experiência ou da comunidade. Manter a dinâmica dialogal de encontro entre Deus e a comunidade.
6)     Pode ser interessante usar o livro (Bíblia ou Lecionário) durante a homilia, referindo-se sempre às leituras proclamadas.
7)     Ser criativo/a. Usar símbolos: dos textos bíblicos, da liturgia, da vida cotidiana da comunidade.
8)     Assumir e incorporar as surpresas: intervenção da comunidade, fatos acontecidos na véspera, por exemplo.
9)     No final, deixar um momento de silêncio, para que a Palavra seja acolhida interiormente e se prepare uma resposta, por meio da oração (cf. IELM, n. 28).
10)  Outra possibilidade: antes de iniciar a homilia propriamente dita, deixar um momento para que os participantes repitam uma ou outra frase dos textos bíblicos que os marcou durante a proclamação.
11)    De vez em quando, pensar num breve refrão meditativo, relacionado com a homilia; repeti-lo várias vezes no final da homilia”[10].

Questões para reflexão pessoal ou em grupos

1)       O que mais chamou atenção na leitura do texto? Explique.
2)     O que é a Partilha da Palavra – Homilia? Como ela está sendo realizada na comunidade?
3)      Como melhorar a formação dos homiliastas e ministros da Palavra?


Bibliografia

BUYST, Ione. A Palavra de Deus na liturgia. 3.ed. São Paulo: Paulinas, 2002.

BUYST, Ione. Homilia, partilha da Palavra. São Paulo: Paulinas, 2001.

BUYST, Ione. Presidir a celebração do dia do Senhor. São Paulo: Paulinas, 2004.

CNBB. Animação da Vida Litúrgica no Brasil – elementos de Pastoral Litúrgica. 16.ed. São Paulo: Paulinas, 2001.

CNBB. Liturgia em Mutirão – subsídios para a formação. Brasília: Edições CNBB, 2007.

CNBB. Orientações para a Celebração da Palavra de Deus. 9.ed. São Paulo: Paulinas, 1999.

FRANCISCO. Evangelii Gaudium – A Alegria do Evangelho: sobre o anúncio do Evangelho no mundo atual. 5.ed. São Paulo: Paulus, Edições Loyola, 2015.

MALDONADO, Luis. A Homilia – pregação, liturgia, comunidade. 2.ed. São Paulo: Paulus, 2002.








* Mestre em Teologia Sistemática pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. Curriculum Lattes: http://lattes.cnpq.br/9125123556567955. Correio eletrônico: sbardelottiemerson@gmail.com. Autor de Espiritualidade da Libertação Juvenil. São Leopoldo: CEBI, 2015.

[1] CNBB. Liturgia em Mutirão – subsídios para a formação. Brasília: Edições CNBB, 2007, p. 113-114.

[2] BUYST, Ione. A Palavra de Deus na liturgia. 3.ed. São Paulo: Paulinas, 2002, p. 37-38.

[3] CNBB. Liturgia em Mutirão – subsídios para a formação. Brasília: Edições CNBB, 2007, p. 115-116.

[4] BUYST, Ione. Homilia, partilha da Palavra. São Paulo: Paulinas, 2001, p. 5-11.

[5] MALDONADO, Luis. A Homilia – pregação, liturgia, comunidade. 2.ed. São Paulo: Paulus, 2002, p. 6.

[6] BUYST, Ione. Presidir a celebração do dia do Senhor. São Paulo: Paulinas, 2004, p. 42-45.

[7] CNBB. Animação da Vida Litúrgica no Brasil – elementos de Pastoral Litúrgica. 16.ed. São Paulo: Paulinas, 2001, p. 96-97.

[8] CNBB. Orientações para a Celebração da Palavra de Deus. 9.ed. São Paulo: Paulinas, 1999, p. 34-35.

[9] FRANCISCO. Evangelii Gaudium – A Alegria do Evangelho: sobre o anúncio do Evangelho no mundo atual. 5.ed. São Paulo: Paulus, Edições Loyola, 2015, p. 84-86.

[10] BUYST, Ione. Homilia, partilha da Palavra. São Paulo: Paulinas, 2001, p. 44-47.


Arte-Vida de Luís Henrique (MG).

quarta-feira, 14 de setembro de 2016

Evangelho do Dia (14/09/2016)



Evangelho do Dia (14/09/2016) - Exaltação da Santa Cruz - Jo 3,13-17*:

"E, no entanto, ninguém subiu ao céu senão aquele que desceu do céu, o Filho do Homem. E assim como Moisés levantou a serpente no deserto, é preciso que o Filho do Homem seja levantado, a fim de que todo aquele que crê não pereça, mas tenha a vida eterna. Pois Deus enviou o seu Filho ao mundo não para julgar o mundo, mas para que o mundo seja salvo por ele".

No Evangelho de hoje, Jesus de Nazaré nos diz que para sermos salvos é preciso passar pela cruz! Não há outro caminho, não há jeitinho brasileiro. O que era um símbolo de loucura e maldição, se tornou sinal de redenção. Infelizmente, nos dias atuais, a cruz se tornou um objeto de lucro e prosperidade para muitas pessoas, distorcendo assim o seu real objetivo: levar os seres humanos a crerem que Jesus de Nazaré é o Filho único do Deus vivo e por causa de seu testemunho somos convidados a defender a vida até as últimas consequências, seguindo assim, o seu exemplo. É muito fácil para as pessoas colocarem no peito uma cruz, difícil é praticar o que Jesus de Nazaré fez: encher o coração de compaixão e misericórdia por um outro ser humano que está machucado, humilhado, esquecido, espoliado, com fome, com sede, com frio! Me intriga muito o fato de entrar em muitas igrejas católicas e não encontrar no altar o Crucificado, e sim, apenas o Glorificado ou o ícone ou imagem de algum padroeiro; penso que Jesus de Nazaré precisou experimentar o inferno do sofrimento humano, cumprindo assim o desejo do Pai de armar sua tenda em nosso meio, ser semelhante a nós em tudo, menos no pecado, humanamente divino, divinamente humano. Lembro da igreja matriz onde fiz minha primeira comunhão, que em uma das reformas, retiraram o Crucificado, colocaram o Glorificado, porém, no corredor central, foi colocada uma enorme cruz, que ia da porta até próximo ao altar. Teologicamente correto. Quem entrava pela porta central, ao se benzer e caminhar em direção ao altar passava por debaixo dela, ao olhar para cima, lembrava-se todo domingo que sem a cruz na caminhada não há salvação. Essa imagem ficou para sempre na minha memória. Em nossas comunidades, equipes de serviço, como está sendo experimentada a espiritualidade libertadora da cruz de Jesus de Nazaré? E me lembro de uma pergunta de Leonardo Boff, que também é título de um de seus livros: "Como pregar a cruz hoje numa sociedade de crucificados?". Pergunta útil e necessária!


Emerson Sbardelotti

* A BÍBLIA TRADUÇÃO ECUMÊNICA. São Paulo: Paulinas / Loyola, 1995.

** Arte de Claudio Pastro (SP) - Santuário Nossa Senhora Aparecida.

terça-feira, 13 de setembro de 2016

Evangelho do Dia (13/09/2016)



Evangelho do Dia (13/09/2016) - João Crisóstomo, bispo e pai da Igreja, Constantinopla, século 4 - Lc 7,1-10*:

"Ele foi em seguida a uma cidade chamada Naim. Seus discípulos e numerosa multidão caminhavam com ele. Ao se aproximar da porta da cidade, coincidiu que levavam a enterrar um morto, filho único de mãe viúva; e grande multidão da cidade estava com ela. O Senhor, ao vê-la, ficou comovido e disse-lhe 'Não chores!'. Depois, aproximando-se, tocou o esquife, e os que o carregavam pararam. Disse ele, então: 'Jovem, eu te ordeno, levanta-te!'. E o morto sentou-se e começou a falar. E Jesus o entregou à sua mãe. Todos ficaram com muito medo e glorificavam a Deus, dizendo: 'Um grande profeta surgiu entre nós e Deus visitou o seu povo'. E essa notícia difundiu-se pela Judeia e por toda a redondeza".

No Evangelho de hoje Jesus de Nazaré tem misericórdia e se compadece de uma mãe, viúva, que perde seu único filho. Por ser mulher não tinha direitos na sociedade judaica daquele tempo, sendo viúva, as privações eram ainda maiores, e sem o único filho, a situação desta mulher era insuportável. Jesus de Nazaré vê na multidão que acompanha o cortejo fúnebre, que mãe e filho eram amados e intervêm. Ele sabe o que aquela mulher irá sofrer. Ele devolve a vida àquele jovem. Ele entrega o filho à sua mãe...No momento da cruz, Jesus de Nazaré fará o inverso: entregará sua própria mãe para o discípulo amado, para que não fique sozinha e desamparada. Será que em nossas comunidades as mães que perdem seus filhos e filhas são cuidadas da mesma forma que a mãe do Evangelho? Quantos filhos e filhas estamos devolvendo às suas mães em nossas comunidades? Ou será que nós estamos reproduzindo a exclusão, a discriminação, o desinteresse pelo ser humano. Somos capazes de ter misericórdia, de ter compaixão com a realidade que está em nossa frente, batendo em nossas portas? Somos capazes de nos comover perante a dor do outro? Se não somos capazes de nutrir compaixão e misericórdia por um irmão, por uma mãe que sofre, de nada vale o nosso batismo, os nossos sacramentos adquiridos, nosso título de cristãos e cristãs. Somos hipócritas. Hipocrisia é também uma forma de violência. 
A Igreja festeja hoje João Crisóstomo, que nasceu em Antioquia. Foi educado pela mãe após a morte precoce do pai, recebeu o batismo por volta dos 18 anos. Se dedicou à ascese e ao estudo bíblico. A maioria de suas homilias era comentários a respeito do Primeiro e do Segundo Testamento. Ele explicou o Gênesis, comentou Isaías e os Salmos. O que fazia com mais agrado era pregar o Evangelho. Teceu longos comentários sobre o de Mateus e o de João. Paulo era o seu autor preferido; sentia afinidade com o Apóstolo dos gentios. De João Crisóstomo resta-nos uma série de catequeses batismais, que preparavam os catecúmenos para o batismo. As últimas foram reencontradas em 1955, no monte Atos. Inúmeras vezes João Crisóstomo tomou a defesa dos pobres e dos infelizes, dos que morriam de fome e sede; ergueu com veemência sua voz contra os flagelos sociais, o luxo e a cobiça. Lembrou a dignidade do ser humano, mesmo pobre, e os limites da propriedade. Dizia: "Libertai o Cristo da fome, da necessidade, das prisões, da nudez!".

Emerson Sbardelotti 
(em 13 de setembro de 1972, a 44 anos atrás, começava a minha história neste mundo...que Deus continue me abençoando a servir e defender a vida do povo)

* A BÍBLIA DE JERUSALÉM. São Paulo: Edições Paulinas, 1985.

** Arte: Cerezo Barredo

terça-feira, 6 de setembro de 2016

MIQUEIAS - livro do mês da Bíblia


MIQUEIAS* - livro do mês da Bíblia - setembro de 2016

O livro: Os sete capítulos do livro alternam, num ritmo ternário, perspectivas de julgamento (1,1 - 2,11; 3,1-12; 6,1 - 7,6, em que se misturam censuras, ameaças, sentenças de condenação, lamentos...) e oráculos de salvação (2,12-13; 4 - 5) ou liturgia de esperança (7,7-20). Tal organização confere ao conjunto uma coloração nitidamente escatológica. A autenticidade de certo número de peças ainda é objeto de discussão. Mas ao menos se atribui a Miqueias de Moréshet o essencial dos três primeiros capítulos, que embasam o núcleo de um trabalho redacional de amplitude e importância variáveis, segundo os críticos.

O homem e seu tempo: Originário da baixada, a sudoeste de Jerusalém, o profeta teria exercido seu ministério sob os reinados de Iotam, Acaz e Ezequias (1,1), entre 740 e 687 a.C. Contemporâneo do profeta Isaías, deve ter vivido, como ele acontecimentos dolorosos, decisivos para o futuro de Israel: primeiro, a queda de Samaria e a ruína definitiva do reino do Norte em 722. Miqueias anuncia esses fatos no marco de uma grandiosa teofania de julgamento (1,3-7). Depois, a invasão do reino do Sul pelo rei assírio Senaquerib, em 701. Essa campanha deve ter deixado a terra em tal estado de desolação que o profeta não pôde deixar de chorar sobre sua pátria arruinada e de entoar o emocionante lamento de Mq 1,8-16. Desse modo, mostra até que ponto, ele, o mensageiro do julgamento, se solidariza com seu povo, diante de cuja sorte não pode ficar insensível. Mas, apesar disso, o livro permite entrever que ele viveu numa solidão amarga, visto que devia se insurgir tanto diante das classes ricas (2,1-5) e dos responsáveis: príncipes, sacerdotes, profetas (3), como diante de todo o povo (1). Mas é com coragem que ele os enfrenta, na consciência de estar sendo guiado pelo Espírito do Senhor (3,8).

A mensagem: Miqueias deixará na história a marca de um profeta de desgraças (Jr 26,18). Mas, na verdade, a ruína de Samaria (1,6-8) e a de Jerusalém (3,12) representam para ele apenas etapas de um único projeto divino: o  mesmo "golpe de IHWH" (1,9), como uma onda, se estende de Samaria a Jerusalém. Que não se veja, porém, nessa catástrofe a mão de uma cólera cega, mas o julgamento de um Deus que já não suporta a traição. Antes de condenar, Miqueias acusa. Múltiplas são as censuras: a idolatria de Israel do Norte (1,6), mas sobretudo a escandalosa injustiça social em Judá. O profeta se dirige particularmente aos ricos e aos chefes: a venalidade das figuras de destaque toma dimensões assustadoras. Nem mesmo os profetas são poupados. Em trocas de jarras de vinho (3,5-11), "eles constroem Sião no sangue e Jerusalém no crime". O mal se encontra de tal forma enraizado nos corações que Samaria e Jerusalém tornam-se a personificação viva do pecado e do crime (1,5). E tudo isso, numa boa fé fundada numa concepção equívoca da aliança: "o Senhor não está no meio de nós? Não, a desgraça não cairá sobre nós". Falsa segurança, denuncia Miqueias, que passa a proclamar a ruína total da cidade santa (3,13). Será a última palavra de Deus? Não, se se vir no anúncio do juízo o último apelo à conversão. Para além da catástrofe, o livro abre largos horizontes de esperança e paz. Ele tenta conciliar as duas grandes linhas da escatologia veterotestamentária, a do Deus que vem estabelecer seu reinado e a do Messias há séculos aguardado. Quando, no momento de maior provocação, a situação parece desesperadora para um Israel deslocado, para os membros esparsos em meio às nações, o próprio IHWH empreende a reunião das ovelhas dispersas: ele toma a frente do rebanho, para conduzi-lo ao aprisco de Sião, onde estabelecerá seu reinado. E ele transformará "esse resto manco e doente em uma nação poderosa" (2,12-13; 4,6-8). E ela encontrará sua unidade na pessoa do Messias, da linhagem de David e nascido em Belém, como seu ilustre antepassado (5,1-2). Exercendo seu poder em nome de IHWH seu Deus, o novo David se tornará fonte de paz para o mundo (5,4). E é pela mediação da comunidade escatológica assim estruturada, "o resto de Jacó" renovado, que a vingança de Deus virá sobre as nações endurecidas em sua recusa à conversão (5,6), ou, ao contrário, que a bênção divina se expandirá como orvalho fecundante sobre os povos em busca de Deus (5,7). Jerusalém será erigida em pólo de atração universal: uma visão grandiosa de alto teor espiritual, o profeta vê acorrer a ela, em imensa peregrinação, todas as nações do mundo, para encontrar Deus e acolher ali sua Palavra. Todas as falsas seguranças humanas, todos os cultos mentirosos, todas as práticas idólatras serão varridas. A humanidade nova se entregará inteiramente a Deus, esperando a salvação apenas da iniciativa divina (5,9-14), e o Senhor "lançará ao fundo do mar todos os pecados" (7,19).

* Introdução da A BÍBLIA TRADUÇÃO ECUMÊNICA. São Paulo: Paulinas / Loyola, 1995.

** Arte: Luís Henrique Alves Pinto (MG)

sexta-feira, 2 de setembro de 2016

Evangelho do Dia (02/09/2016)



Evangelho do Dia (02/09/2016) - Lc 5, 33-39*:

"Disseram-lhe então: 'Os discípulos de João jejuam frequentemente e recitam orações, os dos fariseus também, ao passo que s teus comem e bebem!'. Jesus respondeu-lhes: 'Acaso podeis fazer que os amigos do noivo jejuem enquanto o noivo está com eles? Dias virão, porém, em que o noivo lhes será tirado; e naqueles dias jejuarão'. Dizia-lhes ainda uma parábola: 'Ninguém rasga um retalho de uma roupa nova para colocá-lo numa roupa velha; do contrário, rasgará a nova e o remendo tirado da nova ficará desajustado na roupa velha. Ninguém põe vinho novo em odres velhos; caso contrário, o vinho novo estourará os odres, derramar-se-á, e os odres ficarão inutilizados. Coloque-se, antes, vinho novo em odres novos. Não há quem, após ter bebido vinho velho, queira do novo. Pois diz: O velho é que é bom!'".

No Evangelho de hoje, Jesus de Nazaré é questionado sobre a prática do jejum e responde com a parábola do retalho de roupa nova, do vinho novo e do odre novo. O problema não é o jejum, mas as falsas seguranças que se sustentam nele. Para a comunidade que está sendo formada em torno de Jesus de Nazaré, a partilha do pão, a compaixão e a misericórdia, são marcas da novidade trazida por ele aos seres humanos, de ontem e de hoje, porém, nos esquecemos disso. A partir da partilha, da compaixão, da misericórdia, a lei será compreendida de forma a promover a justiça. Uma lei que não promove a justiça não faz parte do projeto de vida de Deus, e regulamenta um projeto de morte. A novidade trazida por Jesus de Nazaré exige bases novas, e os seres humanos têm de se dispor a acolhê-la. Isso explica porque o vinho novo que Jesus de Nazaré oferece não é do gosto daqueles que beberam o velho vinho da Lei. As pessoas não querem mudar por uma questão de comodidade e conveniência...mudar pode trazer problemas...é preferível não arriscar. Não é preciso ser costureiro/a para saber que um retalho de roupa nova não ficará bem numa roupa velha ou vice-versa, tende a se romper o remendo. Ninguém em sã consciência rasga uma roupa nova para remendar uma roupa velha. Odre, do latim - utre, é como se chama um antigo recipiente feito de pele de animal, geralmente de cabra, usado para o transporte de líquidos como água, azeite, leite, manteiga, queijo e vinho. Qual o tipo de retalho estamos sendo, o tipo de vinho e o tipo de odre em nossas relações na sociedade e na Igreja? Queremos a novidade ou estamos presos à coisas velhas que nos impedem de avançar para águas mais profundas?

Emerson Sbardelotti

* A BÍBLIA DE JERUSALÉM. São Paulo: Edições Paulinas, 1985.

** Foto de um odre de vinho retirada da Internet.

quinta-feira, 1 de setembro de 2016

Evangelho do Dia (01/09/2016)



Evangelho do Dia - (01/09/2016) - Dia Mundial de Oração pelo Cuidado da Criação - Lc 5,1-11*:

"Certa vez em que a multidão se comprimia ao redor dele para ouvir a palavra de Deus, à margem do lago de Genesaré, viu dois pequenos barcos parados à margem do lago; os pescadores haviam desembarcado e lavavam as redes. Subindo num dos barcos, o de Simão, pediu-lhe que se afastasse um pouco da terra; depois, sentando-se ensinava do barco às multidões. Quando acabou de falar, disse a Simão: 'Faze-te ao largo; lançai vossas redes para a pesca'. Simão respondeu: 'Mestre, trabalhamos a noite inteira sem nada apanhar; mas, porque mandas, lançarei as redes'. Fizeram isso e apanharam tamanha quantidade de peixes que suas redes se rompiam. Fizeram então sinais aos sócios do outro barco para virem em seu auxílio. Eles vieram e encheram os dois barcos, a ponto de quase afundarem. À vista disso, Simão Pedro atirou-se aos pés de Jesus, dizendo: 'Afasta-te de mim, Senhor, porque sou um pecador!' O espanto, com efeito, se apoderara dele e de todos os que estavam em sua companhia, por causa da pesca que haviam acabado de fazer; e também de Tiago e João, filhos de Zebedeu, que eram companheiros de Simão. Jesus, porém, disse a Simão: 'Não tenhas medo! Doravante serás pescador de homens'. Então, reconduzindo os barcos à terra e deixando tudo, eles o seguiram".

No Evangelho de hoje há uma narrativa dos lugares onde Jesus de Nazaré fazia sua pregação e a história de uma pesca milagrosa, o chamado de Simão e a vocação dos primeiros discípulos após um período de ensinamentos e milagres. Nota-se que Lucas quis tornar mais real sua resposta imediata ao chamado. Pela tradição, Jesus de Nazaré apelida Simão, de Pedro. André, irmão de Simão, não é nomeado no Evangelho, provavelmente estivesse no barco, junto com Thiago e João. Este episódio apresenta para os discípulos, a missão que os esperava. Posso dizer que também para nós hoje, depois dos últimos acontecimentos (do dia 31/08/2016: um golpe parlamentar que trará inúmeros problemas para as gerações futuras), temos uma enorme e difícil missão pela frente: reconstruir a barca, que está afundando. Nossa esperança é Jesus de Nazaré é o mesmo que se apresenta como Boa Nova aos Pobres e ungido pelo Espírito, agora, manda, lançar as redes, em águas mais profundas, para pegar os melhores peixes, em quantidade que os barcos quase afundem. Os discípulos, e nós, somos chamados para irmos ao encontro da humanidade perdida...perdida na teologia da prosperidade, perdida no individualismo, perdida em preconceitos e racismo, perdida em violência e extermínio das juventudes. A novidade do programa de ação de Jesus de Nazaré é anunciar a Boa Notícia aos pobres, a libertação aos presos, a recuperação da vista aos cegos, dar liberdade aos oprimidos. Apesar de termos trabalhado a noite inteira e não apanharmos nada, mesmo assim, enquanto batizados, enquanto discípulos missionários, precisamos jogar sempre nossas redes em águas mais profundas. Como devemos nos comportar daqui para frente? Como manter viva a chama da luta? Pois, luto, para mim é apenas um verbo! Hoje comemoramos o Dia Mundial de Oração pelo Cuidado da Criação...Criação que está sendo destruída por interesses mesquinhos das elites que sempre em toda a História da Humanidade só fizeram duas coisas: encher seus bolsos com os lucros da escravidão e da exploração e exterminar seus inimigos (lideranças que lutavam/lutam um sistema opressor). A Terra grita não só por dores de parto, mas por que está sendo assassinada. Uma desobediência não violenta se faz necessária, para que tenhamos uma oportunidade melhor de vida. Precisamos cuidar da humanidade, mostrando para ela que a democracia é ainda o melhor regime para se viver. Sem medo de ser feliz, pois o perigo é ter medo do medo! E cantar aquela antiga canção do Padre Zezinho, scj:
Há um barco esquecido na praia
Já não leva ninguém a pescar
É o barco de André e de Pedro
Que partiram pra não mais voltar
Quantas vezes partiram seguros
Enfrentando os perigos do mar
Era chuva, era noite, era escuro
Mas os dois precisavam pescar
De repente aparece Jesus
Pouco a pouco se acende uma luz
É preciso pescar diferente
Que o povo já sente que o tempo chegou
E partiram sem mesmo pensar
Nos perigos de profetizar
Há um barco esquecido na praia
Um barco esquecido na praia
Um barco esquecido na praia

Há um barco esquecido na praia
Já não leva ninguém a pescar
É o barco de João e Tiago
Que partiram pra não mais voltar
Quantas vezes em tempos sombrios
Enfrentando os perigos do mar
Barco e rede voltavam vazios
Mas os dois precisavam pescar

De repente aparece Jesus
Pouco a pouco se acende uma luz
É preciso pescar diferente
Que o povo já sente que o tempo chegou
E partiram sem mesmo pensar
Nos perigos de profetizar
Há um barco esquecido na praia
Um barco esquecido na praia
Um barco esquecido na praia
Quantos barcos deixados na praia
Entre eles o meu deve estar
Era o barco dos sonhos que eu tinha
Mas eu nunca deixei de sonhar
Quanta vez enfrentei o perigo
No meu barco de sonho a singrar
Jesus Cristo remava comigo
Eu no leme, Jesus a remar

De repente me envolve uma luz
E eu entrego o meu leme a Jesus
É preciso pescar diferente
Que o povo já sente que o tempo chegou
E partimos pra onde ele quis
Tenho cruzes mas vivo feliz
Há um barco esquecido na praia
Um barco esquecido na praia
Um barco esquecido na praia

Emerson  Sbardelotti

* A BÍBLIA DE JERUSALÉM. São Paulo: Edições Paulinas, 1985.

**Arte de Cerezo Barredo.