quarta-feira, 23 de setembro de 2009

"A HISTÓRIA DE CADA UM/A DE NÓS".

CRISMA: UM HÁLITO DE VIDA!

“Então o Senhor modelou o homem com a argila do solo, insuflou em suas narinas um hálito de vida e o homem se tornou um ser vivente”. Gn 2,7.

ROTEIRO 02


“A HISTÓRIA DE CADA UM/A DE NÓS”.

“E a criança tão humana que é divina. É esta minha quotidiana vida de poeta, e é porque ele anda sempre comigo que eu sou poeta sempre”.
Fernando Pessoa


OBJETIVOS

Procurar conhecer um pouco da história de vida de cada um/a dos/as participantes a partir da criação da árvore genealógica.
Valorizar as diferenças e aceitar os limites de cada um/a.
3. Favorecer o clima de integração entre os/as participantes.
4. Motivar os/as participantes para a perseverança e para o compromisso.

MATERIAL SUGERIDO

Fotos dos/as participantes (solicitadas ao final do último encontro; que seja em um tamanho bom para que todos/as possam visualizar e irem identificando-se; se for preciso coloque o nome atrás.), estas devem ser colocadas em círculo ao redor do altar, cangas coloridas colocadas no chão, bíblia, vela, incenso, música de fundo (repetindo várias vezes): Um Certo Galileu – Padre Zezinho, scj.

ACOLHIDA

A equipe que preparou o encontro possa estar meia hora antes do início, recepcionando a todos/as com carinho, sorrisos e abraços. Que todos/as estejam descalços/as (faça um cartaz com a frase bíblica que está em Ex 3,5: “Ele disse: Não te aproximes daqui; tire as sandálias dos pés porque o lugar em que estás é uma terra santa”.) e sejam convidados/as a se sentarem nas cangas, ao redor do altar previamente preparado. Alguém com voz suave e afinada deve entoar um refrão meditativo.

ORAÇÃO

Pai-Mãe da história, da nossa e de todos os povos da Terra.
Abençoa nossos passos e os caminhos que iremos trilhar na construção de uma sociedade mais justa, fraterna e humana.
Santifica-nos pelo teu Espírito para que possamos dedicar toda a nossa vida a ti, com fez Jesus Cristo, nosso irmão, teu Filho, nosso Senhor. Amém.

DINÂMICA: A ÁRVORE

1º. Passo: Todos/as os/as participantes recebem uma folha de papel em branco, lápis, caneta ou pincel.
2º. Passo: Quem anima, pede para que os/as participantes acompanhem as orientações enquanto desejam. Haverá participante dizendo que não sabe desenhar, não ligue para isso, motive para que todos/as cumpram a tarefa.
3º. Passo: Peça aos/as participantes que desenhem a raiz de uma árvore e coloque aí a data do seu nascimento, o nome do pai, da mãe, do avô, da avó, do irmão, da irmã, do/a melhor amigo/a e de um acontecimento que marcou a vida de zero a cinco anos de idade.
4º. Passo: Peça aos/as participantes que desenhem o tronco da árvore e nele anote a motivação que lhe faz crescer enquanto jovem, enquanto ser humano.
5º. Passo: Peça aos/as participantes que desenhem as folhas, flores e frutos e escrevam os sonhos, as utopias e as esperanças que carregam no peito.
6º. Passo: Peça aos/as participantes que coloquem o próprio nome na árvore e que escolham uma outra árvore (colega), com quem irá partilhar o que foi escrito.
7º. Passo: Depois do cochicho, partilhar no grupo.

REFLETINDO JUNTOS

[Quem anima deverá fazer a ligação da dinâmica com o tema do encontro.]

Quais foram os sentimentos descobertos com esta dinâmica?
O que está faltando na história de cada um, cada uma de nós?
Nossas árvores são frutíferas? Nossas sombras conseguem acolher a quem as procuram?
Cada ser humano é um ser em construção, é um ser diferente dos demais seres e por isso mesmo, se torna tão apaixonante e apaixonado.
Cada ser humano tem a sua missão, mas a primeira missão, a mais importante é se auto-conhecer. Somente quando nos conhecemos em nossa profundidade, no nosso íntimo, é que podemos partir a passos largos em direção ao outro e viver emoções seguras e verdadeiras, com respeito e diálogo sincero.
Buscar na mente o nome de nossos antepassados não é uma coisa muito fácil, pois não temos a prática que possuem os Povos Indígenas do Continente americano, eles lembram de todos os nomes de seus antepassados, pois ao lembrarem conseguem se manter vivos, ao lembrarem entram em sintonia com a Mãe-Terra, e nesta comunhão conseguem tocar em frente as suas vidas. Buscar na mente e no coração o nome e as feições de pessoas queridas que já se foram, nos remetem ao fato de que nossa estadia nesta terra é curto, e por isso mesmo, precisamos viver com sabedoria e dignidade.

CANTO

Minha História – Chico Buarque.

A PALAVRA DO SENHOR

Mt 1, 18 – 25.


Quem anima pode fazer toda a turma viver uma cena teatral desta leitura, aparecem Maria grávida de Jesus, José seu esposo, o narrador e o anjo do Senhor. As falas ficam apenas para o narrador e o anjo do Senhor. Os/as leitores/as (escolhidos com antecedência) procurem proclamar a leitura com suavidade e clareza as palavras. Os personagens acima nada falarão, apenas com o olhar, com o semblante e com gestos serenos.

REFLETINDO JUNTOS II

[Quem anima oriente a refletirem no silêncio. Se for preciso repetir a leitura, que o faça, mas agora com todos sentados em círculo. Depois convidem a todos/as a falarem em uma frase ou uma palavra o que a leitura impulsiona a fazer. Levar os/as participantes a descobrirem o sentido profundo da leitura, as características marcantes de cada personagem. Deixe o tempo livre para a reflexão, valorizando a participação de todos/as.]

AVALIAÇÃO DO ENCONTRO

Como será a partir deste encontro contada e recontada a história de cada um/a de nós? Acrescentaremos ou tiraremos nomes de nossas árvores? Por que?
O que levamos de incentivador para nossos lares? Como faremos para repetir a experiência do encontro nos nossos lares?

NOSSO COMPROMISSO

O tema de nosso encontro de hoje foi: “A história de cada um/a de nós”. E agora, quando estamos nos despedindo e voltando para nossos lares, como é sentimos o Senhor nas nossas histórias de vida?
Maria disse sim ao Senhor para que Jesus viesse ao mundo e se tornasse o Deus Conosco. José, quis repudiá-la em segredo. Foi preciso a intervenção amorosa do anjo do Senhor, para que ele entendesse o projeto de vida traçado para a humanidade. Como é que cada um/a de nós hoje entendemos este projeto de vida?
Durante a semana poderíamos procurar na Bíblia, precisamente nos Evangelhos, os modelos de projeto de vida que o Senhor indicou por meio de Jesus para o povo de Israel. Depois de identificados, como é que poderíamos atualizá-los para os nossos dias atuais?
E anotar o que descobriu e o que atualizaria numa folha de papel para que possa ser pregada num varal no próximo encontro, e lido por todos/as.

DESPEDIDA

Quem anima se despede e faz despedir com muitos abraços e desejos de uma ida e uma volta sempre na certeza que somos filhos, filhas, amados/as pelo Senhor.
E abraçados em círculo, repetem com voz suave a seguinte oração:

ORAÇÃO A CRISTO
“Nós te seguiremos, Senhor Jesus.
Mas para que te sigamos, chama-nos.
Pois, sem ti, ninguém caminha.
Tu és, com efeito, o caminho, a verdade e a vida.
Recebe-nos como estrada acolhedora,
acalma-nos como só a verdade pode acalmar.
Vivifica-nos porque só tu és a vida”.
Santo Ambrósio (340 – 397 E.C.)



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Este roteiro é para ser usado pelos grupos de jovens e pelas lideranças juvenis que servem à comunidade na Pastoral da Crisma.
O encontro não está de maneira alguma encerrado, pode ser ampliado e revisado. Contudo, peço, que me enviem tais ampliações e revisões pelo email institutocapixabadejuventude@gmail.com
Quando forem usar este roteiro, sempre, citem a fonte.


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Emerson Sbardelotti
Estudante do curso superior de Teologia no Instituto de Filosofia e Teologia da Arquidiocese de Vitória do Espírito Santo.
Autor de O MISTÉRIO E O SOPRO – ROTEIROS PARA ACAMPAMENTOS E REUNIÕES DE GRUPOS DE JOVENS. Brasília: CPP, 2005.
Autor de UTOPIA POÉTICA. São Leopoldo: CEBI, 2007.


Os demais roteiros estarão disponíveis no blog do autor:

http://omisterioeautopia.blogspot.com/

e no blog do ICJ- Instituto Capixaba de Juventude:

http://icjinstitutocapixabadejuventude.blogspot.com/

terça-feira, 22 de setembro de 2009

"VOCÊ FOI ESCOLHIDO/A PELO SENHOR".

CRISMA: UM HÁLITO DE VIDA!

“Então o Senhor modelou o homem com a argila do solo, insuflou em suas narinas um hálito de vida e o homem se tornou um ser vivente”. Gn 2,7.

ROTEIRO 01

“VOCÊ FOI ESCOLHIDO/A PELO SENHOR”.

“A essência de Deus não é a solidão, é comunhão”.
Papa João Paulo II

OBJETIVOS

1. Expressar a alegria de saber que é o Senhor quem escolhe e chama para experimentarem o Sacramento do Crisma na fraternidade em comunidade, nos diversos serviços, nas diversas pastorais e movimentos.
2. Favorecer o clima de apresentação e o entrosamento entre os/as participantes.
3. Salientar que o Crisma não é apenas mais um sacramento, mas com ele, somos fortalecidos no e pelo Espírito.
4. Motivar os/as participantes para a perseverança e para o compromisso.

MATERIAL SUGERIDO

Bíblia (aberta de preferência na leitura escolhida para este encontro); cartazes com frases bíblicas relacionadas ao encontro; cangas coloridas espalhadas pelo chão; música instrumental; vela acesa; bacia e ou alguns potes com água; uma toalha para serem enxugadas as mãos; argila; incenso (que deverá ser aceso antes da chegada dos/as participantes, criando um clima de silêncio e contemplação).

ACOLHIDA

A equipe que preparou o encontro possa estar meia hora antes do início, recepcionando a todos/as com carinho, sorrisos e abraços. Que todos/as estejam descalços/as e sejam convidados/as a se sentarem nas cangas, ao redor do altar previamente preparado. Alguém com voz suave e afinada deve entoar um refrão meditativo.

ORAÇÃO

Pai-Mãe de bondade, de carinho e amor.
Seus filhos e filhas estão aqui reunidos, escutaram o teu chamado e dispostos a lhe servir compareceram, felizes e motivados/as.
Se é do teu agrado, fortalece-nos no teu Espírito e conduza-nos a um outro mundo possível, agora e sempre. Amém.

DINÂMICA: O EU DE ARGILA.

1º. Passo: Todos/as sentados/as em círculo, no chão, bem à vontade. Aos poucos quem anima o encontro, vai pedindo que silenciem e se concentrem na argila que será entregue a cada um, a cada uma.
2º. Passo: Cada participante recebe uma quantidade suficiente de argila. Com esta, passa a modelar a si próprio, como se vê enquanto criatura do Senhor e enquanto ser vivente.
3º. Passo: Se possível, manter durante o processo de modelagem, a concentração e o silêncio.
4º. Passo: Expor a criatura criada, o eu de argila para os/as demais participantes. Destacar as características mais importantes e outras mais comuns como: nome, idade, escolaridade, estado civil, em que gostaria de trabalhar, planos para o futuro, etc. {É o momento em que os/as participantes irão se apresentar }.
5º. Passo: Deixar que o grupo partilhe o que foi experimentado: o que mais chamou atenção na dinâmica?

REFLETINDO JUNTOS

[Quem anima deverá fazer a ligação da dinâmica com o tema do encontro.]

O Senhor convoca a cada um, a cada uma de nós, desde o ventre materno. Nós não escolhemos o Senhor, é Ele quem nos escolhe e acolhe. É Ele que nos anima a caminhar e ir de encontro ao outro.
Somos filhos e filhas de um Deus da Vida, de um Deus amoroso, carinhoso, bondoso, misericordioso, que está sempre criando e recriando, por isso, esperando de nós orações e ações bem concretas e inspiradas na realidade do mundo em que vivemos.
Qual foi a sensação de estarmos criando um boneco de argila?
Este boneco, criação nossa, é o nosso espelho?
O sacramento do Crisma não é apenas mais um sacramento, mas é o sacramento que fortalece o nosso espírito no Espírito d’Ele. Faz parte dos Sacramentos da Iniciação Cristã: Batismo, Eucaristia e Crisma (Confirmação).
No Batismo, como nos lembra a Tradição da Igreja, somos incorporados ao corpo eclesial que tem como cabeça Jesus de Nazaré, divinamente humano, humanamente divino. Na Eucaristia, vivemos o memorial do Cordeiro de Deus: “Este é o meu corpo e o meu sangue, comam e bebam, em minha memória”. No Crisma, o Espírito sopra um hálito de vida, revigorando a nossa vida na vida de tantos irmãos e irmãs, local e globalmente ligados a nós na Vida d’Ele.
Mulher e homem, imagem de Deus... Nas palavras do teólogo Leonardo Boff: “seria um pai maternal e uma mãe paternal”... Em clara sintonia com o mundo, com todos os seres vivos... Nós somos terra...somos parte da terra...por isso, devemos saber cuidar de tudo que no Planeta Terra foi criado. Morrendo o Planeta, morremos todos.
O Senhor é o Deus da Vida...
Vida em abundância para todos, para todas, indistintamente.
Por causa do que o Senhor criou e somos suas testemunhas, podemos proclamar que não só acreditamos em Deus, mas sentimos Deus!

CANTO

Vocação – Padre Zezinho, sjc.

A PALAVRA DO SENHOR

Mc 1, 16 – 21; 2, 13 – 14; 3, 13 – 19.

O/A Leitor/a deverá proclamar a leitura de forma segura, transmitindo ternura e carinho, com a voz suave, de preferência tocando em cada um, em cada uma, (no ombro, nas mãos, na cabeça, andando ao redor deles) no momento em que o próprio Jesus convida seus discípulos. Os participantes devem se sentir chamados, convidados, convocados pela leitura a viverem o sacramento do Crisma.

REFLETINDO JUNTOS II

[Quem anima oriente a refletirem no silêncio. Se for preciso repetir a leitura, que o faça. Depois convidem a todos/as a falarem em uma frase ou uma palavra o que a leitura impulsiona a fazer. Levar os/as participantes a descobrirem o sentido profundo das ações de Jesus na leitura. Deixe o tempo livre para a reflexão, valorizando a participação de todos/as.]

AVALIAÇÃO DO ENCONTRO

O que mais lhe motivou no encontro de hoje, lhe fará retornar no próximo? Explique.
Nós acreditamos mais em Deus ou sentimos mais a Deus?

NOSSO COMPROMISSO

O tema de nosso encontro de hoje foi: “Você foi escolhido/a pelo Senhor”. E agora, quando estamos nos despedindo e voltando para nossos lares, como é que esta predileção do Senhor por nós está falando ou gritando em nossos corações?
Qual é o compromisso que cada um, cada uma de nós podemos assumir na prática durante toda esta semana? [Tempo para pensar.]
Jesus chamou os seus discípulos, e continua nos chamando hoje ainda; por isso vocês estão aqui...Sugerimos que vocês releiam a leitura deste encontro e durante a semana procurem perceber na comunidade, aquela equipe, aquela pastoral, aquele movimento, em que você possa se identificar. Conversar com as lideranças sobre como funcionam as equipes que participam e se envolvam, pois a messe é grande, mas os trabalhadores são poucos.

DESPEDIDA

Quem anima se despede e faz despedir com muitos abraços e desejos de uma ida e uma volta sempre na certeza que somos filhos, filhas, amados/as pelo Senhor.
E abraçados em círculo, escutam no silêncio o seguinte pensamento:

“Quando mergulhamos no inferno existencial da solidão e nos sentimos marginalizados e excluídos. Ele nos sussurra: ‘Eu estou contigo’.
Quando ficamos abatidos pela perversão da humanidade, pelas chagas infligidas à Mãe Terra, pelas águas que contaminamos, o solo que envenenamos, o ar que poluímos, Ele suscita em nós um amor redobrado a tudo que existe e vive.
E quando nos sentimos prostrados, sem vontade de viver e de estar com os outros, Ele nos convida: ‘Vem à minha casa e repousa e refaz as forças e experimenta como é suave meu amor’.”
Leonardo Boff





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Este roteiro é para ser usado pelos grupos de jovens e pelas lideranças juvenis que servem à comunidade na Pastoral da Crisma.
O encontro não está de maneira alguma encerrado, pode ser ampliado e revisado. Contudo, peço, que me enviem tais ampliações e revisões pelo email abaixo.
Quando forem usar este roteiro, sempre, citem a fonte.


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Emerson Sbardelotti
Estudante do curso superior de Teologia no Instituto de Filosofia e Teologia da Arquidiocese de Vitória do Espírito Santo.
Autor de O MISTÉRIO E O SOPRO – ROTEIROS PARA ACAMPAMENTOS E REUNIÕES DE GRUPOS DE JOVENS. Brasília: CPP, 2005.
Autor de UTOPIA POÉTICA. São Leopoldo: CEBI, 2007.


Os demais roteiros estarão disponíveis no blog do autor:

http://omisterioeautopia.blogspot.com/

e no blog do ICJ- Instituto Capixaba de Juventude:

http://icjinstitutocapixabadejuventude.blogspot.com/

sexta-feira, 18 de setembro de 2009

JUVENTUDE: VOCAÇÃO E COMPROMISSO À LUZ DA PALAVRA DE DEUS

JUVENTUDE
VOCAÇÃO E COMPROMISSO À LUZ DA PALAVRA DE DEUS.
CESEP, CURSO DO VERÃO, 14 a 16 de janeiro de 2008

INDICE

INTRODUÇÃO

I. A RAIZ DA NOSSA VOCAÇÃO

II. AS RESISTÊNCIAS À VOCAÇÃO
1. O Chamado de Abraão e Sara
2. O chamado de Moisés
3. O chamado de Elias

III. IMAGEM DE DEUS E DESCOBERTA DA VOCAÇÃO
1. O fracasso do cativeiro faz apelo à consciência do povo
2. As várias respostas ao apelo de Deus
3. A resposta dada pelos discípulos e discípulas de Isaías

IV. JUVENTUDE E VOCAÇÃO
1. Oséias e Gomer: dois jovens descobrem e assumem sua vocação
2. Jó: porta-voz das aspirações da juventude;

V. CHAMADO POR DEUS, JESUS É FIEL À SUA VOCAÇÃO

VI. JESUS CHAMA PESSOAS PARA ESTAR COM ELE E IR EM MISSÃO
1. As pessoas chamadas por Jesus
2. O chamado, a vocação, e o seu duplo objetivo
3. A comunidade: lugar onde se guarda e se cultiva a vocação
4. Jesus é atento ao processo e ao cultivo da vocação dos discípulos
5. A opção pelos pobres e excluídos faz parte da vocação
6. Seguir Jesus na contramão, obediente a Deus e aos pobres até à morte de Cruz

VII. A DESCOBERTA DA VOCAÇÃO DA HUMANIDADE
1. O fracasso da observância da Lei de Deus destruiu a raiz da fé
2. A redescoberta da gratuidade de Deus na natureza
3. A descoberta dos Dez Mandamentos da Criação
4. A vocação do ser humano
5. Homem e Mulher: imagem e semelhança de Deus

APÊNDICE. OLHANDO O ALBUM DA FAMÍLIA DE DEUS
A variedade das vocações dentro do mesmo Projeto de Deus
A variedade das vocações dentro do mesmo Projeto de Deus
Um elenco das pessoas chamadas desde Abraão até o Novo Testamento
Uma sugestão para aprofundar a vocação na Bíblia


INTRODUÇÃO

O TEMA

O Tema deste curso é: “Juventude: Vocação e Compromisso à luz da Palavra de Deus”. Tema vasto. Tem a ver com as coisas mais comuns e mais profundas da vida.

VOCAÇÃO: Escutar o chamado.

Ser chamado pelo nome é a coisa mais freqüente e mais comum que acontece com cada um de nós: “João!” –“Raquel!” -“Carlos!” -“Maria!” Quando alguém chama, você pára, olha e pergunta: “O que há?” Às vezes, a gente é chamada por alguém, mas não escuta. Muito barulho ao redor ou dentro da gente. Pode ser também que o chamado foi muito fraco ou vinha de uma pessoa muda que chamava com um gesto que você não entendeu. Condição para poder escutar o chamado é saber fazer silêncio. Sem silêncio não se escuta nada. Hoje, o que nos falta é silêncio.

COMPROMISSO: Responder ao chamado.

Alguém o chama porque ele precisa de você. Você dá a sua resposta, se compromete e vai agindo. No fundo, tudo que a gente faz na vida é resposta a um chamado, a uma vocação: “Recebi uma chamada e fui!” Há chamados pequenos e chamados grandes. Às vezes acontece que alguém chama e você responde: “Sinto muito, mas não posso”. É que um outro chamado te impede de responder positivamente a este novo chamado.

JUVENTUDE: O chamado rejuvenesce.

Abraão tinha 75 anos quando Deus o chamou. Era velho, mas foi ficando cada vez mais jovem. Jesus foi sendo chamado desde pequeno até à idade de 30 anos. Aí ficou tudo claro para ele. Ele assumiu a vocação e começou a chamar outras pessoas para segui-lo, rapazes e moças, homens e mulheres. Provavelmente, todos eles mais jovens do que ele mesmo. Respondendo ao chamado, a pessoa rejuvenesce! (cf Is 40,30-31)

À LUZ DA PALAVRA DE DEUS: Iluminar e aprofundar o chamado.

A Bíblia é a história da vocação de um povo. É o álbum das pessoas chamadas, homens e mulheres, rapazes e moças, jovens e velhos, casados e solteiros. É o espelho da nossa caminhada, a história da nossa vocação. Nestes três dias vamos procurar uma luz na Bíblia para clarear o fenômeno tão universal, tão comum, tão profundo e tão pouco conhecido da vocação em nossa vida. Veremos o chamado de Deus e a sua mística tais como aparecem na Bíblia

OS TERMOS

São muitas as palavras que se usam para expressar aquilo que escutamos dentro de nós como apelo ou vocação e às quais procuramos dar uma resposta ao longo dos dias e anos da nossa vida. São palavras comuns que indicam coisas muito comuns, muito humanas: Vocação, Apelo, Grito, Chamado e Chamada, Lembrete, Convite, Convocação, Pedido, Recado, etc.
Geralmente, falando em vocação, muita gente pensa logo em vocação para padre, freira, religioso, pastor, ministro, ministra ou obreiro. Pensa na vocação à santidade ou na vocação que como cristãos recebemos no batismo. Tudo isso é correto, mas não é o todo. É apenas uma parte, e uma parte muito pequena. É olhar apenas um único tijolo e achar que já viu e conhece a casa inteira que tem muitos quartos, salas e andares.
Existe uma vocação básica mais geral que abarca e fundamenta todas as outras vocações. Eu sou Carlos. Você é Maria, João, Raquel, Alberto. A vocação básica de cada um de nós é ser Carlos, ser Maria, ser João, Raquel, Alberto. Todos nós somos Seres Humanos. Nossa vocação básica e principal é ser HUMANO. Quando falamos em vocação cristã ou religiosa, não podemos esquecer esta vocação básica de sermos uma parte da humanidade. Não se constrói um prédio começando com o terceiro andar. Não dá certo. No passado, aconteceu muitas vezes que, formando-se na vocação para religioso ou freira, as pessoas se tornavam menos humanas. Perdiam o brilho de humanidade. Pensavam que isto fosse o caminho certo. Mas não era. Pois tudo que faz um ser humano tornar-se menos humano não pode ser expressão da vontade de Deus.
Nestes três dias, analisando as várias vocações que aparecem na Bíblia, a preocupação será sempre a mais ampla possível: ver a vocação como é elemento básico e constitutivo da nossa existência humana e não como um acréscimo que só pertence a uns poucos privilegiados.


O ESQUEMA

Elaborei o seguinte esquema para estes três dias. Pensei em abordar sete pontos, sete aspectos da vocação:

1. A raiz da vocação:
Deus tem vocação e, para ser fiel à sua vocação, ele chama a nós. Nossa vocação tem sua origem em Deus, na vontade de Deus de comprometer-se com a sua vocação. Vamos ver como Deus foi chamado e como ele respondeu à vocação. Isto ajuda para sabermos como responder à nossa vocação;
2. As resistências à vocação:
A vocação suscita uma dupla reação em todos nós: aceitação e resistência. A pessoa quer aceitar, mas resiste: ou não crê, ou não quer, ou se engana. Vamos ver de perto como foram as resistências de Abraão e Sara, de Moisés e de Elias, e como superaram as resistências e os fracassos da vocação.
3. Imagem de Deus e resposta à vocação:
Na parábola do bom samaritano, a mesma situação fez um apelo a três pessoas diferentes: sacerdote, levita e samaritano. A resposta não foi a mesma. Por que? Dependendo da posição social e da imagem que as pessoas se fazem de Deus, elas reagem diferentemente diante dos apelos ou das vocações que vêm dos fatos da vida.
4. Juventude e Vocação:
Vamos ver dois casos bem concretos de jovens ou de um velho com cabeça e coração de jovem. Oséias e Gomer: um casal jovem, que descobre a vocação que vem de Deus na experiência do amor sincero que os unia. Jó: um velho rebelde, que se torna porta-voz das aspirações da juventude.
5. Jesus, chamado por Deus é fiel à sua vocação
Vamos ver como Jesus viveu sua vocação. Como foi descobrindo, aprofundando e alargando o chamado de Deus em sua vida, e como respondia aos apelos que a cada momento recebia do Pai. Ele mesmo dizia: “Eu faço o que o Pai me mostra o que é para fazer” (Jo 12,50; 8,38). Veremos como foi esse longo chamado de trinta e três anos.
6. Jesus chama pessoas para estar com ele e ir em missão
Veremos como Jesus chamava outras pessoas para segui-lo no compromisso à mesma vocação: homens e mulheres, rapazes e moças, velhos e crianças. Esta parte ocupará o maior espaço, pois é o que nos caracteriza. Somos discípulos e discípulas de Jesus, chamados por ele em vista da justiça e da paz no mundo
Apêndice O álbum dos homens e mulheres chamadas por Deus:
Este apêndice contém um subsídio para ajudar as pessoas que querem aprofundar este assunto da vocação na Bíblia. O apêndice nos permite olhar a história da Bíblia do ponto de vista do chamado e a verificar como era a vocação de cada um, cada uma, e como as pessoas respondiam à sua vocação. No fim traz uma lista com perguntas que permitem alargar o assuntos e descobrir outros ângulos.

A DISTRIBUIÇÃO DO ASSUNTO NOS TRÊS DIAS
No primeiro dia:
I. A raiz da nossa vocação
II. As resistências à vocação
No segundo dia:
III. Imagem de deus e descoberta da vocação
IV. Juventude e vocação
No terceiro dia:
V. Chamado por deus, jesus é fiel à sua vocação
VI. Jesus chama pessoas para estar com ele e ir em missão
I
A RAIZ DA NOSSA VOCAÇÃO
Deus tem vocação, e se compromete com ela chamando a nós
Diz o livro do Êxodo (Ex 2,23-25):
“Muito tempo depois, o rei do Egito morreu. Os filhos de Israel gemiam sob o peso da escravidão, e clamaram; e do fundo da escravidão, o seu clamor chegou até Deus. Deus ouviu as queixas deles e lembrou-se da aliança que fizera com Abraão, Isaac e Jacó. Deus viu a condição dos filhos de Israel e a levou em consideração”.
E um pouco mais adiante diz novamente (Ex 3,7-10):
“Javé disse (a Moisés): "Eu vi muito bem a miséria do meu povo que está no Egito. Ouvi o seu clamor contra seus opressores, e conheço os seus sofrimentos. Por isso, desci para libertá-lo do poder dos egípcios e para fazê-lo subir dessa terra para uma terra fértil e espaçosa, terra onde corre leite e mel, o território dos cananeus. O clamor dos filhos de Israel chegou até mim, e eu estou vendo a opressão com que os egípcios os atormentam. Por isso, vá. Eu envio você ao Faraó, para tirar do Egito o meu povo, os filhos de Israel".
Deus tem vocação. A vocação de Deus é o grito do povo oprimido! Deus foi chamado pelo povo sofrido e deixou que o chamado entrasse dentro dele. Escutou, e deu uma resposta coerente. Deus foi fiel à sua vocação. A Bíblia anota sete passos bem precisos da maneira como Deus respondeu à sua vocação:
1. Deus ouviu as queixas, escutou o clamor dos oprimidos.
2. Deus lembrou-se da aliança que fizera com Abraão, Isaque e Jacó.
3. Deus viu a condição, a miséria do seu povo e a opressão com que os egípcios o atormentavam.
4. Deus conheceu os seus sofrimentos e os levou em consideração.
5. Deus desceu para libertá-lo.
6. Deus decidiu fazê-lo subir para uma terra fértil.
7. Deus chamou Moisés e o enviou ao faraó para tirar o povo do Egito.
Os sete passos da resposta à vocação
Vale a pena cada um e cada uma de nós fazer uma análise da sua própria vida e da sua vocação percorrendo estes mesmos sete passos que Deus percorreu para dar uma resposta adequada à sua vocação: OUVIR, LEMBRAR, VER, CONHECER, DESCER, DECIDIR, CHAMAR. Não são passos distintos, um depois do outro, mas são os vários aspectos da resposta que damos ao chamado que recebemos.
1. OUVIR: Deus ouviu o clamor.
A gente deve aprender a escutar o grito calado do pobre; deve aprender a perceber os problemas dos outros, do povo; a estar atento aos acontecimentos. Como Jesus na estrada de Emaús, devemos aproximar-se das pessoas, caminhar com elas, fazer silêncio para escutar o que conversam e perguntar; ter um desconfiômetro para perceber eventuais resistências, desvios e enganos. O ponto de partida é saber fazer silêncio dentro de nós para poder escutar a vocação.
2. LEMBRAR: Deus se lembrou da aliança com Abraão, Isaque e Jacó.
Muitas vezes, ao presenciar um fato na rua ou escutar uma notícia na televisão, você se lembra de alguma situação já vivida antes. Os fatos que acontecem hoje trazem de volta as coisas do passado, seja da família, seja do Brasil. E esta lembrança do passado, por sua vez, ajuda a dar uma resposta mais coerente aos apelos que recebemos hoje. A memória do passado é chave para poder analisar bem a situação de hoje e perceber os apelos ou as vocações que aí existem para nós. Sem memória do passado, não há futuro para o povo!
3. VER: Deus viu a miséria do seu povo.
Todos os dias, vemos a miséria do Brasil: pobres na rua, brigas em família, desemprego, fome, violência, etc., mas nem sempre nos damos conta do que está acontecendo. Vemos as coisas mas não as percebemos. Nós nos acostumamos e nos tornamos insensíveis diante dos problemas do país e das pessoas. Não analisamos as coisas, e para acalmar uma possível rebeldia da consciência arrumamos motivos e pretextos para não nos envolver. Por falta de análise crítica da realidade não enxergamos o apelo e, mesmo vendo, não descobrimos nossa vocação.
4. CONHECER: Deus conheceu os sofrimentos.
Na Bíblia, a palavra conhecer indica não só um conhecimento teórico obtido pelo estudo. (Isto pertence ao terceiro passo do VER). Na Bíblia, conhecer indica uma experiência prática, obtida na convivência. Uma coisa é conhecer de longe, outra é sentir de perto. Quem vive em condomínio fechado não sabe o que sofre um favelado. Quem esteve na casa do desempregado sabe o que significa não ter o que comer. Uma vocação que não se envolve não atinge o seu objetivo.
5. DESCER: Deus desceu para libertar o seu povo.
A situação do povo que gritava fez com que Deus saísse do lugar onde estava para colocar-se no lugar onde estava o povo. Mudou de posição. Fez opção pelos pobres e oprimidos. Descer significa mudar de posição social. Para poder assumir sua vocação é muito importante a pessoa fazer algo, por menor que seja, para descer, mudar de posição. Por exemplo, no jeito de oferecer uma ajuda aos outros; na hora de votar; nas decisões que se tomam; na maneira de fazer análise dos problemas; etc. Diz um provérbio: “A fome na China pode ser grande, mas meu calo dói mais!” É colocando-me no sapato do outro, que percebo que a fome na China dói mais que o meu calo.
6. DECIDIR: Deus decidiu fazê-lo subir para uma terra fértil e espaçosa.
Deus ouviu, lembrou, viu, conheceu e desceu. Agora Ele começa a agir, tomando decisões concretas a partir da posição do outro com o enfoque do outro e elabora um projeto para libertar o povo daquele situação. Percebeu que do jeito que o povo estava não podia continuar e que era necessário encontrar um outro modo de viver. O projeto levou quarenta anos para ser realizado. Deus parece não ter pressa. Ele não planta alface. Planta é jacarandá.
7. CHAMAR: Deus chamou Moisés e o enviou para tirar o povo do Egito.
Chamou Moisés, Moisés chamou Aarão, Aarão chamou outros, os outros chamaram outros. Iniciou-se um processo que chegou até nós. Deus tomou iniciativas, envolveu pessoas, fez com que os outros passassem pelo mesmo processo. A raiz da vocação de Moisés era a preocupação de Deus em ser fiel à vocação que ele (Deus) estava recebendo do povo, e em atender ao chamado dos oprimidos. A raiz da nossa vocação é a vocação de Deus. Através do chamado que Ele nos dirige e que nós descobrimos dentro dos fatos, Deus vai dando uma resposta à vocação que ele está recebendo hoje dos pobres, aqui no Brasil. Foi assim que Jesus viveu a sua vocação lá na Palestina, e que nós também devemos experimentar e viver a nossa vocação. Isto dá maior profundidade e compromisso ao que já estamos fazendo.
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Pergunta para ajudar na reflexão e na assimilação do assunto:
* Reflita sobre a história da sua vocação pessoal a partir dos sete passos da vocação de Deus
II
AS RESISTÊNCIAS À VOCAÇÃO
Vamos ver três casos de resistência à vocação: Abraão e Sara resistem porque não conseguem crer na vocação e, por isso, apresentam caminhos alternativos. Moisés resiste porque tem medo da vocação e não quer comprometer-se. Elias resiste porque confunde o Deus que chama com a imagem que ele mesmo se fazia de Deus e, por isso, sem se dar conta, busca a resposta numa direção errada. São três casos de vocação de pessoas que viveram antes de nós. São, ao mesmo tempo, arquétipos, modelos, símbolos do que acontece ou pode acontecer com todos nós. São espelhos, nos quais reconhecemos algo de nós mesmos. Eles nos ajudam a entender melhor o que se passa dentro de nós.
1. O Chamado de Abraão e Sara
1. Situando o chamado
Século VI antes de Cristo. O povo estava no cativeiro da Babilônia. A política expansionista do império de Nabucodonosor, rei da Babilônia, destruiu Jerusalém e arrasou com o Templo. Matou o rei e acabou com a indepen­dência política do reino de Judá. Isto foi no mês de agosto do ano 587 antes de Cristo. As grandes promessas do passado não se realizaram. O povo estava de volta na mesma terra de onde, 1300 anos antes, Abraão e Sara tinham saído para a Palestina em busca da Terra Prometida. O povo estava na escuridão (Lam 3,2-6), sentia-se injustiçado por Deus (Is 40,27; 49,14), tinha perdido a auto-estima, achava que sua vida já não tinha valor nenhum e que todo o seu esforço não adiantava para nada (Is 49,4). Vivia oprimido e disperso, sem encontrar os sinais da presença de Deus na vida (Sl 77,8-11). Muitos tinham se acomodado e diziam: “Deus se esqueceu de nós” (Is 40,27). Abandonaram Javé e começaram a crer nos deuses do império da Babilônia que lhes pareciam mais fortes!.
E no entanto, foi a esse povo desanimado e sem futuro que Deus estava chamando para ser Luz das nações (Is 42,6; 49,6). Sua vocação era anunciar a justiça (Is 42,6), libertar os oprimidos (Is 61,1), unir as tribos de Jacó (Is 49,5-6), levar a mensagem de Deus até os confins da terra (Is 49,6). Difícil crer num chamado assim! –“Quem somos nós para realizar uma vocação assim!” De fato, a maioria nem lhe dava atenção. Dava risada.
Mas um grupo pequeno, discípulos e discípulas de Isaías, começou a lembrar e aprofundar a história de Abraão e Sara. Em vez de desanimar, diziam o contrário: “É agora que nós temos que ser Abraão e Sara! Esta é a nossa vocação!” E repetiam ao povo:

“Vocês que buscam a justiça e procuram a Deus. Olhem para a rocha de onde foram talhados, olhem para a pedreira de ontem foram extraídos. Olhem para Abraão, seu pai, e para Sara, que os deu à luz! Quando os chamei, eles eram um só, mas se multiplicaram por causa da minha bênção!” (Is 51,1-2)

Lembrando a história antiga de Abraão e Sara, em cuja terra estavam exilados, em vez de desanimar, os discípulos de Isaías se enchiam de esperança: “Nossos pais Abraão e Sara conseguiram! Nós também vamos conseguir!” Hoje acontece o mesmo. Muitos se acomodam, mas outros dizem o contrário: “É agora que nós temos que ser Zumbi! Tiradentes! Santos Dias! Oscar Romero! Padre Josimo! Irmã Doroty! Esta é a nossa vocação!”
Para ajudar o povo do cativeiro a descobrir e assumir esta sua vocação, os discípulos de Isaías começaram a contar novamente a história de Abraão e Sara, mas a contavam de tal maneira que o povo pudesse descobrir nela sua própria vocação e a maneira de como realizá-la. As narrações sobre Abraão e Sara, conservadas no livro de Gênesis, refletem não só a história do casal no longínquo passado de 1800 antes de Cristo, mas também, como num espelho, a situação difícil e sem horizonte do povo no cativeiro da Babilônia. A maneira dramática como é narrada a história de Abraão e Sara deixa transparecer como era difícil para o povo do cativeiro crer na vocação que lhe vinha de Deus e sugere, ao mesmo tempo, como ele devia fazer para crer na vocação e assumi-la. Estas narrações também são espelho para nós hoje refletirmos sobre a nossa vocação, sobre o nosso chamado.
2. O chamado
Eis como começa o chamado para sermos Abraão e Sara, para refazermos a história:
Javé disse a Abrão: "Saia de sua terra, do meio de seus parentes e da casa de seu pai, e vá para a terra que eu lhe mostrarei. Eu farei de você um grande povo, e o abençoarei; tornarei famoso o seu nome, de modo que se torne uma bênção. Abençoarei os que abençoarem você e amaldiçoarei aqueles que o amaldiçoarem. Em você, todas as famílias da terra serão abençoadas". Abrão partiu conforme lhe dissera Javé. E Ló partiu com ele. Abrão tinha setenta e cinco anos quando saiu de Harã. Abrão levou consigo sua mulher Sarai, seu sobrinho Ló, todos os bens que possuíam e os escravos que haviam adquirido em Harã. Partiram para a terra de Canaã e aí chegaram. (Gn 12,1-5)
A promessa de ser pai de um povo e fonte de bênção para toda a humanidade é uma vocação bonita que atrai. Vocação importante de grande alcance. Mas a condição para poder ser pai de um povo é ter ao menos um filho. Abraão já tinha 75 anos e sua esposa Sara era estéril e avançada em idade. A condição para Abraão crer na sua vocação era crer em Sara, crer que Sara pudesse ter um filho. Difícil crer numa promessa assim! Era mais fácil crer no projeto que os dois iam elaborando como possível alternativa para uma promessa aparentemente impossível.
3. As propostas alternativas
Foram três as propostas alternativas que os dois elaboraram. Mas também foram três as pancadas que levaram, três os impasses que enfrentaram, três os fracassos que sofreram, até renascer e descobrir o caminho. Tem gente que leva dez pancadas, outros caem vinte vezes até aprender. Outros não levam pancada nenhuma nem caem, porque já estão deitados no chão, são humildes. Vejamos as propostas alternativas de Abraão e Sara:
A primeira proposta alternativa à promessa de Deus: Eliezer
Humanamente falando, a vocação de Deus ultrapassava as possibilidades reais do casal. Abraão já era velho e Sara não podia ter nenê. A primeira proposta de Abraão para tentar uma saída foi a de apresentar Eliezer, seu empregado, como substituto de um (im)possível filho (Gn 15,1-6). Conforme as leis da época, Abraão poderia adotá-lo como filho. O filho de Eliezer seria neto de Abraão, e a promessa de ser pai de um povo estaria garantida, a vocação estaria realizada. No fundo, Abraão não acreditava na promessa. Mas Deus disse: “Eliezer, não! Vai ter que ser filho seu!” (cf. Gn 15,4). É a primeira rasteira. Tudo voltou à estaca zero!
A segunda proposta alternativa à promessa de Deus: Ismael
Para poder crer na sua vocação, Abraão devia crer em Sara, e Sara devia crer em Abraão. Não basta crer em Deus abstratamente. A vocação está ligada a pessoas concretas. A segunda proposta foi a de apresentar Agar, escrava de Sara, para ser mãe do futuro filho (Gn 16,1-16). Novamente, os dois não deram conta de crer em si mesmos nem na vocação. Achavam que a promessa só poderia realizar-se através de Agar, isto é, através do projeto que eles tinham imaginado. Nasceu Ismael, filho de Abraão e Agar. O nome Ismael significa “Deus ouviu!” Através de Ismael, filho de Abraão, o povo estava garantido. Novamente, vem a resposta de Deus: “Ismael, não! Terá que ser filho de Sara!” (Gn 17,15-19). É a segunda rasteira. E novamente, tudo voltou à estaca zero!
A terceira proposta alternativa à promessa de Deus: Isaque
Abraão recebeu a visita de três peregrinos e os recebeu com muita hospitalidade (Gn 18,1-8). Os três diziam que Sara ia ter nenê no ano seguinte. Sara riu (Gn 18,9-15). Abraão também riu (Gn 17,17). Todos rimos, porque não acreditamos em nós mesmos, nem na vocação. Só acreditamos no que nós fazemos para Deus, e não no que Deus é capaz de fazer por nós. Mas finalmente, Abraão consegue crer em Sara, e nasce o filho que recebe o nome de Isaque, o que significa Risada (Gn 21,1-7). De Deus não se ri. Falou, está falado! Podes crer! O nascimento de Isaque clareou o horizonte. Finalmente, o povo estava garantido, a vocação estava realizada. A bênção prometida ia poder irradiar para todas as nações da terra. Mas aqui acontece uma coisa muito sutil. Agora que Isaque nasceu, a esperança de Abraão tem um fundamento concreto e palpável: o filho. E imperceptivelmente o fundamento da esperança passa de Deus que oferece o dom, para o dom oferecido por Deus. E aí a palavra de Deus chega até Abraão: “Vai sacrificar o teu filho Isaque no lugar que eu te mostrar!” (Gn 22,1-2). É a terceira rasteira. Estaca zero de novo. Tudo voltou para antes do começo.
A resposta final à promessa de Deus: a entrega total
Desta vez, Abraão não discute, não diz nada. Ele é obediência muda. Apenas age (Gn 22,3-10). Não se fica sabendo o que ele pensa. O texto não informa. Cada um de nós, lendo o texto e confrontando sua atitude com a de Abraão, deve preencher a informação que falta no texto. No último momento, Deus manda Abraão parar. Não pode sacrificar o filho (Gn 22,11-19). Basta a obediência, interpretada pela carta aos hebreus da seguinte maneira: “Abraão acreditava que Deus é capaz de tirar vida da própria morte”, e acrescenta: “Isso é um símbolo para nós” (Hb 11,17-19). “Abraão acreditou em Deus e isto lhe foi imputado como Justiça, e ele foi chamado amigo de Deus” (Tg 2,23; Rom 4,3; Gn 15,6).
“Isso é um símbolo para nós” (Hb 11,19). Símbolo, modelo, arquétipo! De que maneira? Poderíamos continuar o comentário da carta aos hebreus dizendo: Todos nós, casados ou solteiros, todos e todas temos um Isaque, do qual não abrimos mão, que consideramos o fundamento da nossa vida, e sem o qual não poderíamos imaginar nossa vida. Chegará o dia em que Deus (a vida) pedirá a mesma coisa: Sacrifique esse seu Isaque, para que a esperança seja colocada em Deus, só nele!
Responder à vocação, comprometer-se de fato, é um processo, que ocupa a vida inteira. É fruto de lenta e dolorosa purificação. É como descascar uma cebola. Você tira uma casca, e terá outra casca para tirar. Você grita: “Pare! É o miolo!” E não é o miolo, é casca. Cebola não tem miolo. Só tem casca. E enquanto descasca a cebola você chora. Até descobrir que não temos miolo. Só temos casca, pois não fomos feitos para nós mesmos, mas para Deus e para os outros.
2. O chamado de Moisés
1. Situando o chamado
Grande parte dos livros de Gênesis e Êxodo foi escrita na época do cativeiro ou logo depois. As longas histórias dos patriarcas e matriarcas, do êxodo e dos quarenta anos no deserto eram narradas e foram escritas para ajudar o povo do cativeiro a redescobrir sua missão como povo de Deus. É com esta finalidade que o livro do Êxodo narra a história da vocação de Moisés.
O diálogo do chamado entre Deus e Moisés se prolonga por vários capítulos. É o diálogo do povo do cativeiro com Deus, é o diálogo de todos nós. Nele aparecem as resistências, os medos, os pretextos reais ou imaginários que inventamos para poder escapar da vocação. O diálogo entre Deus e Moisés é um espelho do diálogo que nós travamos com a realidade que nos desafia, com a consciência que nos incomoda, com Deus que nos chama.
Quando as coisas acontecem, a gente nem sempre percebe logo todo o seu significado. Não percebe nem entende logo o apelo ou a vocação de Deus que existe dentro dos fatos, e pode até dar uma resposta errada. Jeremias, por exemplo, ficava devendo a resposta diante da situação de injustiça que se alastrava no país e que o deixava perplexo (Jr 12,1-3). Moisés sentiu um chamado diante do maltrato do seu povo, mas não deu a resposta certa. Sem refletir, matou um egípcio e teve que fugir (Ex 2,11-15). Demorou quarenta anos (cf. At 7,23.30; Ex 7,7) até ele sentir de novo o chamado vindo do povo (Ex 3,7-10). O claro e o escuro convivem na pessoa chamada. A Palavra que chama é, ao mesmo tempo, fonte de alegria e de angústia (Jer 15,15-16; 20,7-18).
A raiz desta contradição aparente está não só nas contradições da vida e da situação social, mas também na natureza do chamado que vem de Deus. A certeza que a experiência de Deus nos transmite é aceita na fé e nem sempre se traduz em certeza humana de nível psicológico. A certeza que Deus comunica é uma só: "Va! Estou com você!" (Jr 1,8; Ex 3,12). Ela não faz a pessoa chamada ficar mais inteligente ou mais perspicaz, não muda o seu caráter, nem aumenta o grau do seu conhecimento. Ela é como a luz do sol que de repente ilumina tudo, transformando tudo, sem mudar nada. Ela ajuda o chamado a relativizar tudo em função do único absoluto que é Deus e a vida do povo, ambos fonte da sua vocação e missão.
2. O chamado
É no contexto deste diálogo, que a Bíblia, em seis versículos (Ex 3,10-15), explica o significado do nome JAVÉ como sendo o fundamento último da nossa vocação. Estes seis versos têm uma densidade teológica muito grande. Refletem a nova experiência de Deus que o povo foi adquirindo naqueles anos difíceis do cativeiro. Explicam a importância do nome JAVÉ para a aceitação e realização da vocação que recebemos. Em hebraico, o nome JAVÉ é escrito com estas quatro letras JHWH. Eis em gráfico esquemático o texto abreviado de Êxodo 3,10-15:

Eu te envio a Faraó para fazer sair meu povo (Ex 3,10)
Quem sou eu para ir ao faraó? (Ex 3,11)
Va! Estou com você! (Ex 3,12)
O povo vai perguntar: Qual o seu nome? (Ex 3,13)
Estou que estou! (Ex 3,14) Reafirma a expressão anterior: Estou com você
Assim dirás: Estou me mandou. (Ex 3,14) Estou repete e abrevia Estou que Estou
Assim dirás: Está me mandou. (Ex 3,15). Está em hebraico se escreve JHWH ou JHJH
Este é o meu nome para sempre (Ex 3,15) O nome é JHWH, o que significa Estou com você
Assim serei invocado de geração em geração. (Ex 3,15)
O texto utiliza um jogo de palavras para comunicar o significado profundo do nome Javé, JHWH. Este nome é muito antigo de origem desconhecida, mas no diálogo de Deus com Moisés o nome antigo é associado com a promessa divina Estou com você. Moisés não crê nesta promessa. Por isso, repetindo o mesmo verbo Deus reafirma a promessa e diz: Estou que Estou. Ou seja: “Certissimamente estou com você, Moisés! Disso você não pode duvidar”. Em seguida, Deus abrevia a mesma expressão para sua forma reduzida e diz Estou. No fim, o texto passa da primeira pessoa singular do verbo (Estou) para a terceira pessoa do mesmo verbo e diz Está. Em hebraico, a terceira pessoa singular do verbo estar se escreve JHJH ou, às vezes, JHWH, o que é igual ao nome de Deus. Assim, o nome JHWH é explicada aqui como sendo a afirmação categórica da parte de Deus de que Ele está sempre conosco: Estou com você. E termina dizendo que é sob este nome JHWH que Ele quer ser invocado, de geração em geração. Deus já não quer ter outro nome, a não ser este: JHWH ou JAVÉ, que significa: Estou com você, Estou que Estou, Tô que Tô, Ele está no meio de nós, Deus conosco, Emanuel! O nome é a expressão do compromisso que Deus assumiu com o seu povo de estar sempre no meio dele para libertá-lo da opressão.
3. As resistências
O diálogo entre Deus e Moisés (de Ex 3,1 a 4,18) é o diálogo de todos nós. Moisés resiste à vocação porque tem medo. Mas ele não fala claramente. Disfarça o medo atrás de outros motivos e pretextos. Mas cada vez de novo, Deus desfaz a racionalização e desmascara o pretexto.
Primeiro pretexto: humildade: “Quem sou eu?”
Moisés apresenta humildade para esconder o medo: Quem sou eu para ir ao faraó? Deus poderia ter respon­dido: “Não, Moisés! Você é capaz. Você se formou na escola do faraó. Você tem diploma! Tem capacidade, poder e formação suficientes!” (cf. Ex 11,3; At 7,22). Mas Deus não responde ao pretexto. Ele vai direto ao motivo verdadeiro que era o medo, e diz: “Estou com você!” Aqui, nestas três palavras Moisés recebe a confirmação básica da sua vocação. Deus não oferece dinheiro nem armas, nem diploma. Apenas diz: “Va! Estou com você!” Nada mais. Não existe uma garantia mágica que me dê certeza sensível de que Deus está comigo. O único acesso a Deus é a entrega total na fé. É crer que ele está conosco, comigo! Se eu tiver a coragem de me entregar e de deixar Deus ser Deus na minha vida, poderei ter a certeza absoluta da presença libertadora de Deus na minha vida.
Segundo pretexto: ignorância: “Qual o nome?”
Moisés não se dá por vencido, e busca um outro pretexto. Ele imagina que o povo vai perguntar pelo nome de Deus. Este segundo motivo é real, tem fundamento. Pois eles já estavam 400 anos no Egito e Deus nunca tinha mostrado a sua presença. Deixou que sofressem por quatro séculos! E agora de repente aparece Moisés dizendo que Deus o enviou para libertar o povo. Para o povo Deus já não tinha nome, já não existia, não representava mais nada. A pergunta pelo nome também revela o desejo de poder manipular a divindade através do uso mágico do nome.
Na realidade, o problema não era o nome de Deus, mas era o próprio Moisés que não conseguia crer na promessa divina Estou com você! Novamente, a resposta de Deus não se dirige ao pretexto do nome inventado por Moisés, pois Deus não responde: “Meu nome é Javé”. Ele se dirige ao pretexto, à falta de fé e de confiança de Moisés. Dizendo Estou que Estou, Deus simplesmente está repetindo o que já havia dito anteriormente: “Estou com você!” Tô que Tô! Ou seja, ele reafirma de maneira categórica: ”Certissimamente estou com você!” Em seguida, abreviando a mesma expressão, ele diz: “Estou me mandou”. Quando Deus fala de si mesmo ele usa a primeira pessoa singular e diz “Estou”. Quando nós falamos a respeito de Deus, usamos a terceira pessoa singular e dizemos: “Está”. Em hebraico a palavra Está se escreve JHJH ou JHWH. O nome antigo recebe aqui um significado novo de grande alcança. A certeza de fé que o nome Javé comunica à toda pessoa chamada é esta: “Certissimamente estou com você!” Esta é a certeza maior, o centro da nossa fé, o eixo da Bíblia. Só no Antigo Testamento o nome Javé aparece mais de 7000 vezes. Cantado e contado, em prosa e verso, de mil maneiras , em todas as tonalidades e formas literárias.
Terceiro pretexto: a falta de fé dos outros: “Não vão crer em mim!”
Mas Moisés (o povo do cativeiro, todos nós) não está convencido e vem com outra dificuldade: “E se não acreditarem em mim, o que é que vou fazer?” (cf. Ex 4,1). Moisés esconde o medo e a falta de fé atrás da pretensa falta de fé do povo: “O povo não vai acreditar em mim!” Na realidade, quem não acreditava, não era o povo, mas sim o próprio Moisés. Em resposta, Deus o faz realizar três sinais milagrosos: mudar o bastão em serpente (Ex 4,2-5), fazer a mão ficar cheia de lepra (Ex 4,6-8) e mudar a água do rio em sangue (Ex 4,9). Trata-se de histórias bem populares para mostrar a Moisés que ele não podia ter esse pretexto para escapar da vocação. Era para ajudá-lo a crer no chamado.
Quarto pretexto: incapacidade física: “Sou gago, não sei falar”.
Moisés inventa outra dificuldade: “Meu Senhor, eu não tenho facilidade para falar!” (Ex 4,10; 6,30). Deus desfaz o argumento, pois ele é o criador da boca dos homens (Ex 4,11-12). Não tem cabimento inventar este pretexto do defeito no falar junto ao Criador da boca dos homens!
Motivo verdadeiro: “Não quero, mande um outro!”
Moisés insiste: “Não, meu Senhor, mande a quem quiser!” (Ex 4,13). Ou seja, mande a quem quiser, mas não a mim. Aqui Moisés falou claro. Deixou de esconder-se atrás de pretextos e refúgios e, finalmente, disse aquilo que estava no fundo da sua alma: “Não quero! Mande um outro!” E Deus também falou claro expressando novamente a sua vontade com relação à missão de Moisés: E você vai! Pode levar Aarão com você, que tem língua boa para falar! (Ex 4,14-17; 7,1-2).
A resposta final de Moisés: aceitou a vocação
Moisés aceitou a vontade de Deus, foi para casa e disse ao sogro: “Vou voltar para o Egito para ver se meus irmãos ainda vivem”. O sogro respondeu: “Vai em paz!” (Ex 4,18).
O que teria acontecido se Moisés não tivesse ido? Talvez tivesse sido um bom executivo do faraó, um devoto fiel do Deus Rá, divindade suprema do sistema piramidal do Egito. Talvez tivesse recebido, depois da sua morte, uma pequena pirâmide como sepultura, e os arqueólogos do século XXI talvez o descobrissem, mas nós não estaríamos aqui para participar deste curso do CESEP. A história teria tomado um outro rumo.
3. O chamado de Elias
1. Situando o chamado
Século VI antes de Cristo. O povo está no cativeiro da Babilônia e tenta reler as grandes figuras do passado para encontrar nelas algumas luz para clarear a escuridão em que se encontravam. Uma luz foi encontrada na releitura da história do profeta Elias, que viveu no século IX antes de Cristo no tempo do rei Acab e da rainha Jezabel (cf. 1Rs 17 a 21). Eles olhavam não só o lado exterior e grandioso deste grande profeta, mas também e sobretudo o lado interior e escondido das suas crises e dúvidas. O estado de depressão em que Elias ficou ao fugir diante da ameaça da rainha Jezabel era um espelho da situação deles mesmos no cativeiro e de muitos de nós:
“Elias sentou-se debaixo de uma árvore e desejou a morte, dizendo: "Chega, Javé! Tira a minha vida, porque não sou melhor que meus pais". Deitou-se debaixo da árvore e dormiu. Então um anjo o tocou e lhe disse: "Levante-se e coma". Elias abriu os olhos e viu bem perto da cabeça um pão assado sobre pedras quentes, e uma jarra de água. Comeu, bebeu e deitou-se outra vez”. (1Rs 19,2-6)
Elias só quer comer, beber e dormir. Como muitos dos exilados na Babilônia, Elias tinha perdido o sentido da vida. O anjo voltou uma segunda vez e, finalmente, Elias desperta, reencontra a força e caminha, quarenta dias e quarenta noites, até chegar no Monte Horeb (1Rs 19,4-8), onde, séculos antes, naquele mesmo lugar, havia nascido o povo de Deus (Ex 19,1-8). Elias volta às raízes! Era esta a caminhada que o povo do cativeiro devia fazer: voltar às raízes para poder redescobrir e reabastecer a vocação! Hoje existem muitos anjos e anjas a bater na porta do nosso coração para nos acordar e fazer assumir a vocação.
No Monte Horeb, Deus o interpela:
“Elias, que fazes aqui?” Ele responde: “Eu me consumo de zelo pela causa do Senhor, pois os filhos de Israel abandonaram a aliança, derrubaram os altares e mataram os profetas. Fiquei só eu e até a mim eles querem matar!” (1Rs 19,10.14).
Existe uma contradição entre o discurso e a prática. Conforme o discurso Elias é o único que sobrou; mas na prática havia sete mil que não tinham dobrado o joelho diante de Baal (1Rs 19,18). Conforme o discurso Elias está cheio de zelo; mas a prática mostra um homem medroso que foge (1Rs 19,3). Conforme o discurso ele sabe analisar o fracasso da nação; mas na prática não sabe analisar o seu próprio fracasso, pois nem percebe a presença do anjo.
2. O chamado
O olhar de Elias estava perturbado por algum defeito que o impedia de avaliar a situação com objetividade e de perceber a vocação de Deus. Não é que ele tivesse perdido a fé, mas já não sabia como enfrentar a realidade nova com a fé antiga. Havia algo de comum entre Elias e seus perseguidores: ambos matavam em nome de Deus! Foi em nome de deus (Javé) que Elias matou os 450 profetas de Baal (1Rs 18,40). Foi em nome de deus (Baal) que Jezabel matou os profetas de Javé. Havia algo de errado na imagem de Deus que animava Elias na sua luta contra Baal. Por isso, seu olhar estava perturbado, incapaz de avaliar a situação com objetividade.
Como descobrir os enganos que nos impedem de perceber a vocação, o chamado de Deus? Qual a imagem de Deus que deveria estar hoje em nós? Esta era e continua sendo a pergunta fundamental. A resposta é dada em seguida na história da Brisa Leve.
Descobrir os enganos, os caminhos errados
Elias recebe a ordem: “Saia e fique no alto da montanha, diante de Javé, pois Javé vai passar!” (1Rs 19,11). Elias sai da gruta e se prepara para o encontro com Deus. Momento solene! No passado, naquela mesma Montanha, Deus manifestara sua presença no furacão, no terremoto e no fogo (Ex 19,16). Estes sinais tradicionais da presença de Deus eram os critérios que orientavam Elias na sua busca. Mas acontece o inesperado: Deus já não está no furacão, nem no terremoto, nem mesmo no fogo que, pouco antes, lá no Monte Carmelo, havia sido o grande sinal da presença divina a queimar o sacrifício diante de todo o povo (1Rs 18,38). Parece até um refrão que chama a atenção: “Javé não estava no furacão!” – “Javé não estava no terremoto!” – “Javé não estava no fogo!” (1Rs 19,11-12) Os sinais tradicionais da presença de Deus eram lâmpadas apagadas. Bonitas para ver, mas sem luz! Deixaram Elias no escuro! Elias vivia no passado! Deus já não era como ele, Elias, e tantos outros no cativeiro o imaginavam e desejavam.
É a desintegração do mundo de Elias: espelho da desintegração da vida do povo no cativeiro depois que Nabucodonosor mandara destruir os sinais tradicionais da presença de Deus: o templo, o rei, a posse da terra. Caiu tudo! A imagem que Elias (o povo do cativeiro) tinha de Deus quebrou em mil pedaços. É o silêncio de Deus! Na língua hebraica, este silêncio, é expresso com as seguintes palavras: “voz de calmaria suave”, (qôl demamáh daqqáh). As traduções costumam dizer: “Murmúrio de uma brisa suave” Mas a palavra hebraica, usada para indicar a calmaria, vem da raiz DMH, que significa parar, ficar imóvel, emudecer. O “murmúrio de uma brisa suave”, que veio depois do furacão, terremoto e fogo, indica uma experiência, que, como um golpe suave e inesperado, faz a pessoa ficar calada, cria nela um vazio e, assim, a dispõe para escutar. É puxão de orelha, tapa na cara! Mesmo dado com suavidade, não deixa de ser tapa! Tapa que desperta, quebra a ilusão irreal e faz a pessoa colocar o pé no chão. Na realidade, a brisa suave, o tapa na cara, era o próprio exílio que tinha destruído tudo e obrigava o povo a uma conversão radical.
A resposta final de Elias
Elias cobre o rosto com o manto (1Rs 19,13). Sinal de que tinha descoberto a presença do apelo de Deus naquilo que parecia ser a sua ausência! Despertou! Aprendeu a lição! A situação de derrota, de morte e de secularização em que se encontrava o povo no cativeiro é percebida por ele como sendo o momento e o lugar onde Deus o atinge. A escuridão iluminou-se por dentro e a noite ficou mais clara que o dia (Sl 139,12). Deus se fez presente na ausência para além de todas as representações e imagens! Escuridão luminosa! Não é a luz no fim do túnel, mas sim a luz que já existia na escuridão do próprio túnel e que Elias não enxergava. É uma luz diferente.
A experiência de Deus na Brisa Leve dá olhos novos e produz uma mudança radical. Elias descobre que não é ele, Elias, que defende a Deus, mas é Deus quem defende a Elias. É a sua conversão e libertação! Reencontrando-se com Deus, encontrou-se consigo mesmo e com a sua missão. Descobriu sua vocação lá, onde pensava que Deus não tivesse nada a dizer-lhe! Imediatamente, ele parte para cumprir as ordens de Deus. Uma delas é ungir Eliseu como profeta em seu lugar (1Rs 19,16). Renasce a profecia! A luta pela justiça renasce da experiência da gratuidade.
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Perguntas para ajudar na reflexão e na assimilação do assunto:
1. O que mais chamou sua atenção na vocação de Sara e Abraão, de Moisés e de Elias? Por que?
2. O que mais atrapalha a você na realização da sua vocação:
* a falta de fé ou de confiança? (Abraão e Sara)
* o medo? (Moisés)
* idéia errada da vocação e de Deus? (Elias)
3 Qual o tapa na cara de que hoje estamos precisando ou que já estamos recebendo e ainda não percebemos?
4. Quais as idéias erradas sobre Deus que hoje nos desviam do caminho e nos impedem de descobrir nossa vocação?
III
IMAGEM DE DEUS E DESCOBERTA DA VOCAÇÃO
Na parábola do bom samaritano, a mesma situação do homem assaltado e meio morto à beira da estrada fez um apelo a três pessoas diferentes: sacerdote, levita e samaritano. A resposta não foi a mesma. Imagine um membro do MST e um arauto de Cristo, confrontados com o mesmo fato: uma invasão de terra que resultou em duas mortes e quatro feridos. Responderão do mesmo jeito? Não responderão. Por que? Dependendo da posição social e da imagem que as pessoas se fazem de Deus, elas reagem diferentemente diante dos apelos ou da vocação que vêm dos fatos da vida.
Vamos ver como as pessoas e os grupos reagiram diante da vocação que lhes vinha da situação de fracasso do cativeiro. É para que nós, quando confrontados com os fracassos e problemas, tanto da nossa história pessoal, como da história da Brasil, da Igreja, da família, da comunidade, possa discernir a vocação certa e dar a resposta acertada.
1. O fracasso do cativeiro fazendo apelo à consciência do povo
O cativeiro destruiu o quadro das referências que tinham orientado o povo até àquele momento. Os três grandes sinais ou “sacramentos” que tinham sido a garantia visível da presença de Deus no meio deles, foram destruídos! O Templo, morada perpétua de Deus (1Rs 9,3), foi incendiado (2Rs 25,9). A Monarquia, fundada para durar sempre (2Sam 7,16), já não existia (2Rs 25,7). A Terra, cuja posse tinha sido garantida para sempre (Gen 13,15), passou a ser a propriedade dos inimigos, (2Rs 25,12; Jer 39,10; 52,16).
Perdido e sem rumo, provocado pelo fracassos, o povo procurava uma saída que lhe desse segurança e esperança. O que mais pesava era o sentimento do abandono, misturado com um complexo de culpa (Is 40,27; 49,14; Lm 1,8.14). Eles pensavam que, por causa da sua infidelidade, Deus tivesse mudado de atitude e os tivesse rejeitado para sempre (Sl 77,8-11; 79,5). Ele já não estaria escutando o grito do povo (Lam 3,8; Sl 22,2-3). Beco sem saída! Eis o lamento do porta-voz do povo:
"Eu sou o homem que conheceu a dor de perto, sob o chicote da sua ira. Ele (Deus) me conduziu e me fez andar nas trevas e não na luz. Ele volve e revolve contra mim a sua mão, o dia todo. Consumiu minha carne e minha pele, e quebrou os meus ossos. Ao meu redor, armou um cerco de veneno e amargura, e me fez morar nas trevas como os defuntos, enterrados há muito tempo. Cercou-me qual muro sem saída, e acorrentado, me prendeu. Clamar ou gritar não adianta, ele está surdo à minha súplica. .... Fugiu a paz do meu espírito, já não sei mais o que é ser feliz. Eu digo: "Acabaram-se minhas forças e minha esperança que vinham de Javé" (Lam 3,1-8.17-18).
A imagem de Deus que transparece nas entrelinhas deste lamento é a de um carrasco que só quer vingar e machucar. Trágica experiência! Fonte de desespero! Uma experiência de Deus assim não pode ser fonte de vocação para ninguém. Fecha qualquer saída e joga todos no desespero. Como sair desta situação? Como e onde reencontrar Deus? Eram estas as perguntas que agitavam as consciências e as conversas de muita gente. Era este o apelo, a vocação, que os provocava. Qual a resposta acertada?
2. As várias respostas ao apelo de Deus
Apareceram várias respostas. Inicialmente, não eram respostas distintas, separadas umas das outras, mas sim tendências diferentes, misturadas entre si, sem muita clareza, num ambiente de busca e desencontro. Exatamente como hoje!
1. A maioria silenciosa adotou os deuses do império e se acomodou
A maioria dos exilados se acomodou e começou a freqüentar a religião do império da Babilônia. Adotaram os ídolos e o jeito de viver dos grandes. Era a maioria silenciosa! Hoje também, a maioria silenciosa busca o caminho mais cômodo do consumismo, a nova religião do império neoliberal com seus templos grandiosos.
2. Zorobabel e Josué queriam reeditar o passado, mas não conseguiram
Para eles, o fato de estar fora da própria terra era o mesmo que estar longe de Deus! A época dos Reis era o modelo a ser imitado. Queriam reconstruir o passado: o templo, a monarquia e a independência política (Esd 1,2-4; 2,1-2). Deste grupo eram Zorobabel, Josué, o profeta Ageu e outros. Eles voltaram para Palestina em 520 aC, depois que Ciro permitiu o retorno. Hoje, alguns querem de volta da cristandade.
3. Neemias e Esdras: adaptaram o modelo antigo à nova situação
É o grupo das pessoas que conseguiram bons empregos e posições vantajosas na nova pátria, como transparece nas entrelinhas de vários livros (Ne 2,1-9; Esd 7,11-26; Tb 1,12; Es 2,16; 6,10-11; Dn 3,97). Eles achavam que deviam aceitar o domínio do rei estrangeiro e colaborar com ele (Jer 27,6-8.12.17; 42,10-11). Ao mesmo tempo, queriam continuar a ser o povo eleito de Deus. Por isso, insistiam na observância da lei de Deus (Esd 7,26; Ne 8,1-6; 10,29-30) e na pureza da raça que proibia o contato com os outros povos (Esd 9,1-2). Eles atuavam a partir de uma posição de privilégio e de um certo poder frente às outras instituições da convivência humana. O projeto deles tornou-se hegemônico a partir de 445 aC com a vinda de Neemias como encarregado do rei da Pérsia para reorganizar o povo judeu ao redor de Jerusalém. Hoje, em alguns países, a relação igreja-estado às vezes tem características semelhantes: de um lado, abertura frente o poder civil para conseguir favores para a Igreja e, de outro lado, insistência no direito da Igreja de poder viver sua fé publicamente com total liberdade.
4. Discípulos e discípulas de Isaías: movimento de base que encontrou uma saída
Um outro grupo achava que a solução não era voltar ao passado nem acomodar-se no presente, nem adaptar-se às exigências do império, mas sim aprender a ler com outros olhos a nova situação em que se encontravam. Eles se perguntavam: “O que será que Deus nos quer ensinar e o que ele pede de nós, através desta situação tão trágica do cativeiro? Qual agora a nossa vocação” Eles procuravam voltar às origens do povo e reliam as histórias do passado para encontrar nelas uma luz que os ajudasse a redescobrir o chamado de Deus naquela terrível ausência. Foi no meio deste grupo dos discípulos de Isaías que brotou uma nova experiência de Deus, registrada sobretudo nos capítulos 40 a 66 de Isaías. Era um movimento de base, que não chegou a ter um reconhecimento oficial.
São quatro maneiras diferentes de responder ao mesmo desafio do momento histórico. Vamos olhar de perto a resposta que foi dada pelos discípulos e discípulas de Isaías, pois é ela que inspirou e animou a Jesus.
3. A resposta dos discípulos e discípulas de Isaías
A nova imagem de Deus
Como tantos exilados e migrantes de hoje, o único espaço de uma certa autonomia e liberdade que ainda sobrava para eles lá no cativeiro da Babilônia era o espaço familiar: o pai, a mãe, o marido, a esposa, um irmão ou irmã, o mundo pequeno da família, a “casa”. Todo o resto que antes fazia parte da vida já não existia: a organização mais ampla da tribo, a posse da terra, o templo, as peregrinações, o culto, o sacrifício, o sacerdócio, a monarquia. Nada disse tinha sobrado. Ora, foi exatamente nesse espaço reduzido e enfraquecido da família, da comunidade, da “casa”, que eles reencontraram a presença de Deus.
As imagens que eles usavam para expressar e transmitir a nova experiência da presença de Deus na vida refletem bem este ambiente familiar da casa. Deus é apresentada por eles como Pai (Is 63,16; 64,7), como Mãe (Is 46,3; 49,15-16; 66,12-13), como Marido (Is 54,4-5; 62,5), como parente próximo (goêl ou irmão mais velho) (Is 41,14; 43,1). Javé, o Deus que antes estava ligado ao Templo, ao culto oficial, ao sacerdócio, ao clero, à Monarquia, agora está perto deles, “em casa”; casa pequena, quebrada e, humanamente falando, sem futuro, mas Casa, e não Templo. Não usaram as imagens religiosas tradicionais, mas sim as imagens tiradas da vida familiar e comunitária de cada dia. Eles humanizaram a imagem de Deus e sacralizaram a vida, a família, a pequena comunidade, como o espaço do reencontro com Deus. “Realmente, tu és um Deus que se esconde, Deus de Israel, Deus salvador!” (Is 45,15) Ele se esconde e se abriga onde antes ninguém o procurava: em casa, no relacionamento diário familiar e comunitário, no meio do povo exilado e excluído (Is 57,15)!
Dá para entender que a elite dos chefes e dos sacerdotes não gostava muito desta maneira de interpretar e comunicar a presença de Deus. No entanto, aqui está a fonte que suscitou tantas e tantas vocações ao longo daqueles quatro séculos até à chegada do Novo Testamento, e que orientou a Jesus na sua missão junto ao povo!
A resposta à vocação: um novo jeito de trabalhar com o povo
Esta nova experiência de Deus fez com que os discípulos e discípulas de Isaías redescobrissem sua vocação e missão, não mais como um povo eleito, privilegiado, separado dos outros, mas sim como povo eleito por Deus para servir a humanidade (Is 42,1-6; 49,1-6; 50,4-9). E lá mesmo no cativeiro, eles começaram a colocar em prática esta sua vocação ou missão de serviço. A resposta à vocação se traduz numa nova maneira de trabalhar com o povo, numa nova pastoral. Eis três características desta nova pastoral:
Acolher o povo com muita ternura
Para um povo que vive machucado e triste, na solidão do cativeiro, não bastam a imposição de preceitos e as ameaças da lei, não basta nem mesmo a denúncia profética, para que ele levante a cabeça e comece a enxergar a situação com esperança renovada. É necessário, antes de tudo, cuidar das feridas do coração, acolhendo-o com muita ternura e bondade, para que não morra nele a esperança. Os discípulos e as discípulas de Isaías têm uma conversa atenciosa, cheia de ternura e consolo, de acolhimento e encorajamento. As primeiras palavras: “Consolai! Consolai o meu povo!” (Is 40,1) ressoam pelas páginas do livro inteiro, do começo ao fim (Is 49,13; 51,12). “Eles não gritam nem apagam a vela que ainda solta um pouco de fumaça” (Is 42,2-3). Ou seja, machucados, não machucam. Oprimidos pela situação em que se encontram, não oprimem, mas tratam e acolhem o povo com muito respeito e carinho. Usam uma linguagem simples, concreta e direta, numa atitude de ternura nunca vista antes, que funcionava como bálsamo, e dispunha as pessoas para olhar a realidade com mais objetividade. Eis alguns exemplos: Is 54,7-8; 41,9-10; 41,13-14; 40,1-2; 43,1-5; 46,3-4; 49,14-16; etc. Era a maneira de os jovens discípulos e discípulas de Isaías assumirem sua vocação.
Ensinar dialogando em pé de igualdade
Nas entrelinhas dos capítulos 40 a 66, transparece uma atitude de escuta e de diálogo. Os discípulos e discípulas de Isaías ensinam dialogando, em pé de igualdade com o povo. Eles conversam, fazem perguntas, aprendem com o povo, questionam, levam o povo a refletir sobre os fatos (cf Is 40,12-14.21.25-27; etc.). Este jeito de ensinar é próprio de quem se considera discípulo e não dono da verdade (Is 50,4-5). Antes de ser “Mater et Magistra”, a comunidade deve ser “Discípula e Aprendiz”. Um discípulo não absolutiza seu próprio pensamento, nem impõe suas idéias autoritariamente, não é clerical, mas sabe ensinar escutando e aprendendo dos outros. Por este seu jeito de conviver e de tratar com o povo, os discípulos não só falam sobre Deus, mas também o revelam; comunicam algo do que eles mesmos experimentam e vivem. Deus se faz presente nesta atitude de ternura e diálogo. O povo se dá conta de que o Deus dos discípulos é diferente do deus da Babilônia, diferente também da imagem clerical de Deus que eles ainda carregavam na memória, desde os tempos da monarquia, de antes da destruição do Templo, e que o projeto de Neemias e Esdras parecia querer impor outra vez. Assim, aos poucos, os olhos se abrem. O povo começa a perceber algo do novo que estava acontecendo. “Não estão vendo?”(Is 43,19)
Fazer reunião semanal para rezar, meditar e se ajudar
É no período do cativeiro ou logo depois que se começa a insistir novamente na observância do sábado (Is 56,2.4; 58,13-14; 66,23; cf. Gn 2,2-3). Era para que o povo exilado tivesse ao menos um dia por semana para se encontrar, partilhar sua fé, louvar a Deus e, assim, refazer as forças e animar-se mutuamente. É nestas reuniões semanais que eles refrescam a memória (Is 43,26; 46,9), contam as histórias de Noé (Is 54,9-10), de Abraão e Sara (Is 51,1-2), da Criação (Is 45,18-19; 51,12-13), lembram o Êxodo (Is 43,16-17), apontam os fatos da política e perguntam: “Quem é que faz tudo isto?" (Is 41,2). Fazem reunião de noite, fora de casa, e perguntam: “Levantem os olhos para o céu e observem: Quem criou tudo isso?” (Is 40,26). A resposta é sempre a mesma: "É Javé, o Deus do povo, o nosso Deus!".
Assim, aos poucos, a natureza deixa de ser o santuário dos falsos deuses; a história já não é mais decidida pelos opressores do povo; o mundo da política já não é mais o domínio de Nabucodonosor. Por trás de tudo começam a reaparecer os traços do rosto de Javé, o Deus do povo. A natureza, a história e a política deixam de ser estranhos e hostis ao povo e tornam-se aliados dos pobres na sua caminhada como Servo de Deus e “Luz das Nações” (Is 42,6; 49,6). Diante desta presença avassaladora de Deus no mundo, na vida, na história, na política, no próprio povo, os discípulos convocam o povo: "Cegos, olhem! Surdos, ouçam!" (Is 42,18). "Não estão vendo?" (Is 43,19).
Agora, já não é a perseguição que enfraquece a fé, mas sim a fé renovada e esclarecida que enfraquece o poder dos poderosos. A face de Deus reaparece na vida. O povo, animado por esta Boa Notícia, desperta (Is 51,9.17; 52,1), se põe de pé (Is 60,1), começa a cantar (Is 42,10; 49,13; 54,1; 61,10; 63,7) e a resistir (Is 48,20).
Hoje vivemos uma situação semelhante. Grande parte da humanidade vive num terrível cativeiro, desacreditou da fé que recebeu dos pais e adotou a religião do império que é o consumismo. Surgem muitos grupos para reagir em contrário e reafirmar a fé. Mas nem todos pensam e agem na mesma direção. Quais as direções em que as pessoas e os grupos procuram responder ao apelo que lhes vem desta situação? Com qual das tendências você se identifica mais e em qual delas você procura viver e assumir sua vocação?
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Perguntas para ajudar na reflexão e na assimilação do assunto:
1. O que mais chamou sua atenção nesta reflexão sobre a imagem de Deus e a descoberta da vocação? Por que?
2. Qual das quatro respostas predomina hoje na Igreja? Por que?
3. Com qual das quatro respostas você mais se identifica?
* com a maioria silenciosa que se acomoda e adota os costumes do império?
* com os que querem voltar ao passado? (Zorobabel e Josué)
* com os que procuram unir os favores e privilégios do império com as exigências da missão do povo de Deus? (Esdras e Neemias)
* com os que querem descobrir os apelos de Deus na realidade de hoje à luz do que Deus fez no passado? (Discípulos e discípulas de Isaías)
IV
JUVENTUDE E VOCAÇÃO

1. Oséias e Gomer: dois jovens descobrem e assumem sua vocação
1. O contexto do chamado
Século VIII antes de Cristo, Reino de Judá. Naquele tempo, os reis se apresentavam como filhos de Deus, intermediários entre Deus e o povo. Para o povo poder estar bem com Deus devia estar bem com o rei. Os reis exibiam luxo e riqueza como sinal do poder e da grandeza do seu deus (1Rs 5,1-3.6; 9,26-28; 10,1-29). Para obter e manter essa grandeza e poder, eles precisavam de muitos escravos e de muito dinheiro (cf. 1 Sm 8,10-18). E é aqui que entra a manipulação da religião da fertilidade, cuja divindade principal era Baal, nome que significava patrão, dono.
Na opinião do povo, Baal manifestava o seu poder de fertilidade na produção dos alimentos e na reprodução da vida. Era Baal, assim eles pensavam, que fertilizava a terra por meio das chuvas e em nome de Baal se promovia o culto da prostituição sagrada nos pequenos santuários dos “lugares altos”. Era lá que o povo buscava uma intimidade maior com o deus da fertilidade através do contato com prostitutas e prostitutos sagrados. Esta prática religiosa era muito divulgada na Palestina. Existia muito antes da chegada dos israelitas. As ofertas e donativos do povo ao deus Baal eram para o rei. Os filhos e filhas que assim nasciam das prostitutas sagradas aumentavam o número de escravos e escravas do rei. Esta religião infiltrou-se na vivência diária do povo de Deus, foi assumida pelos reis de Israel e acabou sendo norma comum para todos
Neste contexto, viviam os jovens Oséias e sua namorada Gomer. Como todo mundo, os dois cresceram dentro daquele sistema enganador da monarquia de Israel. Foram educados para ver na pessoa do rei o filho preferido de Deus, porta-voz da vontade divina. Como a maioria das moças da época, Gomer, chegando à idade de casar, foi levada para os “lugares altos” da prostituição sagrada, onde foi prostituída, para que gerasse filhos e filhas para o rei. Tornou-se mãe solteira (cf Os 1,2). Em troca recebia comida e roupa para sustentar a família. Da mesma maneira, como a maioria dos rapazes, Oséias freqüentava os “lugares altos”. Chegando à idade de casar, procurou uma moça que pudesse ser sua esposa, e a encontrou entre as moças prostituídas.
Foi nesta situação ambígua que os dois se conheceram, se gostaram, casaram e começaram a conviver como marido e mulher. Ao mesmo tempo, Gomer continuava prestando o seu serviço no “lugar alto” da prostituição sagrada, e Oséias continuava freqüentando o culto de fertilidade. Gomer não era uma prostituta nem uma mulher adúltera ou infiel no sentido que nós damos hoje a estas palavras. Ela era, isto sim, uma moça prostituída, uma das muitas vítimas daquele sistema opressor dos reis que pervertia o sentido da vida, do casamento, da família e da religião.
Esta era a prática comum, aceita por todos como sendo o caminho normal, pois não havia outro jeito nem outro horizonte. Era como a situação de muitas moças de hoje que vivem na prostituição. Elas o fazem não porque gostam ou querem, mas por ser este o único meio que lhes sobrou para ajudar em casa e não morrer de fome. Tanto ontem como hoje, cria-se todo um jeito de pensar e de viver que impede as pessoas de tomarem consciência crítica, e elas acabam achando normal aquilo que, na realidade, é anormal, contrário à vida.
Esta situação geral em que se encontrava o povo já vinha de longe e parecia sem saída (Os 5,4). Mas com Oséias e Gomer aconteceu algo novo que mudou o rumo da história e fez nascer uma nova esperança. Foi a experiência do amor sincero entre os dois que os ajudou a perceber a contradição a que eram obrigados a submeter-se.
2. A lenta e progressiva descoberta da vocação
O drama do casal
Era em nome de Deus que a sociedade os obrigava a praticar a prostituição. Mas, aos poucos, os dois foram se dando conta de que, para eles, já não era possível combinar o serviço ao rei com este amor sincero que os unia e que lhes parecia igualmente um grande dom de Deus. De fato, o amor verdadeiro não consegue conviver com falsidade, mesmo quando esta é manipulada e apresentada como expressão da vontade de Deus. Pois como saber se o filho que nasce era deles mesmos, fruto do seu amor, ou de algum outro visitante do “lugar alto” a quem Gomer devia entregar-se em nome da sua obediência ao Rei e da sua dependência do sistema. Esta era a contradição que os amargurava.
O casal vive este drama. Por ora, os dois não vêem saída, nem vêem claras as coisas. A cabeça, instruída pelo catecismo do rei, dizia uma coisa; o coração, desejoso de viver o amor, dizia outra. Muitos outros casais devem ter experimentado a mesma contradição, sem verem uma saída concreta. Sentiam-se ameaçados no mais profundo da sua vida. Viviam um drama que ameaçava na raiz, tanto o amor que os unia entre si, como o amor que tinham a Deus e ao povo. Como dirá mais tarde o livro de Oséias, tudo parecia contaminado por um “espírito de prostituição” (Os 4,12; 5,4).
Os dois descobrem a mão de Deus no amor que os une
Na mesma medida em que a vivência do amor fazia crescer neles a consciência crítica frente ao sistema do rei e frente à prática da prostituição sagrada, nesta mesma medida Gomer e Oséias foram descobrindo que este amor era uma expressão da presença bondosa e providente de Javé em suas vidas. Refletindo sobre o amor que os unia, os dois descobriram: “Era Javé que nos chamava para o casamento!” Ou como diz o livro de Oseias: “Javé me disse: vai e toma para ti uma mulher da prostituição e filhos da prostituição!” (Os 1,2).
Os dois começam a desconfiar do sistema da religião oficial. O que Deus pedia não eram esses sacrifícios e donativos que se ofereciam nos “lugares altos”, mas sim o amor e o respeito às pessoas: “Quero amor e não sacrifícios; conhecimento de Deus mais do que holocaustos” (Os 6,6). Assim começa a nascer lentamente a vocação, sem muita clareza, no meio das contradições da vida. Mas até chegar a total clareza da vocação, muita água teve que passar baixo da ponte. A vocação profética nasce devagar.
O amor os leva a desconfiar do sistema machista da religião de Baal
Cada vez que Gomer voltava do “lugar alto”, trazendo pão, água, roupa e comida para sustentar a família, e que se encontrava com Oséias, os dois devem ter-se olhado e devem ter sentido que, por mais que o rei dissesse que isto era a expressão da vontade de Deus, eles sentiam que Deus não podia estar de acordo com essa prática. A monarquia apresentava Deus como um Baal, como um patrão, igual ao rei, que se impunha ao povo como dono e proprietário das pessoas, dominando as consciências. Em muitas famílias, o próprio marido começava a comportar-se como um baal, como um patrão, dono e proprietário da mulher. Mandava nela e a mandava ir ao “lugar alto” buscar as coisas para viver e sobreviver com os filhos.
Gomer olhando para Oséias e experimentando o seu amor, se dava conta de que ele não era um baal, um patrão, mas sim um marido, um companheiro. Sentia e experimentava o seu amor e, por isso mesmo, sentia-se valorizada e não dominada nem condenada. Oséias olhando para Gomer e convivendo com ela no dia-a-dia da vida, sentia e experimentava que ela não era nem nunca poderia ser sua propriedade, mas era, isto sim, a sua esposa amada, companheira amiga, igual a ele. Sentia que, mesmo tendo que ir ao “lugar alto”, Gomer não era uma prostituta. Por isso, ele não podia nem queria abandoná-la, mas continuava a amá-la, pois só mesmo o amor seria capaz de devolver a ela e a ele mesmo a consciência da sua dignidade como gente e como filho e filha de Deus.
A experiência da força do amor humano leva à descoberta do amor de Deus
A experiência do amor levou os dois a descobrir não só os enganos da propaganda da monarquia, mas também algo muito simples e, ao mesmo tempo, muito profundo dentro de si mesmos, a saber, a força do amor! O amor os fez renascer. Promovia neles a consciência de gente e de filho e filha de Deus. Em vez de abandonados e prostituídos, sentem-se amados e promovidos. Descobrem que a força do amor pode regenerar uma pessoa a ponto de ela sentir-se como que renascida, apagando nela por completo a consciência anterior de gente dominada, manipulada e prostituída.
E aí nasceu o clarão maior: assim como o amor os ajudava a aceitar-se mutuamente e a renovar o casamento de uma maneira nova, diferente do sistema dos reis, assim era o amor de Deus para como seu povo (Os 3,1). Javé não é um baal, um patrão que oprime e escraviza. Ele ama o seu povo com amor gratuito que ultrapassa tudo. Esta descoberta do amor de Deus é a raiz da vocação profética do casal, ou melhor, é a sua manifestação. A raiz foi a experiência humana do amor entre os dois que levou à descoberta do amor de Deus. O clarão maior do amor de Deus iluminou tudo e os ajudou a reler a história da sua própria vida e da vida do povo. As palavras tão bonitas com que Gomer e Oséias renovaram o seu casamento, são as mesmas que Deus dirige ao seu povo:

“Agora, sou eu que vou seduzi-la, vou levá-la ao deserto e conquistar seu coração. Eu me casarei com você para sempre, me casarei com você na justiça e no direito, no amor e na ternura. Eu me casarei com você na fidelidade e você conhecerá Javé” (Os 2,16.21-22)
Nasce a vocação profética: com Deus na contramão
Oséias e Gomer criam coragem e rompem com o sistema dos reis. De comum acordo, decidem não freqüentar mais o “lugar alto” de prostituição: ”Por um bom tempo você ficará em sua casa para mim, sem se prostituir, sem relação com homem nenhum, e eu farei a mesma coisa por você” (Os 3,3). Eles tomam distância do sistema dos reis para poder refazer a Casa. Mudam o regime familiar para não se prostituir. Pois a Casa, a família, é mais importante que o templo e o “lugar alto”. Começam a viver na contramão da sociedade. Iniciam a ação profética de denúncia contra o sistema enganador dos reis e contra o “espírito de prostituição” que pervertia o sentido da vida do povo.
O povo tinha se afastado de Deus (Os 1,2; 4,12) e o “espírito de prostituição” impedia-o de conhecer a Javé (Os 5,4). O vinho e o licor lhe tiravam a razão (Os 4,11) e ele já não percebia que Javé o dirigia nos caminhos tortuosos da sua vida (Os 2,10; 11,3). Com a boca diziam a Deus: “Nós te conhecemos” (Os 8,2), mas a desintegração de sua vida mostrava que eles rejeitavam o conhecimento (Os 4,6).
Um novo horizonte se abre Gomer e Oséias. O conhecimento de Deus, fruto do aprofundamento do amor humano no amor de Deus, ajudou-os a encontrar saídas para refazer a solidariedade rompida entre as famílias e reconstruir a sociedade de maneira nova, diferente da maneira desastrosa da monarquia que vinha desintegrando o povo. “Nesse dia, - oráculo de Javé - eu responderei ao céu e o céu responderá à terra, a terra responderá ao trigo, ao vinho e ao azeite, e eles responderão a Jezrael. Eu a semearei na terra, terei compaixão da Não-Compadecida e direi ao Não-Meu-Povo: Você é meu povo! E ele responderá: Meu Deus!” (Os 2,23-24).
No momento em que ficou claro para eles o que Deus queria, nasceu neles a coragem para denunciar o sistema e convocar o povo a mudar de vida e de pensamento. O povo deve esforçar-se para conhecer a Javé, então Ele virá tão certo como a luz da aurora (Os 6,3). É hora de voltar para Javé (Os 10,12). Não deve ter sido fácil, pois a denúncia ia contra os interesses da monarquia. Oséias e Gomer são perseguidos (Os 9,8), mas a força que lhes vem da nova experiência de Deus é maior que a ameaça que vem de fora.


2. Jó: porta-voz das aspirações da juventude;
1. O contexto do chamado
Século V antes de Cristo. Naquele tempo, o ensino oficial dizia e repetia: “Sofrimento e pobreza são castigo de Deus. Riqueza e bem-estar, sinais de recompensa divina!” Esta era a imagem da justiça divina que era colocada na cabeça das pessoas, desde pequeno. Esta falsa maneira de representar o relacionamento entre Deus e o ser humano beneficiava os ricos e dava aos pobres e sofredores um complexo de culpa e de inferioridade. Era esta a imagem de Deus que Jó tinha na cabeça, mas não no coração! No coração ele tinha a intuição de que Deus não age assim.
Um teatro
O livro de Jó é uma espécie de teatro, no qual se verbaliza a tensão que, naquela época, estava nascendo entre o ensino oficial da elite e a incipiente consciência rebelde dos sofredores. A sala está cheia de gente. O pano ainda está fechado. Um narrador entra e coloca o público a par do assunto que vai ser debatido no teatro. Ele diz: “Era uma vez, lá longe na terra de Hus, um homem chamado Jó...”(Jó 1,1). Ele conta que Jó era justo e correto, mas por uma intriga de Satan (promotor de acusação) Deus permitiu que Jó caísse na miséria e tivesse todos os sofrimentos possíveis e imagináveis (cf Jó 1,1 a 2,10). Três amigos, Elifaz de Tema, Baldad de Suás e Sofar de Naamat, ouvem falar da desgraça de Jó e vêm para consolá-lo. Chegando perto e vendo aquele sofrimento todo, perdem a fala e ficam em silêncio, sete dias e sete noites (Jó 2,11-13). A esta altura, o narrador sai, o pano abre e lá no palco está Jó, estão os três amigos Elifaz, Baldad e Sofar, mais um jovem, chamado Eliu (Jó 32,1.6). Todos em silêncio, tanto no palco como na sala! É o silêncio de quem não sabe explicar o sofrimento dos pobres inocentes. É o silêncio da expectativa diante do assunto do sofrimento do inocente que vai ser debatido no teatro. O silêncio perdura até hoje, pois ninguém sabe explicar tanto sofrimento dos inocentes pelo mundo inteiro!
Jó, os três amigos e o jovem vão debater o porquê de tanto sofrimento no mundo. O público já sabe que, no caso de Jó, a causa não é o pecado. Os que estão no palco ainda não sabem, mas vão tentar descobri-lo. Assim, o público tem em mãos um critério para verificar exatidão das respostas que vão ser dadas no teatro.
Quem rompe o silêncio é Jó. Um grito horrível: “Maldito o dia em que eu nasci!” (Jó 3,1-3) O povo na sala deve ter levado um susto e, ao mesmo tempo, deve ter sentido um grande alívio. Jó verbaliza o que os sofredores já estavam sentindo, mas ainda não tiveram a coragem de expressar.
O debate
Começa o debate com seus altos e baixos. Jó representa a geração nova, cuja consciência estava começando a se rebelar. Os três amigos representam a visão tradicional, que eles defendem com unhas e dentes. Vão se alternando as intervenções e as réplicas. Dentro de Jó existe um conflito entre a cabeça e o coração, entre a tradição e a consciência. A cabeça de Jó, formada pelo catecismo oficial, dizia: “Você sofre e é pobre, porque cometeu pecado! Deus está te castigando!” Mas o coração lhe dizia: “Deus é injusto comigo, pois não pequei!”. A consciência, mandava rebelar-se contra as injustiças que se cometiam em nome desta falsa imagem de Deus. A cabeça, a tradição, mandavam ficar calado e obedecer, ficar bem quieto e não se rebelar, pois seria desobediência a Deus. O mesmo conflito agitava as pessoas na sala que assistiam ao teatro. Agita a todos nós, até hoje!
Jó não concorda com a imagem de Deus que a tradição comunicava ao povo. Em vez de libertar as pessoas, esta imagem contribuía para manter a situação de opressão em que o povo se encontrava. Ela fazia com que os pobres ficassem com o sentimento de que Deus já não ouvia o seu clamor e de que tinham sido excluídos da sua presença amiga (Jó 24,12). E este é o pior roubo que se pode fazer! Além de roubar deles os bens, roubavam também a presença amiga de Deus! Os pobres ficavam sem nada, sem ninguém neste mundo! (Jó 24,1-12)
No debate, Jó é fiel ao coração e não à cabeça! É fiel à sua vocação! Ele segue a consciência e não a falsa tradição! Acusa e critica os três amigos, que identificam a presença de Deus com o nível econômico das pessoas: “Vocês são capazes de sortear um órfão e vender seu próprio amigo!” (Jó 7,27). Mas nem tudo que Jó diz está certo, pois ele não consegue ver claro. No desespero as pessoas, às vezes, dizem coisas disparates. Desejam até a morte. Veja, por exemplo, o texto de Jó 3,3-26. Leia devagar e pense no sofrimento que está por de trás destas palavras. Você se reconhece neste Jó? Ele existe hoje? Onde e como?
Os três amigos defendem a imagem da justiça de Deus que a Tradição ensinava desde séculos. E a defendem contra os gritos desesperados de Jó. Defendem uma imagem de Deus que eles mesmos receberam dos antepassados: Deus, sendo justo, castiga o mal e recompensa o bem. Por isso, nem tudo que os amigos dizem está errado. Tem muita coisa bonita nas palavras deles, mas nem toda roupa bonita na vitrina da loja serve para o tamanho do meu corpo. Palavra bonita não serve como curativo para ferida aberta. Os três amigos falam bonito a partir da teoria que eles têm na cabeça. Eles não escutam o que Jó tem a dizer. Será que estes amigos ainda existem? Como se manifestam? Às vezes, parece que Jó e os três amigos existem também dentro da gente. O debate do livro de Jó se faz na sociedade, na comunidade e até dentro da gente!
2. A resposta de Jó à vocação que lhe vinha dos fatos
Ao longo do debate com os três amigos, Jó descobre que o problema de fundo não são os três amigos. Estes são meros charlatães, “manipuladores de mentiras” (Jó 13,4). Eles querem “defender a Deus usando mentiras e injustiças” (Jó 13,7). O problema de fundo é a imagem de Deus que a tradição comunica ao povo. Jó quer saber se esta imagem é verdadeira, ou falsa. Se é mesmo o rosto de Deus, ou se é apenas uma máscara que os ricos e os doutores colocaram no rosto de Deus para poder manipular a religião em seu próprio proveito. Jó quer encontrar-se com Deus para saber por experiência direta como Ele é. Quer saber se Deus é conforme aquilo que a “cabeça” e a “tradição” ensinam, ou se é conforme o que o “coração” e a “consciência” sentem e adivinham. Jó quer “discutir com o próprio Deus” (Jó 13,3). Quer que um tribunal de justiça decida entre ele e Deus para saber se ele é ou não é culpado como os três amigos andam dizendo (Jó 23,1-9; 13,13-24). Jó tem muita coragem!
Jó arrisca tudo (Jó 13,14) e vai gritar que é justo e inocente (Jó 6,29). Esta atitude não é orgulho nem falta de humildade. Mas é o sentimento de um homem sincero que quer denunciar a falsidade e a mentira do sistema que usa Deus e a religião para manter uma situação de injustiça.
Depois da longa discussão com os três amigos, entra em cena um jovem, chamado Eliu (Jó 32,1-2). Ele assistiu ao debate e diz que os três amigos não foram capazes de refutar os argumentos de Jó (Jó 32,12). Sendo jovem, deixou os anciãos falar (Jó 32,7-9). Agora, ele vai refutar a Jó, mas a sua longa e monótona argumentação (Jó 33,1 a 37,24) repete os mesmos argumentos dos velhos. Apesar de jovem, ele é mais conservador que os três velhos. É pena! Hoje, às vezes, a gente encontra jovens assim. É pena!
Desesperadamente, Jó refuta os argumentos dos amigos, um depois do outro. Mas não basta refutar os argumentos, não basta rasgar a fotografia antiga que já não presta nem corresponde à realidade. É preciso tirar uma nova fotografia para poder orientar o povo. E para tirar uma nova fotografia, é necessário ter a presença da pessoa. Pouco a pouco, ao longo do penoso debate, uma nova imagem de Deus vai chegando mais perto, anunciando a sua presença amiga na vida de Jó. Através dos nove discursos com seus altos e baixos, a gente percebe que Jó progride na descoberta.
O que o ajudou foi a reflexão sobre a Sabedoria Divina que se manifesta na natureza e na vida (Jó 28,1-28; 38,1 até 41,26). Refletindo sobre os grandes mistérios da vida e da natureza, Jó experimenta Deus de perto e descobre que Deus é maior do que a doutrina dos três amigos, maior que o falso deus dos ricos, maior também que as idéias do próprio Jó a respeito de Deus. Existe algo de trágico em toda esta discussão de Jó com os três amigos. É a vocação que lhe vem do “coração” e da “consciência” que o empurram a rebelar-se e a gritar. Mas é a “cabeça” e a “tradição” que lhe inspiram as palavras. Ele não tem outras. Por isso, ele grita contra Deus o tempo todo. Na realidade, se ele grita contra Deus, não é contra o Deus que sobe de dentro do seu coração, mas é contra o Deus que os três amigos defendem. Jó briga é com esta falsa imagem de Deus e é isto que ele expressa no fim do debate. A frase final é a chave de ouro que explica tudo. Jó se dirige a Deus e diz: “Eu te conhecia só de ouvir falar de Ti, mas agora meus olhas te viram. Por isso me retrato e me arrependo sobre pó e cinza” (Jó 42,4-6).
Jó teve uma nova experiência de Deus e descobriu que a sua rebelião e luta não eram contra Deus, mas sim contra aquela imagem de Deus que falsificava a consciência das pessoas, destruía a convivência e estava atrapalhando a ele em tudo (Jó 10,1-7; 16,7-14). Jó renasceu! Ao descobrir que o verdadeiro Deus não era nada daquilo que os amigos ensinavam, Jó cai em si e diz: “Por isso eu me retrato e me arrependo, sobre pó e cinza” (Jó 42,6).
Neste momento, o pano fecha, o teatro termina e entra novamente o narrador para dar, em nome de Deus, a sentença final. Ele diz a Elifaz: "Estou irritado contra você e seus dois companheiros, porque vocês não falaram corretamente de mim como falou o meu servo Jó” (Jó 42,7). Esta sentença final traz uma surpresa trágica e esperançosa: os três amigos que defenderam a Deus o tempo todo, falaram mal de Deus; Jó que atacou a Deus o tempo todo, falou bem de Deus! Assim, nem sempre os que se apresentam como defensores da verdadeira doutrina falam corretamente do Deus verdadeiro. Nem sempre os que são desaprovados por criticarem a maneira tradicional de apresentar a imagem de Deus e de Jesus, são desaprovados por Deus.
No fim, o livro de Jó deixa uma pergunta em todos nós: “O que será que Jó descobriu a respeito de Deus? Qual foi a nova experiência?” O texto não responde, mas sugere: “Se você quiser saber o que Jó descobriu, percorra o mesmo caminho que ele percorreu!” Esta é a maneira típica dos sábios de orientar as pessoas no discernimento da sua vocação. Não fazem saber, mas fazem descobrir. Não dão tudo trocado em miúdo, mas apontam um caminho. Qual a imagem de Deus que a igreja comunicou ao povo ao longo dos séculos e que agora está sendo questionada pelo Jó de hoje?
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Perguntas para ajudar na reflexão e na assimilação do assunto:
1. O que mais chamou sua atenção na vocação dos jovens Oséias e Gomer? Por que?
2. Conhece algum casal profético hoje? Onde e como?
3. O que mais chamou a sua atenção na atitude de Jó? Por que?
4. Jó existe hoje? Aonde e como? Dentro de você existe um Jó?
V
CHAMADO POR DEUS, JESUS É FIEL À SUA VOCAÇÃO
1. Jesus deixou a vocação de Deus entrar dentro de si e tomar conta de tudo
A experiência de Deus como Pai é a raiz da consciência que Jesus tinha de si mesmo, da sua missão e do anúncio que fazia do Reino. Jesus chegou a identificar-se em tudo com a vontade de Deus: “Eu faço sempre o que o Pai me manda fazer” (Jo 12,50). “O meu alimento é fazer a vontade do Pai” (Jo 4,34). Por isso, Jesus é a revelação do Pai: “Quem vê a mim vê o Pai!” (Jo 14,9).
Jesus foi fiel ao Pai e aos pobres da sua terra. Ele nasceu pobre e escolheu ficar do lado dos pobres. Nascer pobre é algo que a pessoa não escolhe. Escolher ficar do lado dos pobres é opção pessoal, resposta à vocação. Com a capacidade e a inteligência que tinha, Jesus não teria tido dificuldade para sair da pobreza. Mas nunca tentou uma saída individual, só para si. Continuou solidário com os pobres. Conheceu a pobreza pelo lado de dentro. Esvaziou-se e foi esvaziado (Fil 2,7). Experimentou a fraqueza na hora da agonia, e o abandono na hora da morte (Mc 15,34). O abandono ao qual eram condenados os pobres! Morreu soltando o grito dos pobres (Mc 15,37), certo de ser ouvido pelo Pai que escuta o clamor do pobre (Ex 2,24; 3,7). Por isso, Deus o exaltou (Fl 2,9)!
A encarnação de Jesus foi um longo processo de aprendizado e de formação. Começou com o Sim de Maria (Lc 1,38) e terminou com o último Sim de Jesus na hora da morte. Fazer a vontade do Pai e cumprir a missão era o eixo da vida de Jesus, o seu alimento diário (Jo 4,34). "Ao entrar no mundo ele afirmou: “Eis me aqui! Eu vim, ó Deus, para fazer a tua vonta­de!" (Hb 10,5.7). Ao deixar o mundo, ele faz revisão e diz: "Tudo está realizado!" (Jo 19,30). Jesus se deixou moldar pelo Pai a cada momento da sua vida. Não foi fácil. Jesus lutou para ser fiel ao Pai, à vocação. "Embora sendo Filho de Deus, aprendeu a obediência através de seus sofrimentos" (Hb 5,8). Teve que rezar muito para poder vencer (Hb 5,7; Lc 22,41-46). Mas venceu!
A comunhão entre Jesus e o Pai não era automática, mas sim fruto de uma luta que Jesus travava dentro de si para obedecer ao Pai em tudo e estar sempre unido a Ele. Jesus dizia: "Por mim mesmo nada posso fazer: eu julgo segundo o que ouço" (Jo 5,30). "O Filho por si mesmo nada pode fazer, mas só aquilo que vê o Pai fazer" (Jo 5,19)". Ele teve momentos difíceis, em que gritou: “Afasta de mim este cálice!” (Mc 14,36). Teve que pedir a ajuda dos amigos (Mt 26,38.40). Mas venceu por meio da oração (Lc 22,41-44). Como diz a carta aos Hebreus: “Durante a sua vida na terra, Cristo fez orações e súplicas a Deus, em alta voz e com lágrimas, ao Deus que podia salvá-lo da morte. E Deus o escutou, porque ele foi submisso. Embora sendo Filho de Deus, aprendeu a ser obediente através de seus sofrimentos. E, depois de perfeito, tornou-se a fonte da salvação eterna para todos aqueles que lhe obedecem”. (Hb 5,7-9) Jesus tornou-se para nós revelação e manifestação de Deus.
2. A resposta à vocação: Jesus revela Deus no jeito de trabalhar com o povo
A obediência de Jesus não é disciplinar, mas profética, reveladora do Pai. Ela deu a ele olhos novos para perceber a presença do Reino no meio do povo. O Reino já estava aí, mas ninguém o percebia (Lc 17,20-21). Jesus o percebia e o revelava (Mt 16,1-3). Ele via o tempo maduro, o campo branco para a colheita (Jo 4,35).
A Boa Nova do Reino era como um fertilizante que fazia a semente da vida brotar e crescer. O Reino que estava escondido apareceu em Jesus e o povo se alegrou. Pelo seu jeito de ser e de ensinar, Jesus despertava no povo a força adormecida do Reino que o próprio povo não conhecia ou tinha esquecido. Jesus desobstruiu o acesso à fonte dentro das pessoas, e a água começou a jorrar de dentro (Jo 4,14). Assim, muitas pessoas, através da fé em Jesus, despertavam para uma vida nova. Mas em Nazaré, por causa da incredulidade do povo, Jesus não pôde fazer nenhum milagre! (Mc 6,5-6)
Inspirando-se nos escritos dos discípulos de Isaías, Jesus entendia sua missão como um serviço: “Não vim para ser servido mas para servir” (Mc 10,45). Para apresentar seu programa ao povo usou uma frase do Servo de Deus, anunciado por Isaías (Lc 4,17-18; Is 61,1-2). Como os discípulos de Isaías, Jesus não só falava sobre Deus, mas também o revelava. Comunicava algo do que ele mesmo experimentava e vivia.
O que mais chama a atenção é a bondade com que Jesus acolhia o povo (Mc 6,34; 8,2; 10,14; Mt 11,28-29). Deus se fazia presente nesta atitude de ternura acolhedora. Jesus valorizava as pessoas e as estimulava a se firmar e ter confiança em si. Elogiou o escriba quando este chegou a entender que o amor a Deus e ao próximo eram o centro da Lei de Deus, e lhe disse: “Você não está longe do reino!” (Mc 12, 34). Animou a Jairo (Mc 5,36), confirmou a mulher do fluxo de sangue (Mc 5,34), encorajou o cego Bartimeu (Mc 10,49-52) e o pai do menino epilético (Mc 9,23-24), revelou o valor da ação aparentemente nula da viúva (Mc 12,41-44).
Sua atitude livre e libertadora contaminava os discípulos e levava-os a transgredirem normas caducas. Por exemplo, quando estavam com fome, eles colhiam espigas, mesmo em dia de sábado (Mt 12,1); não lavavam as mãos antes de comer (Mc 7,5); entravam nas casas dos pecadores e comiam com eles (Mc 2,15-17); não faziam jejum como era costume entre os judeus (Mc 2,18).
Como os discípulos de Isaías, Jesus tinha um jeito próprio de ensinar. Ele não era do clero, não era da tribo de Levi. Era leigo. Não tinha estudado na escola dos doutores em Jerusalém. Só uma vez tinha estado com eles, aos doze anos, por ocasião da romaria (Lc 2,46). Jesus não absolutizava seu próprio pensamento. Ele sabia escutar o apelo do Pai nas reações das pessoas. Assim, a reação da mulher Cananéia ajudou-o a descobrir que devia abrir sua missão para os pagãos (Mt 15,21-28). Jesus não impunha suas idéias autoritariamente, mas através de parábolas provocava a participação do povo. O povo percebia a diferença e dizia: “Ele ensina como quem tem autoridade e não como os escribas e os fariseus” (Mc 1,22.27). Parece até uma ironia! Os escribas, quando ensinavam, repetiam sentenças das autoridades, mas para o povo não tinham autoridade. Jesus, que nunca citou autoridade alguma, falava com autoridade! O clero da época só tinha poder, não tinha autoridade!
3. Irradia sua vocação: reconstrói a comunidade, imagem do rosto de Deus
O ponto em que Jesus mais insiste é a reconstrução da vida comunitária. O objetivo do anúncio do Reino é refazer o tecido das relações humanas, reconstruir a comunidade, imagem do rosto de Deus (Ml 3,24; Eclo 48,10; Lc 1,17). Todo o resto, as leis, as normas, as imagens, a doutrina, o catecismo, tudo deve estar a serviço deste valor central, expressão da igualdade dos dois amores: a Deus e ao próximo. Este é o sentido do Sermão da Montanha (Mt 5,17-48). Pois, se Deus é pai, somos todos irmãos e irmãs. A Comunidade deve ser a revelação do rosto acolhedor e amoroso de Deus, transformado em Boa Nova para o povo, sobretudo para os pobres.
No tempo de Jesus havia vários movimentos que procuravam uma nova maneira de viver e conviver: essênios, fariseus e, mais tarde, os zelotes. Muitos deles formavam comunidades de discípulos e tinham seus missionários (Mt 23,15). Quando estes iam em missão, iam prevenidos. Levavam sacola e dinheiro para cuidar da sua própria comida, pois não podiam confiar na comida do povo que nem sempre era ritualmente “pura”. As normas da pureza dificultavam a acolhida, a partilha, a comunhão de mesa e a hospitalidade, as quatro colunas ou pilares da vida comunitária.
Ao contrário dos outros missionários, os discípulos e as discípulas de Jesus, quando vão em missão, não podem levar nada, nem bolsa, nem sacola, nem ouro nem prata, nem cobre, nem dinheiro, nem bastão, nem cajado, nem sandálias, nem sequer duas túnicas (Mt 10,9-10; Mc 6,8; Lc 10,4). A única coisa que podem levar é a paz (Lc 10,5). O missionário vai sem nada, porque deve acreditar que vai ser recebido. Sua atitude provoca no povo o gesto evangélico da hospitalidade (Lc 9,4; 10,5-6). Eles devem ficar hospedados na primeira casa em que forem acolhidos. Não podem andar de casa em casa, mas devem conviver de maneira estável e, em troca, recebem sustento, “pois o operário merece o seu salário” (Lc 10,7). Ou seja, devem integrar-se na vida e no trabalho da comunidade local, no clã, e confiar na partilha. Não podem levar sua própria comida, mas devem comer o que o povo lhes oferece (Lc 10,8). Isto é, devem aceitar a comunhão de mesa, e não podem ter medo de perder a pureza no contato com o povo. A convivência fraterna é um valor evangélico que prevalece sobre a observância das normas rituais. Como tarefa especial devem praticar a acolhida e cuidar dos excluídos: doentes, possessos, leprosos (Lc 10,9; Mt 10,8). Isto é, devem exercer a função do Go´êl : acolher os excluídos para dentro da comunidade e refazer a vida comunitária do clã.
Caso todas estas exigências forem preenchidas, poderão gritar aos quatro ventos: “O Reino chegou!” (cf. Lc 10,1-12; 9,1-6; Mc 6,7-13; Mt 10,6-16). Pois o Reino não é uma doutrina ou uma lista de normas morais, nem um catecismo ou um direito canônico, mas sim uma nova maneira de viver e conviver, nascida da Boa Nova que Jesus nos trouxe de que Deus é Pai e todos somos irmãos e irmãs uns dos outros. Devem recriar e reforçar a comunidade local, o clã, a “casa”, para que possa ser novamente uma expressão da Aliança, do Reino, do amor de Deus como Pai que faz de todos irmãos e irmãs.
4. Vocação como fonte de consciência e de resistência
A simpatia do povo por Jesus ia crescendo a ponto de provocar medo nos líderes (Mc 11,18. 32; 12,12; 14,2). O povo, antes tão submisso, crescia em consciência, escapava do controle da “grande disciplina” e criava dentro de si maior consciência e liberdade frente ao poder religioso que o oprimia. Graças à Boa Nova de Jesus, o povo começava a ser ele mesmo! Incomodados, os líderes se organizaram para eliminar o perigo e começaram a perseguir Jesus. Como o Servo de Isaías, Jesus, não voltou atrás, não recuou. Continuou fiel ao Pai e ao povo marginalizado até à morte e morte de cruz. Eis o auto-retrato de Jesus:
4 O Senhor me concedeu o dom de falar como seu discípulo,
para eu saber dizer uma palavra de conforto a quem está desanimado.
Cada manhã, ele me desperta, para que eu o escute,
de ouvidos abertos, como o fazem os discípulos.
5 O Senhor me abriu os ouvidos e eu não resisti, nem voltei atrás.
6 Oferecei minhas costas aos que me batiam
e o queixo aos que me arrancavam a barba.
Não escondi o rosto para evitar insultos e escarros.
7 O Senhor é a minha ajuda!
Por isso, estas ofensas não me desmoralizam.
Faço cara dura como pedra, sabendo que não vou ser um fracassado.
8 Perto de mim está quem me faz justiça.
Quem tem coragem de depor conta mim?
Vamos comparecer juntos no tribunal!
Quem tem algo contra mim? Que se apresente e faça a denúncia!
9 O Senhor é a minha ajuda! Quem tem coragem de condenar-me?
Todos eles vão cair aos pedaços, como roupa velha comida pela traça! (Isaías 50,4-9)
Eles chegaram a matar Jesus. Diz o quarto Cântico do Servo:
8 Sem defesa e sem julgamento, foi levado embora. Não havia ninguém para defende-lo.
Sim, ele foi arrancado do mundo dos vivos, foi ferido por causa dos crimes do seu povo.
9 Foi enterrado junto com os criminosos, recebeu sepultura entre os malfeitores,
ele que nunca cometeu crime algum e que nunca disse uma só mentira! (Is 53,8-9)
E o cântico continua com esta prece:
10 Oh! Senhor, que o teu Servo, quebrado pelo sofrimento, possa agradar-te!
Aceita a sua vida como sacrifício de expiação!
Que ele possa ver os seus descendentes, ter longa vida,
e que o Teu Projeto se realize por meio dele!” (Is 53,10)
Esta foi a maneira de Jesus viver e realizar a sua vocação. Ele deixou que a vocação entrasse dentro dele, e ela tomou conta da vida dele inteira, a ponto de o apóstolo dizer que em Jesus habita “a plenitude da divindade” (Col 2,9). Jesus é para nós o Filho de Deus que nos revela o Pai. “Da sua plenitude todos nós recebemos” (Jo 1,16). Deus ressuscitou Jesus, confirmando assim que o caminho da vocação de Jesus é o caminho do agrado do Pai.
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Perguntas para ajudar na reflexão e na assimilação do assunto:
1. Como Jesus vive em você?
2. O que você faz, para que a vida de Jesus em você possa crescer e irradiar?
VI
JESUS CHAMA OUTRAS PESSOAS
PARA ESTAR COM ELE E IR EM MISSÃO
1. As pessoas chamadas por Jesus
Os doze apóstolos e as outras pessoas, homens e mulheres, rapazes e moças, que seguiam a Jesus, eram pessoas comuns. Tinham suas virtudes e seus defeitos. Os evangelhos informam muito pouco sobre o jeito e o caráter de cada um e cada uma. Mas o pouco que informam é motivo de consolo para nós. Eis o que se pode afirmar a respeito de algumas destas pessoas chamadas por Jesus:
* Pedro: Pessoa generosa e entusiasta (Mc 14,29.31; Mt 14,28-29), mas na hora do perigo e da decisão, o seu coração encolhia e voltava atrás (Mt 14,30; Mc 14,66-72). Jesus rezou por ele (Lc 22,31).
* Tiago e João: Dois irmãos. Estavam dispostos a sofrer com Jesus (Mc 10,39), mas eram violentos (Lc 9,54). Jesus os chamou filhos do trovão (Mc 3,17). João pensava ter o monopólio de Jesus. Jesus o corrigiu (Mc 9,38-40
* Filipe: Tinha jeito para colocar os outros em contato com Jesus (Jo 1,45-46), mas não era muito prático em resolver os problemas (Jo 6,5-7; 12,20-22). Parecia um pouco ingênuo. Jesus chegou a perder a paciência com ele: “Filipe, tanto tempo que estou com vocês, e você ainda não me conhece?” (Jo 14,8-9)
* André: Pessoa prática. Foi ele que encontrou o menino com cinco pães e dois peixes (Jo 6,8-9). É a ele que Filipe se dirige para resolver o caso dos gregos que queriam ver a Jesus (Jo 12,20-22), e é André que chama Pedro para encontrar-se com Jesus (Jo 1,40-43).
* Tomé: Com teimosia sustentou sua opinião, uma semana inteira, contra o testemunho de todos os outros (Jo 20,24-25). É que o Jesus ressuscitado em que Tomé acreditava, tinha de ser o mesmo Jesus que fora crucificado e que carregava os sinais da tortura no corpo (Jo 20,26-28).
* Natanael: Era bairrista e não podia admitir que algo de bom pudesse vir de Nazaré (Jo 1,46). Mas quando Jesus o esclarece, ele se entrega (Jo 1,49). Este Natanael aparece só no evangelho de João. Alguns o identificam com o Bartolomeu que aparece na lista do evangelho de Marcos (Mc 3,18).
* Mateus: Era um publicano, pessoa excluída pela religião dos judeus (Mt 9,9). Sabemos muito pouco da vida dele. No evangelho de Marcos e de Lucas ele é chamado Levi (Mc 2,14; Lc 5,27). O nome Mateus significa Dom de Deus. Os excluídos são "mateus" (dom de Deus), para a comunidade.
* Simão: Era um zelote (Mc 3,18). Dele só sabemos o nome e o apelido. Nada mais. Ele era zelote, isto é, fazia parte do movimento popular que na época se opunha à dominação romana.
* Judas: Guardava o dinheiro do grupo (Jo 12,6; 13,29). Tornou-se o traidor de Jesus (Jo 13,26-27). Setenta anos depois da traição, no fim do primeiro século, o autor do quarto evangelho ainda tem raiva dele e o chama de "ladrão" (Jo 12,4-6).
* Nicodemos: Era membro do Sinédrio, o Supremo Tribunal da época. Homem importante. Ele aceita a mensagem de Jesus, mas não tem coragem de manifestá-lo publicamente (Jo 3,1). Junto com José de Arimatéia cuidou da sepultura de Jesus (Jo 19,39)
* Joana e Susana: Joana era a esposa de Cusa, procurador de Herodes, que governava a Galiléia. As duas faziam parte do grupo de mulheres que seguiam a Jesus, o serviam com seus bens e subiam com ele até Jerusalém (Mc 15,40-41; Lc 8,2-3).
* Maria Madalena: era nascida da cidade de Magdala. Daí o nome Maria Ma(g)dalena. Jesus a curou de uma doença (Lc 8,2). Ela o seguiu até ao pé da Cruz (Mc 15,40). Depois da páscoa, foi ela que recebeu de Jesus a ordenação de anunciar aos outros a Boa Nova da Ressurreição (Jo 20,17; Mt 28,10).
A maior parte dos que seguem Jesus para formar comunidade com ele eram pessoas simples, sem muita instrução (At 4,13; Jo 7,15). Entre eles havia homens e mulheres, pais e mães de família (Lc 8,2-3; Mc 15,40s). Alguns eram pescadores (Mc 1,16.19). Outros, artesãos e agricultores. Mateus era publicano (Mt 9,9). Simão, do movimento popular zelote (Mc 3,18). É possível que alguns tenham sido do grupo dos revoltosos, pois carregavam armas e tinham atitudes violentas (Mt 26,51; Lc 9,54; 22,49-51). Outros ainda tinham sido curados por Jesus de doenças (Lc 8,2).
Havia também alguns mais ricos: Joana (Lc 8,3), Nicodemos (Jo 3,1-2), José de Arimatéia (Jo 19,38), Zaqueu (Lc 19,5-10) e outros. Estes sentiram na carne o que quer dizer romper com o sistema e aderir a Jesus. Nicodemos, ao defender Jesus no tribunal, foi vaiado (Jo 7,50-52). José de Arimatéia, ao pedir o corpo de Jesus, correu o risco de ser acusado como inimigo dos romanos e dos judeus (Mc 15,42-45; Lc 23,50-52). Zaqueu devolveu quatro vezes o que roubou e deu a metade de seus bens aos pobres (Lc 19,8). Todos eles, tanto os pobres como os poucos ricos, podiam dizer com Pedro: "Nós deixamos tudo e te seguimos!" (Mt 19,27). Todos eles tiveram que fazer a "mudança de vida", a "conversão" que Jesus pedia (Mc 1,15).
Jesus passou uma noite inteira em oração antes de fazer a escolha definitiva dos doze apóstolos (Lc 6,12-16). Rezou para saber a quem escolher. E escolheu as pessoas cujos retratos, conservados nos evangelhos, acabamos de olhar. É com este grupo que Jesus começou a maior revolução da história do Ocidente! Não escolheu a elite, não escolheu gente formada e estudada, de altas qualidades. Escolheu pessoas comuns que se sentiam atraídas pela mensagem de vida que ele trazia. Um consolo para nós! Muito obrigado!
2. O chamado (vocação) e o seu duplo objetivo
O chamado: “Vem e segue-me!”
A vocação não é coisa de um só momento, mas é feita de repetidos chamados e convites, de avanços e recuos. Começa à beira do lago (Mc 1,16), e só termina depois da ressurreição (Mt 28,18-20; Jo 20, 21). Começa na Galiléia (Mc 1,14-17) e, no fim, após um longo processo, recomeça na mesma Galiléia (Mc 14,28; 16,7), também à beira do lago (Jo 21,4-17). Recomeça sempre! Na prática, o chamado coincide com a convivência dos três anos com Jesus, desde o batismo de João até o momento em que Jesus foi levado ao céu (At 1,21-22).
A maneira de Jesus chamar as pessoas é simples e bem variada. Às vezes, é o próprio Jesus que toma a iniciativa. Ele passa, olha e chama (Mc 1,16-20). Outras vezes, são os discípulos que convidam parentes e amigos (Jo 1,40-42.45-46) ou é João Batista que o aponta como o “Cordeiro de Deus” (Jo 1,35-39). Outras vezes ainda, é a própria pessoa que se apresenta e pede para segui-lo (Lc 9,57-58.61-62). A maior parte dos que são chamados já conhece a Jesus. Eles já tiveram alguma convivência com ele. Tiveram a oportunidade de vê-lo ajudar as pessoas ou de escutá-lo na sinagoga da comunidade (Jo 1,39; Lc 5,1-11). Sabem como Jesus vive e o que ele pensa.
O chamado é gratuito; não custa. Mas acolher a vocação exige decisão e compromisso. Jesus não esconde as exigências. Quem quer segui-lo deve saber o que está fazendo: deve mudar de vida e crer na Boa Nova (Mc 1,15); deve estar disposto a abandonar tudo e assumir com ele uma vida pobre e itinerante. Quem não estiver disposto a fazer tudo isto, "não pode ser meu discípulo" (Lc 14,33). O peso, porém, não está na renúncia, mas sim no amor que dá sentido à renúncia (Jo 21,15-17). É por amor a Jesus (Lc 9,24) e ao Evangelho (Mc 8,35) que o discípulo ou a discípula renuncia a si mesmo e carrega sua cruz, todos os dias, para seguí-lo (Mt 10,37-39; 16,24-26; 19,27-29).
O chamado é como um novo começo! É como nascer de novo (Jo 3,3-8). Quem aceita o chamado, deve “deixar que os mortos enterrem seus mortos”(Lc 9,60). Deve seguir em frente e não olhar para trás (Lc 9,62). O chamado é um tesouro escondido, uma pedra preciosa. Por causa dele, a pessoa abandona tudo, segue Jesus (Mt 13,44-46) e entra na nova família, na nova comunidade (Mc 3,31-35).
O duplo objetivo da vocação: comunidade e missão
Desde o começo, o objetivo é duplo. Seguir Jesus significa: (1) estar com ele, formar comunidade com ele (Mc 1,17; 10,21); (2) ir em missão, ser pescador de homens" (Mc 1,17; Lc 5,10).
Depois de um tempo de convivência, Jesus renova o chamado. Marcos diz: "Jesus subiu a montanha e chamou a si os que ele queria, e eles foram até ele. E constituiu os Doze para que ficassem com ele e para enviá-los a pregar e terem autoridade para expulsar os demô­nios" (Mc 3,13-15). Este novo chamado continua tendo o mesmo duplo objetivo: (1) "ficar com ele", isto é, formar uma comunidade estável ao redor dele; (2) “ir pregar e expulsar os demônios", isto é, andar em missão de um lugar para outro. Os dois objetivos fazem parte da mesma vocação, do mesmo chamado. Um não exclui o outro. Eles se completam. Um sem o outro, não se realiza.
"Seguir" era o termo que se usava naquele tempo para indicar o relacionamento entre o discípulo e seu mestre. O discípulo "segue" o mestre e se forma na convivência com ele. Como os rabinos (mestres) da época, Jesus reúne discípulos para formar comunidade com eles. O relacionamento Mestre x Discípulo é diferente do relacionamento Professor x Aluno. O aluno assiste às aulas do professor sobre uma determinada matéria, mas não convive com ele. O discípulo convive com o mestre, vinte e quatro horas por dia. Ser mestre, como Jesus, já aos 30 anos de idade é sinal de muita maturidade e equilíbrio. Ter sempre doze pessoas perto! Sempre! De vez em quando, Jesus não agüenta mais e perde a paciência (Mc 9,19) ou sai para ficar a sós (Mc 6,46).
Seguir Jesus significava:
* Imitar o exemplo do Mestre: Jesus era o modelo a ser recriado na vida do discípulo ou da discípula (Jo 13,13-15). A convivência diária permitia um confronto constante. Nesta "Escola de Jesus" só se ensinava uma única matéria: o Reino! E este Reino se reconhecia na vida e na prática de Jesus
* Participar do destino do Mestre: Quem seguia Jesus devia comprometer-se com ele e "estar com ele nas tentações" (Lc 22,28), inclusive na perseguição (Jo 15,20; Mt 10,24-25). Devia estar disposto a carregar a cruz e a morrer com ele (Mc 8,34-35; Jo 11,16).
* Ter a vida de Jesus dentro de si: Depois da Páscoa, acrescentou-se uma terceira dimensão: identificar-se com Jesus, vivo na comunidade. Os primeiros cristãos procuravam refazer a mesma caminhada de Jesus que tinha morrido em defesa da vida e foi ressuscitado pelo poder de Deus (Fl 3,10-11). Trata-se da dimensão mística do seguimento de Jesus, fruto da ação do Espírito: "Vivo, mas já não sou eu, é Cristo que vive em mim"(Gl 2,20).
3. A comunidade: lugar onde se guarda e se cultiva a vocação
A convivência comunitária: viveiro da vocação
Todos eles "seguem Jesus", formando grupos concêntricos em torno a ele. Um núcleo menor de doze (Mc 3,14), como as doze tribos de Israel (Mt 19,28). Uma comunidade mais ampla de homens e mulheres (Lc 8,1-3). Um grupo maior de setenta e dois (Lc 10,1). As multidões que se reúnem ao redor de Jesus para ouvir a sua mensagem. Dentro do núcleo dos doze, de acordo com a finalidade do momento, Jesus forma grupos menores. Por exemplo, chama Pedro, Tiago e João para momentos de oração (Mt 26,37s; Lc 9,28).
Como todos os grupos de discípulos daquela época, assim também o grupo que "segue Jesus" tinha o seu ritmo de vida: diário, semanal, anual:
1. O ritmo diário na família, na comunidade: O povo rezava três vezes ao dia: de manhã, ao meio dia e à noite. Eram os três momentos em que se oferecia o sacrifício no Templo. Assim, a nação inteira se unia diante de Deus. Eram orações tiradas da Bíblia ou inspiradas pela Bíblia que marcavam o ritmo diário da vida de Jesus e da sua comunidade ao longo dos três anos da formação.
2. O ritmo semanal na sinagoga: Um escrito antigo da Tradição Judaica, chamado Pirquê Abot (palavras dos pais), dizia: “O mundo repousa sobre três colunas: a Lei, o Culto e o Amor”. Era o que eles faziam todos os Sábados. Mesmo durante as viagens missionárias, Jesus e os discípulos tinham o "costume" de, aos sábados, se reunirem com o povo na sinagoga para ouvir as leituras da Bíblia (Lei), para rezar e louvar a Deus (Culto), e para discutir as coisas da vida da comunidade e descobrir como ajudar as pessoas necessitadas (Amor) (Lc 4,16.44; Mc 1,39).
3. O ritmo anual no Templo: Era baseado no ano litúrgico com suas festas. Cada ano, o povo tinha que fazer três romarias a Jerusalém para visitar a Deus no seu Templo (Ex 23,14-17). Jesus e os discípulos participavam das romarias e visitavam o Templo de Jerusalém nas grandes festas (Jo 2,13; 5,1; 7,14; 10,22; 11,55).
Criava-se assim um ambiente familiar e comunitário, impregnado pela leitura orante da Palavra de Deus, em que Jesus convivia com os discípulos e as discípulas. Foi nesta "convivência" de três anos com Jesus, que os discípulos e as discípulas receberam a sua formação. Em que consistia esta formação? A formação do "seguimento de Jesus" não era, em primeiro lugar, a transmissão de verdades a serem decoradas, mas era a comunicação da nova experiência de Deus e da vida que irradiava de Jesus para os discípulos e as discípulas. A própria comunidade que se formava ao redor de Jesus era a expressão desta nova experiência de Deus e da vida. A formação levava as pessoas a terem outros olhos, outras atitudes. Fazia nascer nelas uma nova consciência a respeito da missão e a respeito de si mesmas. Fazia com que colocassem os pés do lado dos excluídos. Produzia aos poucos a "conversão" como conseqüência da aceitação da Boa Nova (Mc 1,15).
A missão: manifestação da vocação, amostra grátis do Reino
A missão não é uma tarefa que a comunidade pode executar, terminar e, depois, ficar livre dela. A missão é a natureza mesma da comunidade. A comunidade cristã ou é missionária ou não é comunidade cristã. A raiz da Missão é a nova experiência de Deus como Abba, Pai. Se Deus é Pai e Mãe, então todos devemos conviver como irmãos e irmãs. Mas a situação em que se encontrava o povo no tempo de Jesus era o contrário da fraternidade que Deus sonhou para todos! Diante desta situação, Jesus não se manteve neutro. Pelo contrário! Motivado pela sua experiência de Deus, tomou posição em defesa da vida do povo e definiu sua missão e vocação da seguinte maneira:
“O Espírito do Senhor está sobre mim, porque ele me ungiu para anunciar a Boa Nova aos pobres, enviou-me para proclamar a libertação aos presos, a re­cuperação da vista aos cegos, restituir a liberdade aos oprimidos e proclamar um ano de graça da parte do Senhor” (Lc 4,18-19).
A missão que a comunidade dos discípulos e discípulas recebe de Jesus é a mesma que ele recebeu do Pai: "Como o Pai me enviou assim envio vocês" (Jo 20,21). Jesus é o eixo, o centro, o modelo, a referencia da comunidade. Ele é o "caminho, a verdade e a vida" (Jo 14,6). Pelas suas atitudes, ele é uma amostra do Reino: encarna e revela o amor de Deus (Mc 6,31; Mt 10,30; Lc 15,11-32). A plataforma de onde se parte para a Missão é a comunidade, que vive a nova fraternidade. A Comunidade deve ser como o rosto de Deus, transformado em Boa Nova para o povo.
O que significa isto no concreto? Toda nova experiência de Deus, quando verdadeira, traz mudanças profundas na convivência humana. Eis algumas das mudanças que foram aparecendo na comunidade que se formou ao redor de Jesus e que caracterizam a formação recebida pelos discípulos e pelas discípulas ao longo dos três anos de convivência:
1. Todos irmãos: Ninguém deve aceitar o título de mestre, nem de pai, nem de guia, pois "um só é o mestre de vocês e todos vocês são irmãos" (Mt 23,8-10). A base da comunidade cristã não é o saber, nem o poder, nem a hierarquia, mas sim a igualdade de todos como irmãos. É a irmandade de todos ao redor do mesmo ideal.
2. Igualdade homem e mulher: Jesus muda o relacionamento homem-mulher, pois tira o privilégio do homem frente à mulher (Mt 19,7-12). Não só os homens, também as mulheres “seguem” Jesus, desde a Galiléia (Mc 15,41; Lc 23,49; 8,1-3). Ele revela os seus segredos tanto aos homens como às mulheres. À Samaritana revelou que é o Messias (Jo 4,26). À Madalena apareceu por primeiro depois de ressuscitado e lhe deu a ordenação de anunciar a Boa Nova aos apóstolos (Mc 16,9-10; Jo 20,17).
3. Partilha dos bens: Na comunidade que se formou ao redor de Jesus, ninguém tinha nada de próprio (Mc 10,28). Jesus não tinha onde reclinar a cabeça (Mt 8,20). Havia uma caixa comum que era partilhada também com os pobres (Jo 13,29). Nas viagens o missionário confia no povo que o acolhe e depende da partilha que recebe (Lc 10,7). Jesus elogia a viúva que sabe doar até do necessário (Mc 12, 41-44).
4. Amigos e não empregados: A partilha tem uma base econômica, mas deve crescer e atingir a alma e o coração das pessoas (At 1,14; 4,32). A comunhão deve chegar ao ponto de não haver mais segredo entre eles: “Já não os chamo de empregados, mas sim de amigos. Pois tudo que ouvi do meu Pai contei para vocês” (Jo 15,15).
5. Poder é serviço: "Os reis das nações as dominam e os que as tiranizam são chamados benfeitores. Entre vocês não seja assim" (Lc 22,25-26). “Quem quiser ser o primeiro seja o último!” (Mc 10,44). Jesus deu o exemplo (Jo 13,15). "Não veio para ser servido, mas para servir e doar a vida" (Mt 20,28). É o ponto em que Jesus mais insistiu com os discípulos.
6. Poder de perdoar e reconciliar: O poder de perdoar não é privilégio de alguns. Foi dado à comunidade (Mt 18,18), aos apóstolos (Jo 20,23) e também a Pedro (Mt 16,19). O perdão de Deus passa pela comunidade, que deve ser um lugar de perdão e de reconciliação, e não de condenação mútua.
7. Oração em comum: Eles iam juntos em romaria ao Templo (Jo 2,13; 7,14; 10,22-23), rezavam antes das refei­ções (Mc 6,41; Lc 24,30), freqüentavam as sinagogas (Lc 4,16). E em grupos menores Jesus se retirava com eles para rezar (Lc 9,28; Mt 26,36-37).
8. Alegria: Jesus diz aos discípulos: "Felizes são vocês!", porque seus nomes estão escritos no céu (Lc 10,20), seus olhos vêem a realização da promessa (Lc 10,23-24), o Reino é de vocês! (Lc 6,20). É alegria que convive com dor e perseguição (Mt 5,11). Ninguém consegue roubá-la (Jo 16,20-22).
Estas são algumas das características da comunidade que nasce ao redor de Jesus e na qual se guarda e se cul­tiva a vocação. Ela é o modelo para a comunidade dos primeiros cristãos, descrita nos Atos dos Apóstolos (At 2,42-47; 4,32-35). A convivência numa comunidade assim é necessariamente formadora. Ela consolida e faz crescer a vocação. Sem convivência comunitária é muito difícil nascer, crescer e desabrochar uma autêntica vocação segundo o rumo da Boa Nova que Jesus nos trouxe, pois a comunidade é a amostra grátis da Boa Nova do Reino.
4. Jesus é atento ao processo e ao cultivo da vocação nos discípulos
Jesus é o amigo que forma os discípulos para a missão
Para manter-se sempre na missão e não se acomodar na mentalidade de “tarefa cumprida”, é necessário um processo contínuo de formação e de atenção à realidade do povo. Jesus aparece nos evangelhos como o amigo que forma seus discípulos com um acompanhamento e presença permanentes. Ele é uma "pessoa significativa" para eles, que vai marcá-los para o resto da vida.
Ao longo daqueles três anos, Jesus acompanha os discípulos e as discípulas. Convive com eles, come com eles, anda com eles, alegra-se com eles, sofre com eles. É através desta convivência que eles, quase todos jovens, se formam na vocação e no compromisso. Desde o primeiro momento do chamado, Jesus os envolve na missão (Lc 9,1-2; 10,1). Dois a dois, devem anunciar a chegada do Reino (Mt 10,7; Lc 10,1.9). Devem curar os doentes (Lc 9,2), expulsar os demônios (Mc 3, 15), anunciar a paz (Lc 10,5; Mt 10,13), rezar pela continuidade da missão (Lc 10,2). A participação efetiva no anúncio do Reino faz parte do processo formador, pois a missão é a razão de ser da vida comunitária ao redor de Jesus.
Muitos pequenos gestos refletem o testemunho de vida com que Jesus marcava presença na vida dos discípulos e das discípulas. Era a sua maneira de dar forma humana à experiência que ele mesmo tinha de Deus como Pai. Neste seu jeito de ser e de conviver, de se relacionar com as pessoas, de lidar com o povo e de atender aos que vinham falar com ele, Jesus aparece:
* como uma pessoa de paz, que inspira paz e reconciliação: "A Paz esteja com vocês!".(Jn 20,19; Mt 10,26-33; Mt 18,22; Jn 20,23; Mt 16,19; Mt 18,18).
* como uma pessoa livre e liberta, que desperta liberdade e promove a libertação: "O ser humano não foi feito para o sábado, mas o sábado para o ser humano!" (Mc2,27; 2,18.23)
* como uma pessoa de oração, que aparece rezando em todos os momentos importantes de sua vida e des­perta nos outros vontade de rezar: "Senhor, ensina-nos a rezar!" (Lc 11,1-4; Lc 4,1-13; 6,12-13; Jn 11,41-42; Mt 11,25; Jn 17,1-26; Lc 23,46; Mc 15,34)
* como uma pessoa carinhosa, que provoca respostas fortes de amor: na moça do perfume (Lc 7,37-38), em Madalena (João 21,15-17), em Pedro (Mt 18,21; 19,27) e em tantos outros (cf. Mc 14,3-9; Jo 13,1).
* como uma pessoa acolhedora, que está sempre presente na vida dos discípulos e os acolhe quando voltam da missão fazendo revisão com eles (Lc 10,17-20)
* como uma pessoa misericordiosa, mansa e humilde, que convida os pobres: "Venham todos a mim" (Mt 11,28)
* como uma pessoa realista e observadora, que chama a atenção dos discípulos para as coisas da vida através do ensino das Parábolas (Lc 8,4-8)
* como uma pessoa atenciosa, preocupada com a alimentação dos discípulos (Jo 21,9), que cuida até do descanso deles e quer estar a sós com eles para que possam descansar (Mc 6,31).
* como uma pessoa preocupada com a situação do povo, que esquece o próprio cansaço quando se encontra com o povo que o procura (Mt 9,36-38).
* como uma pessoa amiga, que comparte tudo, até mesmo o segredo do Pai (Jn 15,15).
* como uma pessoa compreensiva, que aceita os discípulos do jeito que são, até mesmo a fuga, a negação e a traição, sem romper com eles (Mc 14,27-28; Jn 6,67).
* como uma pessoa comprometida, que defende os amigos quando são criticados pelos adversários (Mc 2,18-19; 7,5-13),
* como uma pessoa sábia que conhece a fragilidade do ser humano, sabe o que se passa no seu coração e, por isso, insiste na vigilância e ensina-os a rezar (Lc 11,1-13; Mt 6,5-15).
* Numa palavra, Jesus aparece como uma pessoa humana, muito humana, tão humana como só Deus pode ser humano!
Jesus é o formador que aponta o perigo do fermento dos fariseus e herodianos
Não é pelo fato de uma pessoa andar com Jesus e de conviver com ele na mesma comunidade que ela já era santa e renovada. No meio dos discípulos, cada vez de novo, a mentalidade antiga levantava a cabeça e ameaçava a vocação, pois o “fermento de Herodes e dos fariseus” (Mc 8,15), a ideologia dominante, tinha raízes profundas. A conversão que Jesus pede e a formação que ele dá querem atingir a raiz e erradicar o “fermento”.
Como no tempo de Jesus, também hoje, a mentalidade antiga do sistema neoliberal renasce e reaparece na vida das nossas comunidades. Também hoje, o fermento dos fariseus tem raízes profundas na vida e exige uma vigilância constante. Jesus ajudava os discípulos a viverem em processo permanente de formação. Eis alguns casos desta vigilância com que Jesus os acompanhava. É a ajuda fraterna com que ele, atento ao processo da vocação em cada discípulo, intervém para ajudá-lo a dar um passo e criar nova consciência:
1. Mentalidade de grupo fechado: Certo dia, alguém que não era da comunidade, usava o nome de Jesus para expulsar os demônios. João viu e proibiu: “Impedimos, porque ele não anda conosco” (Mc 9,38). Em nome da comunidade João impediu uma ação boa! Ele pensava ser dono de Jesus e queria proibir que outros usassem o nome dele para realizar o bem. João queria uma comunidade fechada sobre si mesma. Era a mentalidade antiga de "Povo eleito, Povo separado!". Jesus responde: "Não impeçam! Quem não é contra é a favor!" (Lc 9,39-40). Para Jesus, o que importa não é se a pessoa faz ou não faz parte da comunidade, mas sim se ela faz ou não o bem que a comu­nidade anuncia em nome de Deus.
2. Mentalidade de grupo que se considera superior aos outros: Certa vez, os samaritanos não queriam dar hospedagem a Jesus. Reação dos discípulos: “Que um fogo do céu acabe com esse povo!” (Lc 9,54). Queriam imitar o profeta Elias (2Rs 1,10.12). Achavam que, pelo fato de estarem com Jesus, todos deviam acolhê-los. Pensavam ter Deus do seu lado para defendê-los. Era a mentalidade antiga de “Povo eleito, Povo privilegiado!”. Jesus os repreende: "Vocês não sabem de que espírito estão sendo animados" (Lc 9,55)
3. Mentalidade de competição e de prestígio: Os discípulos brigavam entre si pelo primeiro lugar (Mc 9,33-34). Era a mentalidade de classe e de competição, que caracterizava a sociedade do Império Romano. Ela já se infiltrava na pequena comunidade que estava apenas começando! Jesus reage e manda ter a mentalidade de serviço: "O primeiro seja o último" (Mc 9, 35). É o ponto em que ele mais insistiu e em que mais deu o próprio testemunho: “Não vim para ser servido, mas para servir” (Mc 10,45; Mt 20,28; Jo 13,1-16).
4. Mentalidade de quem marginaliza o pequeno: Os discípulos afastavam as crianças. Era a mentalidade da cultura da época em que criança não contava e devia ser disciplinada pelos adultos. Jesus os repreende: ”Deixem vir a mim as crianças!” (Mc 10,14). Ele coloca criança como professora de adulto: “Quem não receber o Reino como uma criança, não pode entrar nele” (Lc 18,17).
5. Mentalidade de quem segue a opinião da ideologia dominante: Certo dia, vendo um cego, Pedro pergunta: "Quem pecou, ele ou seus pais, para que nascesse cego?" (Jo 9,2). Como hoje, o poder da opinião pública era muito forte. Fazia todo mundo pensar de acordo com a ideologia dominante. Enquanto se pensa assim não é possível perceber todo o alcance da Boa Nova do Reino. Jesus os ajuda a ter uma visão mais crítica: “Nem ele, nem os pais dele” (Jo 9,3). A resposta de Jesus supõe uma leitura diferente da realidade.
O resultado da vocação de Jesus na vida dos discípulos
Foi um processo lento e difícil, pois não é fácil fazer nascer nos outros uma nova visão de Deus, da vida, do próximo, da história, do Reino, do Messias, do povo de Deus. Jesus nem sempre era compreendido e, olhando os resultados imediatos, nem sempre teve sucesso. Muitas vezes, os discípulos não entendiam o que ele queria dizer (Mc 4,13; 6,52; 7,18; 8,15-21; Lc 18,34); eles procuravam promover-se a si mesmos (Mc 10,35-37); no fim dos três anos, na hora do sofrimento, Pedro o negou, Judas o traiu, todos fugiram (Jn 18,5.17-26; Mc 14,50); depois da ressurreição, todos eles duvidam (Mt 28,17), não aceitam o testemunho das mulheres (Lc 24,22-24), Tomé não crê (Jn 20,24-29); na hora da ascensão, todos perguntam: "É agora que o senhor vai instaurar o Reino?" (At 1,6). A pergunta revela que eles não tinham entendido muita coisa! Só as mulheres continuaram fiéis até o fim e são apresentadas como modelo (Lc 8,1-3; 21,2-4; Mc 14,6-9; 15,40-41).
Apesar de todo este aspecto negativo, há algo novo e muito positivo que cresceu na vida daquelas pessoas. Aos poucos, através da convivência, Jesus foi se tornando o eixo da vida deles. Após dois ou três anos na comunidade com Jesus, a vocação se consolidou e eles já não podem imaginar a vida sem Jesus. Pedro declara que, fora de Jesus, não tem para onde ir: "Onde podemos ir? O Senhor tem palavras de vida eterna!" (Jn 6,68). Os dois irmãos João e Tiago, filhos de Zebedeu, chegam a dizer que estão dispostos a sofrer por amor a Jesus: "Podemos!" (Mc 10,39). E Tomé, quando percebeu que Jesus, voltando para a Judéia corria o perigo de ser morto, diz para os companheiros: "Vamos nós também morrer com Ele (Jo 11,16).
5. A opção pelos pobres e excluídos faz parte da vocação
Jesus veio para que todos tenham vida e a tenham em abundância” (Jo 10,10). Numa sociedade, porém, onde muitos são excluídos, sem condições de ter vida de gente, esta mensagem só se faz presente na contramão. Pois Deus não se coloca do lado dos que crucificam, mas sim do lado dos crucificados. Jesus anunciava o Reino para todos! Não excluía ninguém, mas ele o anunciava a partir dos excluídos. Jesus oferecia um lugar aos que não tinham lugar na convivência humana. Acolhia os que não eram acolhidos. Recebia como irmão e irmã aos que a religião e o governo desprezavam e excluíam:
* os imorais: prostitutas e pecadores (Mt 21,31-32; Mc 2,15; Lc 7,37-50; Jo 8,2-11),
* os hereges: pagãos e samaritanos (Lc 7,2-10; 17,16; Mc 7,24-30; Jo 4,7-42),
* os impuros: leprosos e possessos (Mt 8,2-4; Lc 11,14-22; 17,12-14; Mc 1,25-26),
* os marginalizados: mulheres,crianças e doentes (Mc 1,32; Mt 8,17;19,13-15; Lc 8,2s),
* os colaboradores: publicanos e soldados (Lc 18,9-14;19,1-10);
* os pobres: o povo da terra e os pobres sem poder (Mt 5,3; Lc 6,­20.­24; Mt 11,25-26).
Jesus lutava para recuperar a bênção da vida (Gn 1,27-28; 12,3), perdida por causa do pecado (Gn 3,15-19). Onde podia, ele defendia a vida contra os males que a ameaçavam ou matavam. E aos que queriam segui-lo, ele dava o poder de curar as doenças e de expulsar os maus espíritos (Mc 3,15; 6,7). Ou seja, os discípulos e as discípulas deviam assumir o mesmo combate em defesa da vida.
Assim, através da sua ação e pregação, Jesus combatia: a fome (Mc 6,35-44), a doença (Mc 1,32-34), a tristeza (Lc 7,13), a ignorância (Mc 1,22; 6,2), o abandono (Mt 9,36), a solidão (Mt 11,28; Mc 1,40-41), a letra que mata (Mc 2,23-28; 3,4), a discriminação (Mc 9,38-40; Jo 4,9-10), as leis opressoras (Mt 23,13-15; Mc 7,8-13), a injustiça (Mt 5,20; Lc 22,25-26), o medo (Mc 6,50; Mt 28,10), males da natureza (Mt 8,26), o sofrimento (Mt 8,17), o pecado (Mc 2,5), a morte (Mc 5,41-42; Lc 7,11-17), o demônio (Mc 1,25.34; Lc 4,13),...
Havia divisões injustas, legitimadas pela religião oficial, que marginalizavam muita gente. Jesus, com palavras e gestos bem concretos, ignorou estas divisões e as denunciou com força:
* próximo e não-próximo (Lc 10,29-37);
* judeu e estrangeiro (Mt 15,21-28);
* santo e pecador (Lc 19,1-10; Mc 2,15-17);
* puro e impuro (Mt 23,23-24; Mc 7, 8-23; Mc 7,19);
* obras santas e profanas (Mt 6,1-18);
* tempo sagrado e profano (sábado) (Mc 2,27; Jo 7,23);
* lugar sagrado e profano (templo) (Jo 4,21-24; 2,19; Mc 13,2);
* rico e pobre (Lc 16,13; Lc 9,58)
Combatendo estes males e denunciando estas divisões injustas, Jesus convida as pessoas a se definirem frente aos novos valores do amor e da justiça. Alguns o aceitam, outros o rejeitam. Por isso, ele cria novas divisões (Mt 10,34-36) e se torna “sinal de contradição” (Lc 2,34). E aos que querem segui-lo, adverte que se preparem. Irão sofrer a mesma contradição (Mt 10,25).
6. Seguir Jesus na contramão, obediente a Deus e aos pobres até à morte de Cruz
A Boa Nova fez surgir uma nova divisão. Não a divisão causada por crenças e ritos, mas sim a divisão que tinha a ver com a prática da justiça e da verdade. A opção de Jesus é clara, seu apelo também: não é possível ser amigo de Jesus e continuar apoiando um sistema que marginaliza tanta gente. E aos que querem seguí-lo ele manda escolher: "Ou Deus, ou o dinheiro! Servir aos dois não dá!" (Mt 6,24) "Vai, vende tudo que tens, dá aos pobres. Depois, vem e segue-me" (Mt 19,21). Numa sociedade assim, Seguir Jesus significa assumir com ele a mesma luta em defesa da vida, "estar com ele nas tentações" (Lc 22, 28), inclusive na perseguição (Jo 15,20; Mt 10,24-25), carregar a cruz e segui-lo até na morte (Jo 11,16).
Entre os males combatidos por Jesus estavam as falsas lideranças. Jesus percebeu a mentalidade opressora das autoridades da época e a denunciou. Não teve medo de denunciar a hipocrisia de muitos líderes religiosos da época: sacerdotes, escribas e fariseus (Mt 23,1-36; Lc 11,37-52; 12,1; Mc 11,15-18). Condenou a pretensão dos ricos (Lc 6,24; 12,13-21; Mt 6,24; Mc 10,25). Não acreditava muito na sua conversão (Lc 16,29-31), embora admitisse que fosse possível pelo poder de Deus (Mt 19,26). Diante das ameaças do poder político, tanto dos judeus como dos romanos, Jesus não se intimidava. Mantinha uma atitude de grande liberdade (Lc 13,32;23,9; Jo 19,11;18,23).
Por meio destes gestos de denúncia, Jesus fazia estremecer as pilastras da religião oficial, incomodava os que estavam bem instalados, e atraía sobre si o ódio dos líderes religiosos e civis da época. Mas Jesus não voltou atrás. Continuou fiel à sua vocação que ele mesmo definiu como "anunciar a Boa Notícia aos pobres; proclamar a libertação aos presos e aos cegos a recuperação da vista; libertar os oprimidos" (Lc 4,18). Era a maneira de encarnar o amor de Deus para o povo da sua terra. Quem anuncia o amor numa sociedade organizada a partir dos critérios do egoísmo e dos interesses de grupos morre crucificado. Foi o que aconteceu. Bastaram só três anos e ele foi acusado, preso, condenado e morto na cruz. Mas Deus o ressuscitou, confirmando assim que o caminho da vocação de Jesus é o caminho do agrado do Pai.
Esta mensagem, os primeiros cristãos souberam expressá-la na letra de um cântico que foi retomada por Paulo numa das suas cartas. Pena que só temos a letra e não a melodia, pois quando a letra casa bem com a melodia, a filha que nasce é a animação da comunidade e o crescimento das pessoas na sua vocação. Transcrevo aqui a letra como palavra final destas reflexões sobre: “Juventude: Vocação e Compromisso à luz da Palavra de Deus”:


Tenham em vocês os mesmos sentimentos
que havia em Jesus Cristo!
Ele tinha a condição divina,
mas não se apegou à sua igualdade com Deus.
Pelo contrário, esvaziou-se a si mesmo,
assumiu a condição de empregado
e tornou-se ser humano, igual a nós.
E vivendo como simples homem,
humilhou-se a si mesmo,
tornou-se obediente até à morte,
e morte de cruz
Por isso, Deus o exaltou,
e lhe deu o Nome
que está acima de todo nome;
para que, ao nome de Jesus,
se dobre todo o joelho
no céu, na terra e debaixo da terra;
e toda língua confesse
que Jesus Cristo é o Senhor,
para a glória de Deus Pai. (Flp 2,5-11)


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Perguntas para ajudar na reflexão e na assimilação do assunto:
1. O que mais chamou a sua atenção nas atitudes que Jesus tomava para chamar as pessoas? Por que?
2. Faça a você a seguinte pergunta: Quem é Jesus para mim? Quem sou eu para Jesus?




VII
A DESCOBERTA DA VOCAÇÃO DA HUMANIDADE
1. O fracasso da observância da Lei de Deus destruiu a raiz da fé
No êxodo foi concluída a aliança entre Deus e o povo. Deus tinha libertado o povo do Egito e disse:
“Vocês viram o que eu fiz aos egípcios e como carreguei vocês sobre asas de águia e os trouxe até mim. Portanto, se me obedecerem e observarem a minha aliança, vocês serão minha propriedade especial entre todos os povos, porque a terra toda pertence a mim. Vocês serão para mim um reino de sacerdotes e uma nação santa" (Ex 19,4-6). E o povo respondeu "Faremos tudo o que Javé mandou" (Ex 19,8).
Eles se comprometeram a observar em tudo a lei de Deus (Ex 24,3-8). Esta era a vocação que receberam e assumiram solenemente. A observância das cláusulas da Aliança era a condição para o povo poder continuar a ser o povo de Deus. Não observando os mandamentos, eles se condenariam a si mesmos à escravidão. Mas a experiência foi muito dolorosa. Enganado pela ideologia da monarquia e desviado pela própria fraqueza, o povo não deu conta de observar os Mandamentos da Lei de Deus. Diz o salmo: “Por quarenta anos aquela geração me desgostou. Então eu disse: É um povo de coração transviado que não reconhece os meus caminhos” (Sl 95,10). A transgressão da Lei de Deus trouxe consigo a quebra da aliança e a desarticulação da convivência, tanto familiar como social.
No século VII aC, época do rei Josias, tentaram uma reforma para levar o povo de volta à sua vocação como Povo de Deus e, assim, evitar a desintegração total. Esta reforma, chamada Deuteronomista, colocava o povo diante da escolha: bênção ou maldição, vida ou morte. É como se dissesse: “Agora vai depender só de vocês! Se observarem a Lei, terão a bênção. Se não observarem terão a maldição” (cf. Dt 28,1-3. 15-16).
A reforma não adiantou. Os Mandamentos não foram observadas. As terríveis ameaças de maldição e de exclusão, descritas nos livros do Deuteronômio (Dt 28,15-44) e do Levítico (Lv 26,14-38), se realizaram. Tudo foi destruído pelo exército do rei da Babilônia. O povo se sentia como amaldiçoado e excluído pelo próprio Deus (Is 49,14). Para a maioria, o cativeiro era a prova trágica de que tinham escolhido a morte e não a vida. Fracassou a Aliança! Copo quebrado em mil pedaços não tem conserto! Dentro do povo estava destruída a raiz da fé. Deus desapareceu da vida do povo. A maioria largou tudo e adotou a religião do império.
Uma reforma que só insiste na observância da Lei, nasce de uma raiz falsa, pois desconhece a misericórdia de Deus. Na hora do fracasso da aliança (que de fato ocorreu), ela não oferece nenhuma esperança de se poder refazer a amizade com Deus. Em vez de levar à justiça, leva ao desespero. O tiro saiu pela culatra.
2. A redescoberta da gratuidade de Deus na natureza
Ainda em Jerusalém, diante daquele desespero generalizado causado pela iminente destruição do Templo e da cidade por Nabucodonosor, Jeremias dizia: “Temos muito motivo de esperança!” -“Qual?” - “O sol vai nascer amanhã!” (cf. Jr 31,35-36). Jeremias redescobre a presença de Deus não na história, mas na natureza. A certeza do nascer do sol não depende da observância da lei, mas está impressa na lógica da criação. É pura gratuidade, expressão do bem-querer do Deus Criador. É certeza que não falha. Nossa fraqueza pode levar-nos a romper com Deus (como de fato aconteceu), mas Deus não rompe conosco, pois cada manhã, através da seqüência dos dias e das noites, ele nos fala ao coração e diz: “Como é certo que eu criei o dia e a noite e estabeleci as leis do céu e da terra, também é certo que não rejeitarei a descendência de Jacó e de meu servo Davi. Quando essas leis falharem diante de mim - oráculo de Javé - então o povo de Israel também deixará de ser diante de mim uma nação para sempre” (Jr 33,25-26; cf. 31,36).
Esta nova maneira de olhar a natureza modificou os olhos e abriu um novo horizonte. “Deus nos amou primeiro!”, dirá São João mais tarde (1Jo 4,19). A certeza da presença amorosa de Deus para além do fracasso da observância provocou uma busca renovada dos sinais de Deus na natureza que nos envolve e da qual depende toda a nossa vida: as chuvas, as plantas, as fases da lua, o sol, as estações do ano, as sementes, etc. Tudo tornou-se sinal da presença gratuita de Deus.
Aos poucos, Javé, o Deus libertador que no êxodo entregou a Lei ao povo e concluiu com ele uma aliança, começa a ser experimentado como o Deus Criador do Universo; e o Deus Criador do Universo vai tomando o rosto de Javé, o Deus libertador e familiar do êxodo. História e Criação se aproximam. Nos dois transparecem os traços do rosto de Javé, o Deus do povo, Deus libertador e criador, Deus Pai, Mãe, Marido e Irmão mais velho.
3. A descoberta dos Dez Mandamentos da Criação
Assim, ao lado da atenção dada às Dez Palavras (Dez Mandamentos) que estão na origem da Aliança, o povo começa a dar maior atenção às palavras divinas que estão na origem das criaturas, e descobre que lá também existem dez palavras. São as Dez Palavras ou os Dez Mandamentos da Criação. O autor que fez a redação final da narrativa da Criação (Gn 1,1-2,4ª) teve a preocupação em descrever toda a ação criadora de Deus por meio de exatamente Dez Palavras. Na narrativa aparece dez vezes a expressão “e Deus disse”:

1. Gn 1,3 E Deus disse: haja luz
2. Gn 1,6 E Deus disse: haja firmamento
3. Gn 1,9 E Deus disse: as águas se juntem e apareça o continente
4. Gn 1,11 E Deus disse: a terra produz verde
5. Gn 1,14 E Deus disse: haja luzeiros
6. Gn 1,20 E Deus disse: as águas produzam seres vivos
7. Gn 1,24 E Deus disse: que a terra produz seres vivos
8. Gn 1,26 E Deus disse: façamos o ser humano
9. Gn 1,28 E Deus disse: sejam fecundos
10. Gn 1,29 E Deus disse: dou as ervas para vocês comer.


E Deus disse
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A Lei de Deus entregue ao povo no Monte Sinai tem no seu centro as dez palavras divinas da aliança. Da mesma maneira, a narrativa da Criação tem no seu centro dez palavras divinas. Assim como fez para o seu povo, Deus fez para as criaturas todas: fixou para elas “uma lei que jamais passará” (Sl 148,6). Dez vezes Deus falou e dez vezes as coisas começaram a existir. Falou: Luz!, e a luz começou a existir. Falou: Terra!, e a terra apareceu. Gritou os nomes das estrelas, e elas começaram o seu percurso no firmamento. “Ele diz e a coisa acontece, ele ordena e ela se afirma” (Sl 33,9). A harmonia do cosmo que vence a ameaça do caos é fruto da obediência das criaturas aos Dez Mandamentos da Criação.
O povo não observou a Lei da Aliança. Por isso veio a desordem do cativeiro. As criaturas, ao contrário, sempre observam a Lei da Criação. Por isso existe a Ordem do cosmo. No Pai-Nosso Jesus dirá: “Seja feita a vossa vontade na terra assim como é feita no céu”. Jesus pede que nós possamos observar a Lei da Aliança com a mesma perfeição com que o sol e as estrelas do céu observam a Lei da Criação. Na ordem do universo descobrimos como realizar nossa vocação.
4. A vocação do ser humano
Temos dois decálogos: o decálogo da criação e o decálogo da aliança. O decálogo da criação descreve a ação de Deus, o decálogo da aliança descreve a resposta do ser humano. O decálogo da criação já existia muito antes do decálogo da aliança. Existia desde a criação do mundo e era visível na ordem do cosmo, mas a sua existência só foi descoberta, quando a observância do decálogo da aliança entrou em colapso e criou o impasse do cativeiro.
A descoberta do decálogo da criação foi o resultado da teimosia da fé dos pequenos, de homens e mulheres como Oséias e Gomer, Jeremias, os discípulos e discípulas de Isaías e tantos outros, pais e mães de família, que continuavam na busca do Deus criador, cuja promessa de vida ultrapassa a nossa observância.
A total gratuidade da presença universal de Deus criador enche de esperança os seres humanos no meio da sua fraqueza. A bondade imensa de Deus, expressa na criação e que faz chover sobre bons e maus (Mt 5,45), deu coragem ao povo do cativeiro para recomeçar com garra a observância da lei de Deus. Agora, eles observam a lei da aliança, não mais para poder merecer a salvação, e sim para poder agradecer e retribuir a imensa bondade com que Deus os amou primeiro e cujo amor não depende da observância da lei. Eles sabem que nada nem mesmo o fracasso pode separá-los do amor de Deus (Is 40,1-2ª; 41,9-10.13-14; 43,1-5; 44,2; 46,3-4; 49,13-16; 54,7-8; etc.)
A fé no Deus Criador abriu um horizonte, cujo alcance para a vida só se compara com o horizonte que a ressurreição de Jesus abriu para os discípulos confrontados com a barreira intransponível da morte. A descoberta do decálogo da Criação é como se fosse um fundamento novo colocado debaixo de um prédio que ameaçava cair por falta de observância da parte dos engenheiros e operários. Você não vê o fundamento novo, pois está debaixo do chão, mas você sabe que ele existe, pois o prédio pode até balançar, mas não cai. A fé na gratuidade da presença universal de Deus torna-se a infra-estrutura da observância dos mandamentos.
5. Homem e mulher: imagem e semelhança de Deus
Chegando o momento da criação do ser humano, a narrativa da criação faz uma parada e muda o modo de falar. Até agora, ele informava sobre a ação criadora de Deus. Agora, com uma certa solenidade, ele apresenta o próprio Deus falando:
"Façamos o homem à nossa imagem e semelhança. Que ele domine os peixes do mar, as aves do céu, os animais domésticos, todas as feras e todos os répteis que rastejam sobre a terra". E Deus criou o homem à sua imagem; à imagem de Deus ele o criou; e os criou homem e mulher. E Deus os abençoou e lhes disse: "Sejam fecundos, multipliquem-se, encham e submetam a terra; dominem os peixes do mar, as aves do céu e todos os seres vivos que rastejam sobre a terra". (Gn 1,26-28)
Por este modo diferente de falar, o autor está sugerindo que está chegando ao ponto alto da ação criadora. Nesta sua maneira de falar, ele acentua os seguintes aspectos:
(1) Afirma a dignidade do ser humano, pois nele existe algo de divino. Ele é feito à imagem e semelhança de Deus. Não são os animais, nem o rei Nabucodonosor, nem os poderosos que são a imagem de Deus. Mas sim o ser humano, enquanto humano, é a imagem de Deus, o representante de Deus no meio da criação.
(2) Afirma a igualdade entre homem e mulher, ambos são imagem de Deus. Ou melhor, não é só o homem, nem só a mulher, mas ambos juntos convivendo em harmonia são imagem de Deus. O livro do Eclesiástico faz o seguinte comentário: “Todas as coisas existem aos pares, uma diante da outra, e Ele não fez nada incompleto. Uma coisa completa a bondade da outra, e ninguém se cansa de contemplar a glória de Deus”. (Eclo 42,24-25).
(3) Afirma a superioridade do ser humano frente às outras criaturas, pois ele pode dominar sobre todas elas. Este domínio não significa que ele recebe carta branca para fazer o que quiser nem se trata de uma dominação que usa a terra como mercadoria ou como objeto mudo e sem vida. Mas significa que ele deve imitar a maneira como Deus exerce o seu domínio sobre a criação. Deus domina o universo coordenando tudo numa harmonia admirável, preservando a ordem que favorece a vida e mantendo afastado o caos que ameaça tudo de morte: o caos do assassinato, da vingança, da corrupção, da exploração. O domínio que o ser humano recebe deve promover o crescimento da ordem e contribuir para o louvor universal ao Criador.
Em seguida, aparece a bênção da vida. Todas as coisas são criadas, mas só a vida recebe uma bênção. Abençoar é desejar o bem para alguém. É o contrário de amaldiçoar. A vida recebeu de Deus uma bênção, uma bem-dição. Esta palavra criadora desejando o bem à vida é mais forte do que a morte que deseja o mal. É nesta bênção ou bem-dição que está a raiz da nossa fé na Vida como dom de Deus, fé que foi crescendo lentamente na alma do povo de Deus, ao longo dos séculos, até desabrochar plenamente na ressurreição de Jesus. Esta fé é a expressão da convicção de que a vida plena, que vem de Deus e que os exilados estavam buscando, não pode acabar nunca. Esta esperança já se expressava na oração do salmo bem antes da ressurreição de Jesus: “Não me abandonarás no túmulo, nem deixarás o teu fiel ver a sepultura. Tu me ensinarás o caminho da vida, cheio de alegria em tua presença, e de delícias à tua direita, para sempre” (Sl 16,10-11).
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Perguntas para ajudar na reflexão e na assimilação do assunto:
1. Qual o ponto que mais chamou a sua atenção nesta reflexão sobre a vocação de todos nós como seres humanos? Por que?
2. Depois do fracasso da observância da Aliança, o povo de Deus começou a observar a natureza com outros olhos. Hoje, diante do fracasso evidente do sistema neoliberal que só quer explorar os recursos da natureza e que ameaça a sobrevivência da vida, qual deveria ser nossa nova maneira de olhar a natureza e os recursos da natureza? Por que?
APÊNDICE
OLHANDO O ALBUM DA FAMÍLIA DE DEUS

A variedade das vocações dentro do mesmo Projeto de Deus
A Bíblia é como um álbum de fotografias em que a gente encontra uma variedade imensa de vocações que trazem luz para iluminar a vocação que sentimos dentro de nós. A maneira de Deus chamar as pessoas é muito variada. Nenhuma vocação se repete. Chama Abraão e Sara de um jeito e a Maria Madalena de outro jeito. Também a maneira de perceber a vocação é diferente, e diferentes são as respostas que são dadas. Uns oferecem resistências, outros aceitam logo. Uns, como Jeremias, têm problema e dúvidas, lutam com a vocação até o fim da sua vida. Outros, como Amós, não têm problemas nem dúvidas e aceitam o chamado que se torna o eixo de suas vidas. Uns são chamados desde a juventude, e outros só depois de velhos. Uns são chamados para uma tarefa bem limitada e outros para uma missão que envolve a vida inteira.
A Palavra que chama, às vezes, se impõe com força irresistível como fogo dentro dos ossos (Jr 20,9) ou como martelo que rebenta as rochas (Jr 23,29). Outras vezes, como convite que deixa total liberdade (Is 6,8). Outras vezes, deixa a pessoa na revolta e no sofrimento (Jr 20,7-18), outras vezes na alegria (Jr 15,16). Para uns, o chamado de Deus vem com muita clareza, para outros não há clareza nenhuma, nem percebem nada de Deus. Sentem apenas uma necessidade humana que não pode ficar sem resposta. E quando no julgamento final Deus os elogia (Mt 25,34-35), eles dizem: “Quando foi que vi o senhor com fome e sede, sem roupa e na prisão, doente? Não estou lembrado!” (Mt 25,37-39) E Deus responderá: “Foi quando você ajudou aquela pessoa pobre. Era eu!” (Mt 25,40).
Umas pessoas são chamadas para libertar o povo (Is 61,1; Ex 3,10); outras, para organizá-lo, para presidir suas assembléias, organizar o culto, cantar, profetizar, denunciar, animar, anunciar, aconselhar, guiar, reprimir, governar (Rm 12,4-8; 1Cor 12,4-11). Vocação para missões grandes e missões pequenas, importantes e menos importantes, ligadas ao povo todo e ligadas a um pequeno grupo. Missões que valem para muitas gerações, outras que valem para pouco tempo ou só para a pessoa que a recebe.
Para chamar as pessoas Deus usa os mais variados meios de comunicação: sorteio, aclamação, indicação da comunidade, percepção das necessidades do povo, ação de bravura, perigo de guerra, chamado interior, aparição de anjo, sonhos, chamado de um companheiro, etc. etc. ... Nenhuma vocação se repete!
O chamado de Deus não tira a liberdade das pessoas, pois elas reagem: "Quem sou eu?" Cada um reage do seu jeito diante da missão que recebe. Cada um trava duas lutas dentro de si: a grande luta da transformação do mundo e a pequena luta da conversão pessoal. Ambas são igualmente importantes.

A variedade das vocações dentro do mesmo Projeto de Deus
Tudo isto, você pode verificá-lo em quase cada página da Bíblia. Para ajudá-lo a fazer esta pesquisa, vamos dar uma olhada rápida no grande álbum da Família de Deus. Vamos percorrer as páginas da Bíblia, olhando de perto o chamado de algumas das pessoas mais conhecidas e dando para cada uma delas uma breve chave de leitura. Assim você poderá perceber a variedade, tanto no chamado como na resposta. Você poderá completar o quadro olhando a vocação das muitas outras pessoas que não foram lembradas neste elenco. Poderá ainda aprofundar tanto cada uma das vocações como o conjunto delas, orientando-se pelas perguntas que colocamos no fim deste elenco.
Este elenco foi feito seguindo o critério da ordem cronológica, desde o início do tempo dos patriarcas do século XVIII antes de Cristo até o fim da época das primeiras comunidades cristã do fim do primeiro século depois de Cristo. Outros critérios de divisão e seleção são possíveis. Por exemplo: origem da vocação; função ou missão da vocação no conjunto do Povo de Deus; problemas enfrentados pela pessoa chamada na execução da sua vocação; mulheres ou homens, jovens ou velhos; recursos para realizar a vocação; etc.
Tratando-se de um apêndice independente, repetimos nesta lista o chamado dos apóstolos e algumas outras pessoas, homens e mulheres, já assinaladas no capítulo “Jesus chama pessoas para estar com ele e ir em missão”
Um elenco das pessoas chamadas desde Abraão até o Novo Testamento

1. Época dos Patriarcas e Matriarcas: de 1800 a 1250 antes de Cristo
Abraão
Chamado para ser pai de um povo, não consegue acreditar na promessa de Deus. Inicialmente, só consegue crer nos projetos que ele mesmo propõe como alternativa. Mas após três tentativas frustradas consegue crer e se entrega (Gn 12,1-3;15,1-6;17,15-22;22,1-18)
Sara
Quando chamada, deu risada (Gn 18,12) como seu marido Abraão (Gn 17,17). Risada de incredulidade. Não conseguiu crer no chamado. Pois não conseguiu crer em si mesma e em Abraão. Era difícil crer, pois já era de idade avançada e estéril. Como crer que poderia ser mãe! (Gn 18,9-15).
Agar
Chamada através de uma ordem de Sara, sua patroa, é por ela desprezada e excluída; mas Deus continua fiel e a sustenta. A fidelidade de Agar recebe uma recompensa: ela chega a ter uma experiência profunda do próprio Deus (Gn 16,1-16; 21,8-21).
Jacó
Chamado para ser Israel, lutou com o anjo (o próprio Deus) a noite toda, até que fosse abençoado (Gn 32,23-33). Passagem misteriosa que recebeu muitas interpretações ao longo dos séculos. É um espelho para significar as lutas que as pessoas travam com Deus e com sua vocação ao longo de suas vidas. Oferece esperança de vitória.


2. Época do Êxodo: 1250 a 1200 antes de Cristo
Moisés
Primeiro sentiu o chamado diante da opressão do seu povo e chegou a matar um egípcio. Teve medo e fugiu (Ex 2,12-15). Mais amadurecido, é chamado novamente para libertar o povo. Novamente tem medo e arruma várias desculpas, mas no fim a vocação é mais forte que a resistência medrosa, e ele acaba aceitando (Ex 3,11.13; 4,1.10.13).
Miriam
Chamada pelo seu próprio talento e pela necessidade do momento, convoca as mulheres para celebrar a vitória depois da travessia do mar vermelho (Ex 15,20). O Cântico de Miriam é um dos textos mais antigos da Bíblia, ao redor do qual foi se juntando o resto como cera ao redor do pavio (Ex 15,21).
Aarão
Chamado por intermédio de Moisés, seu irmão, para ser porta-voz (Ex 4,14-15; 7,1-2). É da tribo de Levi, tribo sacerdotal. O clã de Aarão consegue impor-se aos outros clãs da tribo de Levi e obtém a função central no Templo. Os outros clãs se tornam seus ajudantes (Núm 18,2-3).
Os Setenta
O chamado deles nasce das necessidades concretas da coordenação do povo. Diante da impossibilidade de assumir sozinho a coordenação da vida do povo, aconselhado pelo bom senso do seu sogro Jetro, Moisés descentraliza o poder e chama setenta pessoas para participar na coordenação. O chamado se faz de acordo com certos critérios para poder servir ao povo (Ex 18,21-22; Núm 11,16).
Josué
Foi o que mais ajudava Moisés. Foi fiel nos momentos difíceis e nas crises. É desta sua condição de companheiro fiel que nasce o chamado para suceder a Moisés. Moisés mesmo o apresenta ao povo como seu sucessor e dá a ele, várias vezes, a ordem: "Sê forte e corajoso!" (Jos 1,6-9).


3. Época dos Juizes: 1200 a 1000 antes de Cristo
Debora
A pessoa chamada foi um tal de Baraq, que não teve coragem nem condições para realizar a vocação e chamou Débora para libertar o povo num momento difícil da sua história. Débora, juíza e mulher forte, chama outras pessoas para ajudá-la na tarefa e obtém a vitória (Jz 4,1-10).
Gedeão
Um lavrador bem simples, oprimido pela dominação, sente o chamado, mas não consegue acreditar nele e pede uma dupla confirmação. Se não fosse a simplicidade da fé de Gedeão, seria até uma provocação da bondade de Deus. (Jz 6,11-40).
Ana
Uma senhora casada que não pode ter nenê, pois é estéril. No momento de tristeza, em que derramava sua alma na presença do Senhor, recebe através de Eli o chamado para ser mãe. Ela responde ao chamado criando o menino e dedicando-o à missão da vida dele (1 S 1,9-18).
Samuel
Chamado por Deus, não percebe a vocação e precisa da ajuda de uma pessoa mais velha para orientá-lo. O velho Eli orienta o menino e o ajuda a percebê-la: "Fala, Senhor, teu servo escuta!" Esta ajuda mútua fez nascer uma vocação muito importante (1 Sm 3,1-18).


4. Época dos Reis e Profetas: 1000 a 587 antes de Cristo
Saul
Mesmo chamado por aclamação (1S 11,12-15), por unção (1S 10, 1-8) e por sorteio (1S 10,17-24), não soube manter-se na fidelidade. Devorado pela inveja e pela vingança persegue Davi e quer matá-lo (1Sm 18,6-9; 19,8-17)
Davi
Chamado por unção (1S 16,1-13) e a convite do povo para ser rei de Judá (2S 2,1-4) e de Israel (2S 5,1-5). É exaltado na Bíblia como rei fiel. Na realidade, dentro dos nossos conceitos, não parece ter sido tão fiel. O poder do rei era absoluto e naquele tempo muitos não percebiam os limites deste poder (cf. 1Sm 8,10-18).
Salomão
Indicado para ser rei por ser filho de Davi e por conspiração palaciana (1R 1,28-53). Foi pessoa sábia (1Rs 5,9-14), mas o poder e o luxo da riqueza o corromperam (1Rs 11,1-13).
Elias
Obedece a um chamado da Palavra de Deus e do povo (1R 21, 17ss) e é conhecido como o homem sempre disponível para a ação do Espírito (1R 18,12; Ecl 18,1-11).
Eliseu
Recebe o chamado de Elias, pede licença para se despedir dos pais e vai atrás de Elias, largando tudo (1Rs 19,19-21). As muitas histórias de Eliseu estão no segundo livro dos Reis.
Jeú
Chamado por Elias (1Rs 19,16) e Eliseu (2Rs 9,1-10) para enfrentar os abusos do rei Acab, foi mais abusado que o próprio rei e matou sem critério todos os possíveis concorrentes (2Rs 9,22-37; 10,1-27). Foi condenado pelo profeta Oséias.
Amós
Percebe o chamado como algo irresistível, que sobe da situação de opressão e exploração do povo (Am 3,3-8; 7,15).
Ezequias
A conjuntura política internacional favorável levou Ezequias a promover uma reforma profunda para evitar o desastre sofrida pelo Estado de Israel (2Rs 18,1-8)
Josias
É chamado a servir o povo como rei através de circunstâncias políticas particulares que levaram ao assassinato do rei Amon (2R 21,23-24; 22,1). O rei Josias promoveu a reforma que foi chamada a reforma deuteronomista (2Rs 23,1-27).
Oséias e Gomer
Um drama familiar e uma experiência forte de amor levaram os dois à descoberta da sua missão no meio do povo (Os 1,1-3,5).
Isaías
Tem uma profunda experiência de Deus, descobre a sua incapacidade, mas se oferece: "Eis-me aqui!" (Is 6,1-13).
Jeremias
Na hora de perceber o chamado, fica meio gago e se desculpa: "Sou apenas uma criança!", mas assumiu a vocação (Jer 1,4-10). Sofreu a vida inteira por causa da vocação assumida (Jr 20,7-18).
Ezequiel
Quando recebe o chamado de ser a sentinela do povo, fica mudo por vários dias (Ez 3,25-27).


5. Época do exílio e pós exílio: 587 a 01 antes de Cristo
Neemias
O chamado vem através das exigências da situação do povo e de um convite do rei da Pérsia. Exerce a sua vocação como funcionário do rei da Pérsia (Ne 2,1-8).
Esdras
Vê um chamado de Deus na missão que ele recebe do rei da Pérsia para organizar o povo (Esd 7,11-26).
Rute
Percebe e assume o chamado através da sua solidariedade com Noemi que ficou viúva sem futuro (Rute 1,15-18).
Jonas
É o profeta que não tem coragem de assumir o chamado, e foge. A imagem estreita que Jonas tinha de Deus o impediu de perceber sua vocação (Jon 1,3).

Descobre o chamado na contradição provocada pelo ideologia da época que dizia: Todo sofrimento é castigo pelo pecado. A consciência dele dizia: “Não pequei para merecer tanto sofrimento!” Lutou e foi fiel à vocação criticando uma idéia falsa de Deus até morrer.
Ester
Era uma criança órfã, adotada pelo tio Mardoqueu. Por um destino não previsto acabou sendo rainha por causa da sua beleza (Est 2,15-17). Chamada a ser a libertadora do seu povo assume o chamado com risco da própria vida. (Est 4,12-17).
Judite
Chamada para libertar o povo num momento de extrema angústia (Jt 8,1-36), confia no Deus que é o "Deus dos humildes, socorro dos oprimidos, protetor dos fracos, abrigo dos abandonados, salvador dos desesperados" (Jt 9,11).
Sunamitis, a jovem dos Cantares
Envolvida numa intriga e constantemente vigiada pelos irmãos maiores, ela grita por independência e segue o seu próprio caminho para poder realizar o ideal do amor (Ct 8,1-14)
Matatias
Percebe e assume o chamado no momento de ser confrontado com a opressão e a perseguição do povo (1M2,1-28).
Judas Macabeu
É chamado para liderar as batalhas por ser o filho mais corajoso de Matatias (1Mac 2,66).


6. Época de Jesus: 01 a 33
Zacarias
Não foi capaz de crer no chamado e ficou mudo (Lc 1,11-22).
Isabel
Era estéril, mas acreditou no chamado, concebeu e tornou-se capaz de reconhecer a presença de Deus em Maria (Lc 1,23-25.41-45).
João Batista
Chamado desde o seio materno (Lc 1,11-17), assume a missão com coragem (Mc 6,17-29). É o primeiro profeta depois de muitos séculos de silêncio (Lc 1,59-66; Mt 11,7-15).
José
Chamado a ser o esposo de Maria, rompe com as normas do machismo da época, e não manda Maria embora (Mt 1,18-25).
Maria
Acostumada a ruminar os fatos (Lc 2,19.51), percebe e acolhe a Palavra, trazida pelo anjo Gabriel, a ponto de encarná-la em seu seio, em sua própria vida (Lc 1,26-38).
Apóstolos
Foram chamados para estar com Jesus, para anunciar a palavra e para combater o poder do mal (Mc 3,13-19). O chamado de cada um dos doze e de algumas discípulas encontra-se no capítulo VI: “Jesus chama pessoas para estar com ele e ir em missão”.
Pedro
Pessoa generosa e entusiasta (Mc 14,29.31; Mt 14,28-29), mas na hora do perigo e da decisão, o seu coração encolhia e voltava atrás (Mt 14,30; Mc 14,66-72). Jesus rezou por ele (Lc 22,31).
Tiago e João
Dois irmãos. Estavam dispostos a sofrer com Jesus (Mc 10,39), mas eram violentos (Lc 9,54). Jesus os chamou filhos do trovão (Mc 3,17). João pensava ter o monopólio de Jesus. Jesus o corrigiu (Mc 9,38-40
Filipe
Tinha jeito para colocar os outros em contato com Jesus (Jo 1,45-46), mas não era muito prático em resolver os problemas (Jo 6,5-7; 12,20-22). Parecia um pouco ingênuo. Jesus chegou a perder a paciência com ele: “Filipe, tanto tempo que estou com vocês, e você ainda não me conhece?” (Jo 14,8-9)
André
Pessoa prática. Foi ele que encontrou o menino com cinco pães e dois peixes (Jo 6,8-9). É a ele que Filipe se dirige para resolver o caso dos gregos que queriam ver a Jesus (Jo 12,20-22), e é André que chama Pedro para encontrar-se com Jesus (Jo 1,40-43).
Tomé
Com teimosia sustentou sua opinião, uma semana inteira, contra o testemunho de todos os outros (Jo 20,24-25). É que o Jesus ressuscitado em que Tomé acreditava, tinha de ser o mesmo Jesus que fora crucificado e que carregava os sinais da tortura no corpo (Jo 20,26-28).
Natanael
Era bairrista e não podia admitir que algo de bom pudesse vir de Nazaré (Jo 1,46). Mas quando Jesus o explica, ele se entrega (Jo 1,49). Este Natanael aparece só no evangelho de João. Alguns o identificam com o Bartolomeu que aparece na lista do evangelho de Marcos (Mc 3,18).
Mateus
Era um publicano, pessoa excluída pela religião dos judeus (Mt 9,9). Sabemos pouco da vida dele. No evangelho de Marcos e de Lucas ele é chamado Levi (Mc 2,14; Lc 5,27). O nome Mateus significa Dom de Deus. Os excluídos são "mateus" (dom de Deus), para a comunidade.
Simão
Era um zelote (Mc 3,18). Dele só sabemos o nome e o apelido. Nada mais. Ele era zelote, isto é, fazia parte do movimento popular que na época se opunha à dominação romana.
Judas
Guardava o dinheiro do grupo (Jo 12,6; 13,29). Tornou-se o traidor de Jesus (Jo 13,26-27). Setenta anos depois da traição, no fim do primeiro século, o autor do quarto evangelho ainda tem raiva dele e o chama de "ladrão" (Jo 12,4-6).
Samaritana
Teve dificuldade em perceber o chamado (Jo 4,7-30), mas tornou-se uma grande apóstola no meio do seu povo (Jo 4,39-42)
A moça do perfume
Teve a coragem de quebrar as normas da época e entrou na casa do fariseu, onde Jesus estava. Banhou os pés dele com lágrimas, enxugou com seus cabelos e os ungiu com perfume (Lc 7,36-50)
A mulher Cananeia
Gritou atrás de Jesus pela saúde de sua filha doente e, chamada de cachorrinho por Jesus, teve a coragem de exigir os seus direitos como cachorrinho, que era receber as migalhas que caem da mesa dos filhos (Mt 15,21-28).
O jovem rico
Observava todos os mandamentos desde criança, mas chamado para abandonar tudo que tinha e dá-lo aos pobres afim de poder seguir Jesus de perto, não teve coragem e voltou atrás (Mc 10,17-31).
Nicodemos
Era membro do Sinédrio, o Supremo Tribunal da época. Homem importante. Ele aceita a mensagem de Jesus, mas não tem coragem de manifestá-lo publicamente (Jo 3,1). Junto com José de Arimatéia cuidou da sepultura de Jesus (Jo 19,39)
Joana e Susana
Joana era a esposa de Cusa, procurador de Herodes, que governava a Galiléia. As duas faziam parte do grupo de mulheres que seguiam a Jesus, o serviam com seus bens e subiam com ele até Jerusalém (Mc 15,40-41; Lc 8,2-3).
Maria Madalena
Era nascida da cidade de Magdala. Daí o nome Maria Ma(g)dalena. Jesus a curou de uma doença (Lc 8,2). Ela o seguiu até ao pé da Cruz (Mc 15,40). Depois da páscoa, foi ela que recebeu de Jesus a ordenação de anunciar aos outros a Boa Nova da Ressurreição (Jo 20,17; Mt 28,10).


7. Época das comunidades dos Primeiros Cristãos: 33 a 100
Matias
Chamado a ser apóstolo por sorteio, após uma reunião dos outros onze apóstolos (At 1,15-26).
Barnabé
O primeiro a partilhar os seus bens (At 4,36s), É chamado a enfrentar missões difíceis (At 9,26-27; 11,22.25; 13,2).
Paulo
Foi chamado num momento em que tudo indicava o contrário, pois era perseguidor (At 9,1-19). O chamado o derruba na estrada (At 9,4); ele fica cego (At 9,3).
Lídia
Sente o chamado ao ouvir a pregação de Paulo; torna-se a primeira coordenadora das Comunidades na Europa (At16,14s).
Andrônico e Júnia
São chamados por Paulo de “parentes e companheiros de prisão, apóstolos importantes que se converteram a Cristo antes de mim” (Rm 16,7)
Febe
Chamada a ser diaconisa, torna-se "irmã" de Paulo e presta seu serviço a muita gente (Rom 16,1-2)
Timóteo
Preparado pela formação recebida em casa (2Tim 1,5; 3,14), é chamado a ser companheiro de Paulo (At 16,1-3).
Prisca e Aquila,
Casal amigo de Paulo. Os dois respondem ao chamado combinando as exigências das comunidades com as possibilidades da sua profissão (At 18,2-3; Rm 16,3-5)

Uma sugestão para aprofundar a vocação na Bíblia
Você pode completar a longa lista das pessoas chamadas que ocorrem na Bíblia, pois no álbum da Família de Deus existem muito mais fotografias. Em seguida, vale a pena aprofundar o assunto através das seguintes perguntas:
1. Qual a origem da vocação e qual o objetivo, que ela quer atingir na vida da pessoa chamada?
2. Qual a missão que a pessoa chamada recebe dentro do conjunto do povo de Deus?
3. Quais os critérios de escolha que Deus usou para chamar a pessoa?
4. Quais os recursos para realizar a missão?
5. Quais as resistências que a pessoa chamada oferece e por que?
6. Quais os problemas que a pessoa chamada encontra na execução da sua vocação e como os enfrenta?
7. Vocação pessoal e situação do povo: como estas duas realidades estão relacionadas entre si na vida da pessoa chamada?
8. Quais as vocações que as mulheres recebem dentro do conjunto do povo de Deus?
9. Quais os traços do rosto de Deus que transparecem em cada chamado?
10. Com qual de todas estas vocação você mais se identifica e com quais menos se identifica? Por que?