quinta-feira, 15 de maio de 2014

ASSESSORIA PAROQUIAL: UMA ATIVIDADE NECESSÁRIA E ESQUECIDA!

ASSESSORIA PAROQUIAL: UMA ATIVIDADE NECESSÁRIA E ESQUECIDA!



Emerson Sbardelotti Tavares[1]

É preciso que Ele cresça, e eu diminua (Jo 3,30).
Assim falou João Batista ao se referir a Jesus de Nazaré. Este trecho do texto bíblico é de suma importância para quem deseja servir como assessor paroquial, acompanhando grupos de jovens (Pastorais da Juventude, Crisma, Catecumenato).
Qual é o papel do assessor paroquial? Qualquer um pode ser assessor paroquial? É preciso ter vocação para ser assessor paroquial? Quem escolhe o assessor paroquial? Tem que fazer curso? Quais são as opções que o assessor paroquial deve fazer? 
Estas perguntas são constantes e não querem calar!
Assessoria é um ministério, é uma vocação. Não é uma etapa a ser cumprida no processo de educação da fé, ou um prêmio que você recebe por serviços prestados a Igreja ou por ser amigo do sacerdote. A assessoria não acontece por acaso, ela faz parte do discernimento que nasce no momento da militância, no momento em que se caminha no meio e com a juventude.
O papel de um assessor se dá no acompanhamento ao grupo de base, no desenvolvimento de uma temática, na valorização e exaltação do protagonismo juvenil, nas dicas e sugestões para possíveis projetos de vida, na silenciosa humildade de descobrir e despertar novas lideranças e o principal: escutar mais e falar menos.
Para ser assessor é preciso ter vocação; portanto, nem toda pessoa consegue reunir condições para tal serviço. Há um caminho a ser percorrido. Exige tempo, escuta de si mesmo, testemunho na e da comunidade, perseverança e humildade, compromisso com o Povo no meio em que está inserido.
O assessor não está aí para mandar; está para escutar e levar uma palavra de aconchego e acalanto nas horas de crise e nos momentos de dor; levar o abraço, o sorriso e a festa nos momentos de alegria e nas horas de conquistas. Deve, junto com o grupo, agradecer pelos erros e bendizer pelos acertos.
O assessor não é o coordenador, não pode nem deve ser. Ele está a serviço das coordenações que possuem a última palavra. São serviços diferentes. São níveis de doação diferentes.
Na maioria das vezes, num processo democrático, o assessor é indicado, seja pelo grupo, pelas coordenações paroquiais, de área, forania, zonal, vicariatos, diocesanas, regionais e nacional, conforme a necessidade de cada um. É um processo seletivo. E devem ser observados inúmeros detalhes, os mais comuns são: tempo de caminhada nas Pastorais da Juventude (PJ, PJE, PJMP, PJR), na comunidade, na paróquia, disponibilidade, compromisso com os Pobres, idade, etc. É feita uma lista, onde os nomes indicados são consultados; após uma resposta positiva dos mesmos se começa a preparação. Muitos falam de curso, eu prefiro a palavra capacitação. Esta capacitação pode durar no mínimo dois anos e no máximo três anos, não é uma regra a ser seguida, mas, essencial, onde serão trabalhadas questões de teologia, filosofia, sociologia, história, ética, pastoral, ecumenismo, pluralismo religioso, dinâmicas de grupo, etc. Nem todos os indicados irão exercer o ministério da assessoria junto às coordenações paroquiais de área, forania, zonal, vicariato, diocesanas, regionais e até nacional; porém, neste texto, damos prioridade aqueles que poderão exercê-lo na base: grupo e paróquia. A preparação e a capacitação são necessárias, precisamente estando dentro das cinco dimensões da pessoa humana.
 O assessor tem que fazer opções sim! E bem claras! Principalmente aquele que irá trabalhar com os grupos de base. E a opção primeira de um assessor paroquial é o seguimento radical de Jesus de Nazaré. É o ponto fundante de sua mística: seguir Jesus de Nazaré!
Já dizia Monseñor Romero: “...El seguimiento radical de Jesús significa seguir lo en los pobres. “Todo lo que hacen a uno de estos mis hermanos pequeños a mí me lo hacen” (Mt 25). En el rostro sufriente de los pobres encontramos hoy el rostro de Cristo. La verdadera espiritualidad cristiana tiene su piedra de toque en la opción preferencial por los pobres...”[2].
Insisto em dizer que no seguimento a Jesus de Nazaré precisamos ter na mente e no coração as últimas palavras de João Batista no Evangelho de João: “Ele deve crescer, eu diminuir” (3,30).Esta frase deve nortear a caminhada do assessor no serviço de acompanhamento aos grupos de base ou na explanação de temáticas. É para toda a Vida! Ao viver esta frase, o assessor nunca irá se deixar levar pela tentação de ser “o maioral”, “o chefe”, “o sabe-tudo”, “aquele que tem a última palavra”.
O assessor paroquial tem que ser um verdadeiro profeta. Tem que ter o cheiro das ovelhas que acompanha. E todo profeta antes de falar, ele escuta; esta é a grande virtude de um profeta. Esta é a maior virtude de um assessor.
Os falsos profetas não escutam a voz de Deus, muito menos a voz do Povo, a voz dos Jovens, a voz dos Pobres.
O falso assessor não escuta ninguém, carrega o grupo nas costas, não assume a defesa da Vida.
O verdadeiro profeta anuncia, denuncia e ameaça, carregando dentro de si as palavras do Evangelho, as ações pedagógicas e libertadoras do Moreno de Nazaré.
A mística e a espiritualidade de um assessor paroquial não se dá apenas no trabalho pastoral, mas preferencialmente na oração cotidiana.
Oração é oração.
Oração não é mística.
Oração não é espiritualidade.
Oração é oração.
O assessor paroquial tem que ser uma pessoa de oração, de fé e vida, de íntima ligação com as causas do Reino.
Os verdadeiros libertadores ensinam a libertar caminhando junto, fazendo junto as ações e as orações.
Como deveria ser a oração diária de um assessor paroquial?
Não há uma fórmula mágica. Cada um irá descobrir o seu ponto de equilíbrio, o seu experimentar Deus no dia a dia da comunidade e no meio da juventude.
Sem oração, o assessor paroquial não é nada.
No seguimento radical a Jesus de Nazaré, é preciso saber orar e orar sempre. Cada um no seu tempo, do seu jeito, irá fazendo esta ligação com o Pai. O caminho é árduo. Exige concentração, dedicação, despojamento e humildade: - “ Fala, pois teu servo escuta” (1Sm 3,11).
A oração nos torna íntimos de Deus e da comunidade.
Um assessor que faz sua oração cotidiana tem coragem de dar a vida pelas causas do Reino nas causas do Povo .
Há três grandes virtudes que devem estar presentes em um assessor paroquial, sem que pra isso ele tenha que falar ou mostrar:

1a. DIAKONIA – o serviço humilde, discreto e silencioso, que faz por si o questionamento em relação à sociedade que oprime e exclui.
2a. KOINONIA – a comunhão com a juventude, com os pobres, sendo o menor entre eles.
3a. MARTÍRIA – doar a vida pela opção evangélica pelos pobres e pelos jovens, defendendo-a e anunciando-a sem medo, pois se há perseguição é por que se está no verdadeiro caminho.

São atitudes que são adquiridas com o caminhar junto à juventude, junto as comunidades. Se planto oração, colherei oração e ação: fé e vida.
Escutar é o verbo que mais se usa neste itinerário .
Escutar, escutar, escutar...
Você, assessor paroquial, já fez sua oração de hoje?
Sim ou sim?
Pessoalmente, costumo rezar o Ofício Divino das Comunidades, o Ofício Divino da Juventude e o Ofício Divino dos Mártires da Caminhada, mas o método da Leitura Orante da Bíblia é indispensável neste itinerário místico e pastoral.
Frei Carlos Mesters me disse uma vez que “ao iniciar a Leitura Orante da Bíblia, você não vai estudar; não vai ler a Bíblia para aumentar conhecimentos nem preparar algum trabalho apostólico; não vai ler para ter experiências extraordinárias. Vai ler a Palavra de Deus para escutar o que Deus lhe tem a dizer, para conhecer a Sua Vontade e viver melhor o Evangelho de Jesus Cristo”.
Mas qual deveria ser o texto bíblico a ser lido (1o. passo), meditado (2o. passo), orado (3o. passo) e contemplado (4o. passo)?
Tenho alguns textos que venho meditando, ruminando, percebendo a profundidade de cada um e tentando vivê-los no dia à dia. A tarefa é árdua; estes textos, um para cada dia da semana, não terá problema nenhum em mudar a ordem:

• Jo 3, 22 – 30 (domingo)
• Sl 25 (segunda)
• Is 50, 4 – 8 (terça)
• Jo 8, 1 – 11 (quarta)
• Lc 24, 13 – 35 (quinta)
• Jo 21, 1 – 17 (sexta)
• Mt 21, 23 – 32 (sábado)

Quatro perguntas que devem estar na mente e no coração sempre que usar o método da Leitura Orante da Bíblia:

A - O que diz o texto? (leitura)

B – O que o texto me diz? (meditação)

C – O que o texto me faz dizer a Deus? (oração)

D – O que Deus me diz para fazer? (contemplação).

O assessor paroquial sem oração não serve para ser assessor. Se não reza um pouco por dia, não serve para a assessoria. Se faz necessário rezar pelo menos meia hora por dia. Em qualquer lugar, aproveitando qualquer oportunidade.
Estando alimentado e fortalecido do Espírito de Deus, o assessor paroquial sai ao encontro dos grupos de jovens. Se fazendo companheiro de caminhada. Na maioria das vezes se colocando sempre por último, ajudando às escondidas, caminhando nas sombras, mas se fazendo sentir sua presença no profético silêncio.
Quando sai do grupo de assessores em 2007 na Arquidiocese de Vitória do Espírito Santo, o fiz, por uma imensa necessidade de estar conectado ao que dava sentido a minha caminhada: estar junto com as juventudes da paróquia de origem.
Eu já havia caminhado tanto, participado de quase toda a estrutura, seguido todo o processo de educação na fé, já estava inclusive militando num partido político, e todo aquele caminhar tinha me dado muita sede.
Era hora e momento de voltar para a fonte e saciar minha sede.
O serviço na assessoria arquidiocesana também foi muito importante em minha formação humana, mas eu sentia e falava isso com os outros assessores: “Nós precisamos voltar para nossas paróquias de origem para bebermos da fonte que de lá emana. Ouvir e caminhar com a juventude que lá está. Não dá para estar somente na estrutura enquanto as bases estão abandonadas, sem acompanhamento, sem troca de experiências. Eu preciso voltar e escutá-los, aprender tudo de novo com a juventude que está na paróquia”!
A maioria me chamou de doido. E uns dois me deram razão. Esses dois que estiveram ao meu lado e compreenderam profundamente que aquele era o melhor caminho a se tomar; realizam trabalhos maravilhosos em suas paróquias. São queridos pela juventude e respeitados pelos sacerdotes que lá passam e se tornaram referência nas atividades com as juventudes.
Esta reflexão que você agora está lendo, nasceu de conversas com jovens que estiveram no I Encontro Nacional de Juventudes e Espiritualidade Libertadora. Jovens que ainda militam na PJ, mas que já não são mais coordenadores e que conscientemente se colocam a serviço da juventude na assessoria; e que por conta de inúmeros compromissos, aceitaram a difícil tarefa de ser assessores paroquiais. Eles sabem que o cenário de Igreja, mesmo com os sinais de abertura do Papa Francisco, não está nada bom para o lado das pastorais sociais e das comunidades eclesiais de base. Há muita difamação e desrespeito com o trabalho realizado por elas. Em um daqueles intervalos eu ouvia a conversa de dois jovens que estavam pensando em propor um Encontro Nacional de Assessores Paroquiais. Achei bacana a ideia; porém, eu disse a eles: “Olha, já existe o Encontro Nacional de Assessores”! 
Eles me retrucaram dizendo: "Sabemos disso, mas nós assessores paroquiais não somos convidados para este encontro. Os  assessores que são convidados para estes encontros são apenas os diocesanos, os regionais e os nacionais. E nós que de fato estamos nas bases, porque não somos convidados? Porque estamos sendo excluídos”? Eu não soube o que responder para aqueles rapazes.
Confesso que esta pergunta me deixa inquieto e me faz pensar: qual será o motivo de esquecerem dos assessores paroquiais? Será que a experiência, todo o trabalho desenvolvido antes nas estruturas e agora na paróquia de origem não seria por si só, motivo para estarem também partilhando as conquistas e derrotas numa encontro nacional, com pessoas vindas de todo o país?
Acredito que seja possível sim. No 13º. Intereclesial das CEBS, em Juazeiro do Norte-CE, em janeiro de 2014, foi reunido num ginásio de esportes mais de 5 mil pessoas. O I Encontro Nacional de Juventudes e Espiritualidade Libertadora reuniu em Fortaleza-CE 400 pessoas. O Congresso Continental de Teologia, que aconteceu em outubro de 2012 na UNISINOS – RS, reuniu mais de 700 pessoas vindas do Brasil e do Continente Americano.
Tudo isso acontecendo a partir de um planejamento sério. De parcerias fechadas. De temas escolhidos a partir de uma necessidade comum.
É uma maldade dizer que não há condições para se fazer um encontro desses por falta de espaços e hospedagem.
Há espaços e nosso povo das comunidades gostam de receber as pessoas!
Será preciso querer realizar este Encontro Nacional de Assessores Paroquiais, como espaço de debate, de crescimento mútuo, de troca de experiência de assessores que estão nas bases, que acompanham os grupos de jovens nas paróquias.
Pelo que entendi da proposta dos dois jovens, esta proposta não é minha, estou apenas abrindo a discussão, abrindo o debate, não está se fazendo oposição ao que já existe e se estabeleceu, mas se quer abrir uma nova frente de debate, para que suas vozes sejam ouvidas. Eles me disseram que irão propor isso em suas dioceses de origem. Sei de algumas dioceses que já realizam este trabalho de uma vez por ano, ou de dois em dois anos, um encontro de assessores paroquiais, numa semana de trabalho ou aproveitando um feriado prolongado. Acredito ser muito válida esta proposta. O que vem para somar na caminhada pastoral não deve ser vista ou entendida como competição, mas como causa justa.
Eu acredito que muitos assessores paroquiais irão fazer coro se esta ideia for disseminada e aparecerão inúmeros locais para realizar e famílias para acolherem estes assessores paroquiais.
Eu acredito que a Comissão Episcopal para a Juventude da CNBB não se colocaria contrária e apoiaria, como acredito que este apoio virá em primeira mão das Coordenações das Pastorais da Juventude do Brasil e também dos Movimentos de Juventude espalhados pelas paróquias, desde que fosse organizado com bastante antecedência, por uma equipe de assessores paroquiais, um de cada diocese, pelo menos para pensar como se daria tudo isso. É válida a proposta e possível de ser realizada, é só querer realizar.
Como diria Raulzito: “Sonho que se sonha só, é só um sonho que se sonha só. Mas sonho que se sonha junto é realidade (Prelúdio – Gita, Philips, 1974).
É preciso acreditar sempre no nosso potencial, nos nossos sonhos. E fazer as coisas acontecerem. Juntos somos mais.
E será bonito demais o nosso encontro de irmãos.
Vamos espalhar esta ideia?
Será um momento histórico na caminhada, momento de muita oração e de vida.
D. Pedro Casaldáliga, um dia em sua casa, me disse que “o caminho se faz caminhando, e no caminho se tem a oração, que dá força para caminhar”.
E todos os dias quando eu me levantava e ia me banhar, lá estava ele, sentado num banquinho, aproveitado de um tronco de árvore, na capela, do quintal de sua casa, concentrado, de olhos fechados, rezando e aguardando o povo se ajuntar para a reza do Ofício Divino das Comunidades. Isso me marcou muito!
Ele talvez não saiba, mas me inspiro muito nele e em seu testemunho de radicalidade no seguimento à Jesus Cristo, na defesa da Vida, e na opção evangélica pelos pobres.
Rezo por ele e sei que quando pode reza por mim também.
Aprendi a ser um ser humano melhor, um assessor melhor, escutando e rezando junto com D. Pedro Casaldáliga; acredito que esta seja a mística da caminhada: escutar a Deus para que Ele cresça e eu diminua.




[1] Mestre em Teologia pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. Autor de O Mistério e o Sopro – roteiros para acampamentos juvenis e reuniões de grupos de jovens. Brasília: CPP, 2005 (www.cpp.com.br). Autor de Utopia Poética. São Leopoldo: CEBI, 2007 (www.cebi.org.br). Assessor para as áreas de Mística e Espiritualidade, Teologia da Libertação e Juventude. Correio eletrônico: est_capixaba@yahoo.com.br.
[2] “...O seguimento radical de Jesus significa segui-lo para os pobres. "Todas as vezes que vocês fizeram isso a um dos menores de meus irmãos, foi a mim que o fizeram" (Mt 25). O rosto de sofrimento dos pobres, hoje, são o rosto de Cristo. A verdadeira espiritualidade cristã tem sua base na opção preferencial pelos pobres..."

sexta-feira, 9 de maio de 2014

QUEM ESTÁ CONTRA FRANCISCO?

QUEM ESTÁ CONTRA FRANCISCO?


Não sou de olhar sites e páginas de fundamentalistas e fanáticos religiosos, muito menos de ultraconservadores da Igreja Católica Apostólica Romana; mas, devido a boatos que a cada dia observo que estão aumentando nas redes sociais, comecei a reparar tais páginas e sites e ler suas publicações.
Me assustei com tamanha raiva e indignação contra o Bispo de Roma.
Os curtidores e seguidores de tais páginas e sites não escondem sua decepção com os rumos que o Papa Francisco está aplicando na Igreja. Percebo que eles se sentem órfãos com a morte de João Paulo II e com a renúncia de Bento XVI.
O Papa vindo do fim do mundo tem incomodado muitas pessoas fora da Igreja e  criado muitos inimigos dentro dela. Não é a toa que ele nos pede diariamente para que rezemos por ele.
Vendo suas fotos de um ano atrás e as recentes publicadas no site do Vaticano, tenho a impressão que o padre Bergoglio envelheceu demais, ele, porém, sempre com um sorriso, diz que o trabalho é árduo mas que está gostando, assim seja. 
As más línguas dizem que ele não fará um pontificado longo e esperam que não consiga realizar as mudanças que almeja.
Inclusive um dos sites que visitei para ver com meus próprios olhos as inverdades, as loucuras, os devaneios contra o Papa Francisco, dizia assim, em um comentário fundamentalista: "Será que é pecado pedir a Deus que este papado termine logo?"
A pessoa está pedindo a morte do Papa! É isso mesmo, ou entendi errado?
Como que uma criatura dessa pode ainda entrar na fila da comunhão e bater no peito e dizer que é católico?
Para pessoas com esse tipo de pensamento é muito complicado abrir mão do poder e colocar em seu lugar o carisma.
Este Papa tem um projeto de refundação da Igreja! Isto é o que significa o seu nome: Francisco.
Este Papa se orienta apenas por um livro: o Evangelho de Jesus de Nazaré.
Este Papa prega uma Igreja da Misericórdia ao invés da punição; uma Igreja do Carisma ao invés do poder; uma Igreja da Opção pelos Pobres ao invés do lucro do mercado.
Ele afirma sem medo que a desigualdade é a raiz dos males sociais, e está corretíssimo. Vai além quando pede políticas públicas para reduzir a pobreza e as desigualdades sociais.
Nos dois papados anteriores ao de Francisco, se tinha um cenário de Igreja que dialogava com cismáticos, aqueles que negaram e negam o Concílio Vaticano II, por conseguinte não respeitaram e não respeitam nenhuma orientação que foi dada após este evento, e só souberam e sabem criticar e atrapalhar a caminhada; em contrapartida, estes papados não se esforçaram para dialogar com os teólogos e teólogas da libertação, foram mais de 20 anos, de perseguições, notificações, censuras...e pasmem, tais teólogos e teólogas nunca se desligaram da Igreja, alguns abandonaram o ministério ordenado, mas ainda hoje, é muito fácil de encontrá-los trabalhando e se doando a uma comunidade eclesial de base, a uma pastoral social, a um movimento social, ensinando numa universidade ou em cursos de teologia para leigos. 
Foi preciso um Papa da América Latina e do Caribe fazer esta reaproximação. Reaproximação que tem provocado erupções vulcânicas dentro das paredes do Vaticano e nas Conferências Episcopais espalhadas pelo mundo.
Infelizmente são vários os inimigos que Francisco está colecionando, estes não irão confronta-lo diretamente, mas farão a política da inércia: o Papa fala, escreve, pede, mas o cara deixa entrar por um ouvido e sair pelo outro e não faz nada - essa é a melhor maneira de acabar com um projeto; porém, ele também está colecionando vários amigos e amigas, pessoas que haviam se afastado da Igreja por conta do direcionamento anterior, viram que este Papa quer reencontra-los, quer abraça-los, sem distinção, sem discriminação.
Peço a você que está lendo este texto, que hoje, na hora de dormir, ou naquela folga no seu emprego, reze a Deus para ajudar e fortalecer o querido Papa Francisco.
Da nossa parte, poderemos formar grupos de apoio ao Papa: trabalhando em nossas comunidades eclesiais de base, junto às pastorais sociais, estudando a Evangelli Gaudium, conhecendo um pouco mais o Jesus Histórico e perceber que Francisco não tem feito outra coisa, do que colocar na prática os ensinamentos do Moreno de Nazaré.
Faça sua parte, se engaje em uma pastoral social, crie grupos de debate, questione. O Papa quer que sejamos revolucionários, que estejamos em movimento, que possamos ir para a rua e que tenhamos nós também o cheiro das ovelhas.
Que a Indígena Guadalupe, que a Negra Aparecida e São João XXIII intercedam a Deus pelo Papa Francisco e por nós que desejamos uma Igreja a cada dia mais profética e comprometida com a defesa constante da Vida e com a opção evangélica pelos pobres.

Emerson Sbardelotti
Mestre em Teologia pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. 
Bacharel em Teologia pelo Instituto de Filosofia e Teologia da Arquidiocese de Vitória do Espírito Santo. 
Licenciado em História pelo Centro Universitário São Camilo, Vitória - ES.
Bacharel em Turismo pela Faculdade de Turismo de Guarapari - ES.
Autor de O Mistério e o Sopro - roteiros para acampamentos juvenis e reuniões de grupos de jovens. Brasília: CPP, 2005 (www.cpp.com.br).
Autor de Utopia Poética. São Leopoldo: CEBI, 2007 (www.cebi.org.br).
Correio eletrônico: est_capixaba@yahoo.com.br

quarta-feira, 7 de maio de 2014

I ENCONTRO NACIONAL DE JUVENTUDES E ESPIRITUALIDADE LIBERTORA

SE QUEREM CONTINUAR COM A TEOLOGIA E A ESPIRITUALIDADE DA LIBERTAÇÃO...BUSQUEM OS POBRES!



Emerson Sbardelotti Tavares[1]

            Me pediram para escrever um texto falando sobre a experiência de estar no I Encontro Nacional de Juventudes e Espiritualidade Libertadora, que aconteceu dos dias 01 a 04 de maio de 2014, na Faculdade Católica do Ceará (Seminário da Prainha), próximo à Praia de Iracema, em Fortaleza, no Ceará, o que faço com imenso prazer, pois passado já alguns dias do seu encerramento, posso olhar para o evento e constatar feliz que participei de um momento histórico e único na história da Igreja Católica, num local sagrado, pois ali estudaram, Padre Cícero, D. Hélder Câmara e D. Aloísio Cardeal Lorscheider.
            Me recepcionou no aeroporto, no dia 30 de abril de 2014, o querido padre Emílio Castelo, que me contou um pouco da realidade da paróquia que administra e do trabalho que desenvolve em um hospital na cidade de Fortaleza.
            Já no credenciamento no dia 01 de maio, a equipe nos recebeu com sorrisos e abraços fraternais, resolvendo os problemas com a hospedagem e a troca de oficinas. Aproveitei para rever João Facundo, um amigo querido que fiz no Congresso Continental de Teologia, que aconteceu dos dias 7 a 11 de outubro de 2012, na Unisinos, em São Leopoldo-RS, onde sonhávamos juntos com um Encontro Nacional de Novos Teólogos da Libertação (acredito que isso ainda bata forte em nosso peito, não é mesmo João?).
            Quando eu estava indo embora vem ao meu encontro a querida cantora da caminhada Eliahne Brasileiro, junto com a indígena Natália Tatanka; depois dos abraços e beijos, a Eliahne me convidou para fazer parte da Equipe de Animação, fiquei feliz com o convite e aceitei no ato, indo logo para a sala onde acontecia o ensaio. Ao encerrar o ensaio fui depressa no local onde eu estava hospedado, pois a abertura do evento se aproximava. Às 16 horas em ponto, lá estava eu com a Equipe de Animação levantando a galera, e passando os cânticos que seriam usados na celebração daquele dia. Era muita emoção, e eu ali vendo aquela juventude chegando de vários cantos do país, com sorrisos, olhos brilhando e fiel esperança.
            Na conferência de abertura o monge beneditino Marcelo Barros e o frei Betto, conversaram sobre a Espiritualidade Libertadora Hoje, mas não deixaram de falar um pouco de suas ricas experiências com D. Hélder Câmara e com frei Tito, e da conversa ligeira que frei Betto teve com o bispo de Roma, o papa Francisco. E findou o primeiro dia. E a juventude saiu para curtir a noite quente de Fortaleza no centro cultural Dragão do Mar que em vários locais oferecia os mais variados shows musicais.
            Na sexta-feira, dia 02 de maio, na chegada dos participantes, íamos entoando cânticos populares e sócio religiosos para que a galera fosse se enturmando ainda mais; após a celebração da manhã em que frei Betto, emocionado deu seu testemunho sobre o período em que foi preso e que na cadeia conviveu com frei Tito e leu uma parte do diário em que o frei contava como havia sido torturado. Todos nós choramos juntos com o frei Betto em determinado momento da leitura. Frei Tito vive em nós!
No auditório tivemos uma recordação do dia anterior, com o padre Manfredo e logo em seguida uma mesa de discussão com representantes de movimentos juvenis, onde os mesmos puderam falar um pouco de suas vivências e expectativas para o Encontro Nacional de Juventudes e Espiritualidade Libertadora.
Na parte da tarde partimos para as oficinas. A minha foi a de Espiritualidade Libertadora e Literatura de Cordel com Fernando Paixão.
Depois do jantar, aconteceu a apresentação de um grupo de maracatu; vários jovens se dirigiram após a apresentação ao Dragão do Mar para aproveitarem as atrações culturais.
No sábado, dia 03 de maio, celebramos a Páscoa de D. Tomás Balduíno e também a Páscoa do padre Joao Batista Libanio.
O monge Marcelo Barros falou da convivência com D. Tomás Balduíno e do amor que este tinha para com todos que estavam ao seu redor e como ele se colocava sempre em caminhada mesmo por vezes estando doente.
Não aguentei a emoção e precisei me retirar para chorar por estes dois amigos queridos, que com certeza estão ao lado do Moreno de Nazaré.
Como me disse o missiólogo da libertação Paulo Suess: "É tempo de Páscoa. As árvores que deram muitos frutos caíram, deixaram clareiras pelas quais a luz entra novamente na selva da Vida e faz brotar árvores jovens como você, como vocês. É Páscoa!".
É tempo de brotar árvores jovens!
Emocionado como estou agora, isso me faz ver, o quanto sou responsável também por uma Teologia Missionária e da Libertação.
Como me disse hoje o querido Leonardo Boff: "Não deixe de dizer as verdades que lhe vêm ao coração e à alma. Elas são verdades. Se lhe caluniam, se lhe dizem que você é persona non grata, saiba que disseram isso também a Jesus de Nazaré. Faça como faz o nosso Papa Francisco: use o Evangelho. Eles, elas, não terão argumentos para dizerem que você está errado!".
É tempo de brotar árvores jovens!
E fomos para o auditório onde animamos a galera e preparamos os 400 participantes para a conferência de Leonardo Boff. Conferência esta que seria partilhada com João Batista Libanio. De certa maneira o querido jesuíta estava ali com a gente e deve ter gostado do que viu e ouviu.
Leonardo Boff foi muito simpático, atencioso, bondoso e ressaltou sua profunda esperança de uma Igreja navio que parte para outros mares, que está sendo colocada em marcha pelo Papa Francisco. Falou da força da juventude, que ela não precisa pedir permissão para reivindicar e ser revolucionária. E se a juventude quer continuar com a Teologia da Libertação, com a Espiritualidade da Libertação, ela deve buscar os pobres. Fora dos pobres não há salvação, já diria o jesuíta Jon Sobrino. Partimos para o almoço.
A tarde iniciou com os trabalhos nas oficinas. A nossa produziu o seguinte Cordel que deveria ser cantado com uma linda toada, mas não tivemos tempo, e foi apenas recitado no último dia do Encontro:

CORDEL E ESPIRITUALIDADE

O nosso Primeiro Encontro
Nacional de Juventudes
E Espiritualidade
Nos convida à atitudes
Que sejam libertadoras
Como principais virtudes.

Ele uniu as Juventudes
De diversas regiões
Que veio trazer à pauta
Profundas reflexões
Que foram compartilhadas
Entre as duas gerações.

Juventudes seguem juntas
Fiquem todos à vontade
Tragam todo o seu amor
A bondade e a humildade
Para construirmos juntos
A nova sociedade.

Senhores eu vou pedir
Atenção pois vou falar
Do nosso encontro de jovens
Vindos de todo lugar
Com esperança e com fé
Pra Igreja refundar.

O Frei Betto e o Marcelo
Chamados a partilhar
A espiritualidade
Usadas pra libertar
Neste mundo desigual
Que precisamos mudar.

Quando prenderam Frei Betto
Sem dó e sem piedade
As grades não lhe roubaram
Nem a sua liberdade
Nem a sua devoção
Nem a espiritualidade.

Somos jovens sonhadores
A luta vamos vencer
Estamos todos unidos
Pra mudança acontecer
Caminhando todos juntos
Para a Deus agradecer.

Somos jovens conscientes
Nós gostamos das culturas
Relatamos no cordel
Nossos sinais de bravuras
E saímos pelo mundo
Revivendo as aventuras.

Leonardo Boff disse
Com a luz da sua crença
Que os jovens não precisam
Pedir nenhuma licença
Para lutar por justiça
E fazer a diferença.

Fernando Paixão pediu
Para um cordel preparar
Falar de jovens reunidos
Vindos de todo lugar
Estamos todos felizes
Por Deus nos abençoar.

Juventudes se encontram
E vimos quanta beleza
Juntos nos tornamos um
É o Reino com certeza
De um a quatro de maio
Na cidade Fortaleza.

Oficina de Espiritualidade e Literatura de Cordel
I Encontro Nacional de Juventudes e Espiritualidade Libertadora
Oficineiro: Fernando Paixão
02 e 03 de maio de 2014
           
            Após o jantar fizemos uma linda celebração onde saímos com candeeiros e ou lamparinas nas mãos pelas ruas próximas ao local do encontro em direção à Praia de Iracema. As pessoas iam se levantando nos bares e aplaudindo; de dentro dos ônibus algumas jovens perguntavam a quem estava na procissão o que estava acontecendo. E aquelas 400 pessoas iam cantando, numa crescente onda, cantos da caminhada.
            Ao chegarmos na praia foi feita uma grande roda e depois pequenos círculos onde foram partilhados peixes fritos e tapioca com água de coco. Voltamos para as casas que nos acolhiam.
          No domingo vieram as apresentações das oficinas, a celebração de encerramento com a leitura da carta oficial do Encontro.
          Ficou o gosto de querer mais. Espero que em breve tenhamos um II Encontro Nacional de Juventudes e Espiritualidade Libertadora.





[1] Mestrando em Teologia Sistemática pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo; Bacharel em Teologia pelo Instituto de Filosofia e Teologia da Arquidiocese de Vitória do Espírito Santo; Licenciado em História pelo Centro Universitário São Camilo, Vitória-ES; Bacharel em Turismo pela Faculdade de Turismo de Guarapari – ES; autor do livro O Mistério e o Sopro – roteiros para acampamentos juvenis e reuniões de grupos de jovens. Brasília: CPP, 2005 (www.cpp.com.br); autor de Utopia Poética. São Leopoldo: CEBI, 2007 (www.cebi.org.br); correio eletrônico: est_capixaba@yahoo.com.br.