sábado, 27 de novembro de 2010

VELHO ANDARILHO

Contavam os antigos, que numa rua da cidade, chutando pequenas pedras e recolhendo latas de alumínio, o velho andarilho não passava despercebido pelas pessoas que apressadas não paravam para conversar com ele, ou simplesmente lhe dar um “bom dia”, um “como vai”, um “como tem passado”.

Ele seguia em frente...todos os dias, a mesma rotina.

Ninguém sabia a quanto tempo ele vivia na rua. Tinha gente que tinha nascido e morrido, e ele já vivia na rua.

Dizem que no passado, havia sido um homem muito importante daquela cidade e que perdeu tudo por causa do amor.

Não era de falar muito, tinha cabelos brancos compridos, barba branca comprida, bem ao velho estilo hippie...mas fazia tempo que havia deixado o sexo, as drogas...o rock n roll...bem...esse estava dentro dele.

De certa forma, era uma pessoa gentil, pois gostava das crianças que implicavam com ele, chamando o de Beato Conselheiro, e realmente, ele lembrava o Beato Antonio Conselheiro, mas sem a veste; ninguém nunca o viu em confusão, ou bêbado, ou drogado. Ficava horas sentado olhando o mar e os navios que chegavam no Porto de Vitória-ES, abria os braços como se quisesse abraçar tudo o que via, e sem nada dizer saia correndo.

Até hoje ninguém sabe ao certo o nome dele, por isso, irei chamá-lo como as crianças fazem: Beato Conselheiro.

A primeira vez que eu o vi, ele estava fazendo um discurso inflamado na Praça Costa Pereira, no Centro de Vitória-ES, depois que um pastor com cara de poucos amigos, olhando para ele disse que ele era a encarnação do Capeta. O Beato não gostou, mas educadamente, esperou a sua vez para falar. Como o pastor não lhe dava a vez para falar, levantou-se do banco onde estava e começou a fazer a sua defesa:

- Caríssimo pastor, estimados transeuntes, irmãos moradores de rua. Gostaria de proferir algumas palavras em defesa própria: muito me estranha que um homem que se diz de Deus, faça acusações levianas a respeito de uma pessoa que não conhece, que não vive com ela, que não experimentou do mesmo sofrimento e da mesma alegria que experimento. Acredito que Deus não mandou ele fazer isso (apontando para o pastor). E eu pergunto: o senhor realmente conhece a Deus? Ele lhe passou uma procuração dando-lhe plenos direitos para acusar e julgar qualquer pessoa a seu bel prazer? Com qual autoridade o senhor me acusa de ser a encarnação do Capeta? Se é que o Capeta existe.

Todos que ouviam caíram na gargalhada. Ele levantou a mão pedindo para continuar.

- Vocês me conhecem a muitos anos, vi pessoas crescerem e morrerem e eu aqui, nesta praça, caminhando pelas ruas da Capital, sem nada falar, sem mexer com ninguém, apenas catando latinhas, papelão, fazendo um ou outro serviço, dormindo pelos cantos e tomando banho todos os dias.

Outras risadas.

- Vocês sabem que nunca fiz o mal, nem o desejei para ninguém, mesmo quando alguns jovens drogados, de madrugada, me bateram por nada, e tive que ficar meses no hospital, sem a visita, sem o cuidado de ninguém. Eu não sou o Capeta pastor, mas o senhor é. Pois não é feliz...eu sou feliz...eu sou livre. Se o fato de o senhor me ver vestido como estou, com cabelo e barba grande, mal cuidado, lhe dá o direito de acusar e julgar, então não pode ser de Deus, pois Deus nunca acusou ninguém.

As pessoas ficaram espantadas com a firmeza e a convicção do Beato Conselheiro que ao ver o pastor e seus seguidores se retirando pois não conseguiam dar uma resposta a altura, o velho andarilho saiu gritando atrás dele:



- Lembro-me das palavras do filósofo:

"Se Deus existe a solução seria Deus,

mas como Deus não existe,

o muro está próximo".

E pude formular um pensamento herético:

- o gozo espiritual é parte fundamental

da substancialidade da alma;

e para tanto é preciso alcançar

a autotranscêndencia

e penetrar no âmago do ser

para poder atingir o ápice do gozo carnal

- Não me perguntem o que é isso,

pois, depois de Sartre...

me tornei o ser e o nada!



E berrou todas essas palavras até perder de vista o carro importado do pastor se afastando e sumindo.

As pessoas aplaudiram o Beato Conselheiro que aproveitou para pedir uns trocadinhos, afinal, ele também era Filho de Deus. A gargalhada foi imediata, e a ajuda também.

O velho beato estava muito feliz, pois viu que as pessoas agora sabiam que ele era um ser humano, não era um bicho, que havia feito escolhas: certas e erradas, e pagou caro por todas elas.

Viu um rapaz com um violão na mão e disse que gostaria de tocar uma canção antiga, pornográfica, que havia feito quando observava a lua cheia na baia de Vitória-ES, lembrando da sua única paixão e amor, pegou o violão e tocou o velho e bom rock n roll.

- Quero mostrar para vocês uma canção que fiz a muito tempo atrás. Ela se chama: ESTOU EM PAZ!

Pegou o violão...deu uma tossida e mandou ver:



- Eu deixei de ser punheteiro

cansei de ficar horas no banheiro

olhando seu retrato

toda nua na parede

em poses tão exóticas

baby, eu não sabia que era erótica

eu olho as minhas mãos

estão as duas caleijadas

são doenças e paixões

faz tempo que perdi a razão

eu sinto o seu corpo em mim

mas você está tão longe do jardim

você é tão bonita assim

ingênua e felina

deixei de ser down e estou aí

eu deixei de ser punheteiro

cansei de ficar horas no banheiro

se você soubesse

quantos dias fiquei sem dormir

eu queria estar aí

baby, eu queria estar dentro de ti

eu olho minhas mãos

abro os meus braços

coloco óculos e disfarço

a vida é linda

mas a sua bunda é muito mais

quando estou contigo

estou em paz!



Foi aplaudido por mais de meia hora.

Devolveu o violão ao rapaz e voltou a catar as latinhas espalhadas pelo chão.

Dizem que depois disso ninguém mais se meteu à besta com ele, e era bem querido por todos que o encontravam.

Nunca mais falou em praça pública ou cantou.

Até hoje, quem ouviu, quem viu o Beato Conselheiro, entendeu que a loucura é o tesão das pessoas que se dizem normais.

A loucura do Beato era o amor não correspondido, amor que o fez ser livre.

Dizem que disso ele nunca abriu mão.

Quando morreu, estava caminhando; sempre em frente...era o que dizia quando passava por alguém que sorria para ele; foi enterrado com honras de Estado, por serviços prestados aos moradores de rua, andarilhos como ele.

Dizem que hoje em dia ainda é visto por muitas pessoas, nas noites de lua cheia caminhando pelo calçadão da baia de Vitória-ES.



Título: Velho Andarilho ®

Autor: Emerson Sbardelotti

27 de novembro de 2010

12:13

segunda-feira, 15 de novembro de 2010

Artigo - JUVENTUDE: PROFECIA E ESPIRITUALIDADE

JUVENTUDE: PROFECIA E ESPIRITUALIDADE.

Emerson Sbardelotti Tavares

RESUMO

Apresenta e sugere reflexões para questionamentos hodiernos sobre a juventude enquanto portadora de profecia e de espiritualidade, numa sociedade globalizada, onde há uma inevitável mudança de valores, do aumento do individualismo, do fundamentalismo, da violência e do extermínio de jovens. Desenvolve a temática a partir da realidade em que está inserida a juventude, e como a mesma compreende e experimenta a profecia e a espiritualidade, acentuando-se sua vocação, disponibilidade para a missão, sua espontaneidade, seu humor, sua energia rebelde que a coloca em rota de colisão com antigas respostas que já não satisfazem sua curiosidade e sua objetividade, sua presença nos serviços da comunidade eclesial de base ou apenas na participação quase omissa e sem pretensão alguma nas Celebrações da Palavra e nas Celebrações Eucarísticas. Trabalha conceitos básicos mas necessários para uma Igreja que talvez não queira mais falar de injustiça e de pobres e que já esteja convencida que a palavra morreu. Se há jovens profetas, onde eles estão?

 
Palavras-chave: juventude, profecia, espiritualidade, comunidade, vocação, missão, injustiça, pobres.



ABSTRACT

Presents and suggests reflections for today's questions about youth while carrier prophecy and spirituality, in a globalised society, where there is an inevitable change values, increasing individualism, fundamentalism, violence and extermination of young people. Develops the theme from the reality in which is inserted on youth, and how the same understands and experiences the prophecy and spirituality, accentuating their vocation, availability for the mission, their spontaneity, their humor, its energy rebel who puts on a collision course with old answers that no longer satisfy your curiosity and your objectivity, their presence in the ecclesial community services or just almost silent and participation without pretense whatsoever in the celebrations of the word and in the Eucharistic celebrations. Works fundamentals but necessary for a church that might not want more talk of injustice and of poor and already convinced that the word died. If there are young prophets, where they, they are?

Keywords: youth, prophecy, spirituality, community, vocation, mission, injustice, poor.


1 INTRODUÇÃO

Juventude, profecia e espiritualidade são partes do grande memorial que se faz todas as vezes que encontramos um grupo de jovens, debatendo seus sonhos, utopias, esperanças, realizações, mas também a dor, o fracasso e o desânimo com tudo o que vem acontecendo na sociedade e dentro da Igreja. São três elementos indispensáveis para uma entrega feliz ao Reino da Vida. Elementos esquecidos ou mal interpretados, que a presente reflexão surge para dar respostas aos questionamentos hodiernos sobre a mesma enquanto portadora de profecia e de espiritualidade, numa sociedade globalizada, onde há uma inevitável mudança de valores, do aumento do individualismo, do fundamentalismo, da violência e do extermínio de jovens. O presente artigo procura entender a temática a partir da realidade em que está inserida a juventude, e como a mesma compreende e experimenta a profecia e a espiritualidade, acentuando-se sua vocação, disponibilidade para a missão, sua espontaneidade, seu humor, sua energia rebelde que a coloca em rota de colisão com antigas respostas que já não satisfazem sua curiosidade e sua objetividade, sua presença nos serviços da comunidade eclesial de base ou apenas na participação quase omissa e sem pretensão alguma nas Celebrações da Palavra e nas Celebrações Eucarísticas. Trabalha conceitos básicos e necessários para uma Igreja que talvez não queira mais falar de injustiça e de pobres e que já esteja convencida que a palavra morreu. E se pode perguntar, tendo portanto uma pergunta de fundo: Se há jovens profetas, onde eles estão?

Arrisco em repetir as palavras do poeta :

A VIDA SE TECE DE SONHOS

 
A vida se tece de sonhos!

Sonhar é a melhor parte do viver!

Somos jovens do campo e da cidade,

na luta por justiça e solidariedade.



Só ama quem sonha!

Só sonha quem fala:

“por uma terra sem males e demarcada!”

“olha como o vento desfralda a wiphala!”



E não haverá miséria nem fome.

Será diferente o futuro de ricos e pobres

e não haverá miséria nem fome.

Cada um será chamado pelo próprio nome.



São os sonhos da resistência.

É a realidade que surge nova.

Somos jovens em busca da paz.

É paz consciente que da terra brota!



A vida se tece de sonhos!

E sonhar não custa nada.

Somos profetisas e poetas,

Somos gente e profetas!



E estamos aí pelas ruas e praças,

com sonhos, alegrias e virtude,

no Continente da Esperança,

somos Pastoral da Juventude.





2 O Espírito sopra onde quer...

“Não deixe cair a profecia!”

Foi essa a última mensagem que D. Hélder Câmara falou para o monge Marcelo Barros, poucos dias antes da sua morte. E esta, dita por aquele, que havia sido o grande profeta do século XX na América Latina e no Brasil, demonstra que o profeta deve ser um agoniado e que não aceita a morte da profecia, que não aceita que a chama profética se apague do coração e da alma da Igreja.

O Espírito sopra onde quer, e ninguém tem poder sobre ele, mesmo assim, é tempo de atentamente esperar os sinais dos tempos.

A juventude do século XXI no Brasil, tem consciência de que a profecia é uma ação pública de grande visibilidade necessária? Ela sabe que é a espiritualidade encarnada na vida do povo que a faz ser profeta de Deus? Onde estará a juventude, já que muitas vezes não está nas comunidades eclesiais de base, nos movimentos sociais, nos partidos políticos?

A juventude está no mundo. E quais seriam as visões distorcidas ou não que o mundo tem dela? Mas o que seria a juventude, a profecia e a espiritualidade?



2.1 Conceitos básicos, mas que foram esquecidos.

Sobre juventude há muitos pontos de vista para analisá-la; indico a classificação mais objetiva e sintética, construída em mutirão, que parte da perspectiva cristã católica e comprometida com milhares de grupos de jovens espalhados pelo Brasil.

Quatro visões de juventude :

1. Visão Biocronológica: define a juventude em termos de idade, etapa de transição. Aquela que tem de 15 a 24 anos .

2. Visão Psicológica: identifica a juventude com os conflitos pessoais em que tem a vida nas mãos, mas não tem o reconhecimento e a capacidade, etapa de construção da identidade: tempo de opções e definições.

3. Visão Sociológica: vê na juventude um grupo social e, dentro dele, diferentes setores.

4. Visão Cultural-Simbólica: procura ver a juventude em seu habitat cultural, produzindo movimentos culturais que acentuam a estética e o lúdico.

Para DICK (2003), estaria faltando, entre essas visões uma quinta: a Visão Jurídica ou Legal de Juventude – aquela que impera em muita leitura ou abordagem a respeito do tema .

FREITAS (2007), aponta que no Brasil, tanto as diretrizes da Secretaria Nacional de Juventude como o Plano Nacional de Juventude, definem como jovens aqueles que têm entre 15 e 29 anos. Mas o que é juventude?

A palavra juventude remete-nos a idéia de uma fase da vida, situada entre a infância e a vida adulta, entre a dependência – caracterizada pela primeira – e a autonomia – caracterizada pela segunda. Mas ainda que na maior parte das sociedades, ao longo da história, a idéia de fases da vida esteja de alguma forma presente, elas adquirem diferentes recortes e significados. A noção de juventude, assim como as das demais fases do ciclo de vida, apresenta-se como uma construção sócio-histórica. Em cada sociedade, em cada época histórica, e de acordo com os diferentes grupos que a compõem, as fases da vida assumirão características específicas quanto à duração de cada uma delas, às suas características e aos seus significados. Nem sempre a juventude aparece como fase claramente distinta da infância e da maturidade. [...] Percebe-se que a vida adulta parece estar cada vez mais difícil de ser atingida, o que provoca o alongamento da juventude. No mundo atual, porém, a juventude não se torna apenas mais longa; torna-se também mais complexa. [...] Na sociedade contemporânea, podemos dizer que os jovens e as jovens não apenas se preparam para o futuro: inserem-se no presente, inserem-se na vida adulta; não tem na escola seu único espaço: fazem-se presentes em diferentes âmbitos da vida social. Ocupando os mesmos espaços que os adultos, destes se diferenciam pelo caráter mais experimental de sua inserção. Rapazes e moças experimentam diferentes inserções nas mais diversas dimensões: do trabalho, da vida afetiva, da sexualidade, da cultura e do lazer, da participação política.



LIBANIO (2004), diz que há um olhar duplo: o da sociedade para o jovem e o do jovem para si mesmo. A sociedade olha o jovem e o considera em fase importante do desenvolvimento de sua personalidade. Mas também, o vê como alguém subordinado e ainda submetido a uma marginalização do trabalho e das funções políticas. O jovem olha a si mesmo e entra numa idade de apropriação das diferenças que o afetam no campo sociopsicológico, ao mesmo tempo que se prepara para enfrentar situações adultas diferenciadas, passando do mundo particularista da família para o mundo universalista do trabalho e das relações sociais. Os grupos de jovens ajudam a integrar o modelo de família com a vida em sociedade. A escola surge como lugar intermediário da socialização entre a sociedade e a família .

A CNBB (2007), afirma que, conhecer os jovens é a condição prévia para evangelizá-los. Não se pode amar nem evangelizar a quem não se conhece. Se busca conhecer a geração de jovens cuja evangelização se apresenta como um dos grandes desafios da Igreja neste início do século XXI. Destaque para a subjetividade, para as novas expressões da vivência do sagrado e a centralidade das emoções, enquanto elementos da nova cultura pós-moderna que influenciam no processo de evangelização dos jovens e no fenômeno da indiferença de uma parcela da juventude face à Igreja .

Sobre profecia há uma palavra-chave para entendê-la: resistência.

Resistência na etmologia, é o prefixo re, que aponta para uma duplicação, uma insistência, um desdobramento, uma outra vez; um substantivo derivado do verbo sistere: parar, permanecer, ficar, ficar de pé, estar presente. A esse verbo se associa também a stantia que invoca a estadia.

Resistência é insistir em estar - em permanecer, em ficar de pé.

O profeta fica de pé e anda, fala, grita, mas não se cala. Mesmo sendo assassinado, sua voz ecoa e incomoda.

Resistir é se opor: é lutar. Mas é também resistir à tentação, manter-se firme diante de uma força contrária.

Resistência a todo tipo de opressão causado pelo sistema, seja ele, monárquico, ditatorial ou democrático, de ontem e de hoje, que impede a abundância da vida e a construção do projeto de um outro mundo possível e melhor.

No Primeiro Testamento, a profecia aparece no período histórico da monarquia israelita e durante a tutela de assírios, babilônicos, persas, helênicos; são apontados os abusos cometidos pelos reis, monarcas e imperadores, durante a monarquia unida em Israel e depois com os reinos divididos: Israel e Judá, contra o povo. Contra esses abusos, os profetas levantaram suas vozes e fizeram ouvir a mensagem de Deus para aqueles governantes. Pois a profecia é um apelo de Deus à conversão. Ela não se separa da pessoa do profeta. Não é puro discurso, mas ação pública de grande visibilidade. O profeta quando se levanta, se levanta do meio do povo. E não fala somente com palavras, mas com toda a inteireza da vida. Contra o poder opressor o profeta se dirige ao rei e também o faz junto ao povo quando este se corrompe e se afasta da sua missão. O profeta é aquele que fala em nome de alguém. Fala aquilo que vê. Quanto maior a opressão, mais forte será a reação por parte da profecia.

No Segundo Testamento, a esperança dos pobres se realiza no Moreno de Nazaré e nas Primeiras Comunidades criadas após a sua ressurreição no contexto do império romano. Na época de Jesus, a Aliança com Deus estava falhando, e o primeiro sinal era justamente o aparecimento de gente cada vez mais empobrecida no seio do povo. O pobre, pelo fato de existir e de ser empobrecido, acusa a todos e se torna para o povo de Deus na boca e nas ações de Jesus uma denúncia vinda do próprio Deus. Jesus captou, como o fizeram os profetas antes dele, a voz de Deus escondida no clamor dos pobres. A pregação de Jesus não agradou a todos, pois, colocou-se do lado dos pobres, marginalizados, excluídos, violentados em sua dignidade enquanto seres humanos; mas os grandes não o quiseram, preferiram as suas próprias idéias, matando-o na cruz, com o consentimento dos romanos. Sua morte foi a de um maldito. Morreu gritando. E Deus, que ouve o clamor do seu povo, dos pobres, ouviu o grito de Jesus, desceu e o ressuscitou, transformando a cruz, de perdição, em único caminho para alcançar a salvação.

VASCONCELLOS & SILVA (2003), afirmam:

O termo profeta já foi definido como crítico religioso da realidade. É pessoa crítica porque não se conforma com o erro, a injustiça e a opressão. Sua crítica é religiosa porque se expressa em nome da transcendência de Deus. É crítica religiosa da realidade pois se destina a seres humanos precisos, em determinado momento histórico bem concreto. Está no coração da profecia, portanto, o seu caráter denunciatório. Em Israel, foi no período dos reis que a profecia falou mais alto. [...] Profetas eram pessoas totalmente imbuídas da Palavra de Deus e absolutamente convencidas de que essa Palavra devia perpassar toda a realidade circunstante. Por isso, em nome de sua vocação profética podem atuar em todos os setores da sociedade, e o fazem de maneira implacável. [...] Na política, a atuação de profetas foi decisiva. Como pessoas bem informadas, agiram de maneira concreta e por vezes até revolucionária. [...] A problemática social é um campo fértil para a atuação de todos os profetas. [...] A visão profética da história é peculiar, e única a capacidade de análise de conjuntura. Os profetas lêem o momento histórico, inspirando-se no passado e com os olhos voltados para o futuro. A história sempre é, para eles, mestra da vida e eles se tornam sujeitos da história que seu povo está vivendo. [...] Ao culto e à religião constituída, a profecia reserva duríssimos ataques. Profeta nenhum agüenta uma religião sem vida, ou seja, um culto sem justiça social. Por isso transmitem a repugnância que Deus sente das liturgias, das ofertas e dos sacrifícios que apenas acobertam vícios e enganos. [...] A denúncia profética atinge os mais diversos campos da vida do povo, tais como economia, exploração, despotismo, escravidão, terra e latifúndio, corrupção, política, julgamentos nos tribunais, violência e sangue derramado, roubo, extorsão, luxo e ócio. [...] A profecia nesses tempos antigos, manifestava-se regularmente junto ao povo. As pessoas citadas como profetas representavam momentos privilegiados dessa revelação, mas a linha profética não abandona o povo de Israel. [...] A profecia representa o lado explosivo do povo de Deus. Ela é sempre necessária. O esquecimento desse lado acarreta enormes prejuízos para a Igreja e para a sociedade .



Os profetas eram, portanto, pessoas com um caminho de vida iluminado pela Palavra de Deus. Ao serem chamados por Deus, puderam senti-lo, puderam experimentá-lo. Deus trabalhou normalmente dentro da mente deles, trabalhou sem pressa dentro do coração deles. Cada profeta teve uma vocação específica, contudo, possuem três elementos em comum: 1. Forte experiência de Deus. 2. Ao experimentar Deus se certifica de que é o próprio Deus que o chama para uma missão especial. 3. Esta experiência causa uma mudança profunda na vida do profeta.

Essa mudança profunda, que transforma o ser humano por inteiro, chamamos de Espiritualidade.

Há vários conceitos e definições a respeito de espiritualidade, pois há várias espiritualidades. A que se trabalha aqui é a espiritualidade cristã católica, “pé-no-chão”. A palavra espiritualidade tem sua raiz na palavra espírito (ruah – em hebraico – cf. Gn 2,7; Jo 20,22).

CASALDÁLIGA & VIGIL (1996) dizem assim:

A espiritualidade não se opõe à matéria nem ao corpo nem à história. A espiritualidade de que a gente fala não acontece fora do mundo; vive-se aqui, “pé-no-chão”, no dia-a-dia da vida humana, trabalhadora, militante, de luta e festa, de vida e morte e de Vida! A espiritualidade de uma pessoa é o mais profundo de seu próprio ser: suas motivações maiores, seu ideal, sua mística de vida, a utopia que a dinamiza e empolga. Ter ‘espírito’ e ter ‘espiritualidade’ equivalem praticamente. ‘Espírito é substantivo concreto’. ‘Espiritualidade é o substantivo abstrato’ .



Espiritualidade é a capacidade do ser humano de dialogar com o Eu profundo e com o Totalmente Outro que lhe fala. É a possibilidade dada e recebida graciosamente de ouvir os apelos do coração e dialogar com o que nos transcende, o que nos inunda de mistério. Nesse sentido, a espiritualidade é a aura que sustenta os valores de solidariedade, compaixão, cuidado e amor, fundamentais para uma sociabilidade verdadeiramente humana, e se é verdadeira, portanto divina.

Essa mudança profunda, que transforma o ser humano por inteiro, na revelação bíblica se define como uma forma de estar no mundo. Interpretando todos os acontecimentos à luz da fé, e agindo por impulso do Espírito que nos liberta das idolatrias (idolatria é tudo aquilo que nos afasta do divino, que nos leva a desgraça) e nos transforma para criar comunidade solidária. Foi essa a vocação da humanidade que, realizada no Moreno de Nazaré, se vai concretizando pouco a pouco em nossa história de graça e de pecado. Ele vai nos inundando com a sua mística.

Quando falamos de mística estamos nos referindo ao mistério que nos faz viver. É o mistério que comunica, é o sentido que tende a construir uma fraternura na Terra: harmonia com a Natureza, com as coisas, entre nós, com Deus. A palavra mística tem sua raiz na palavra mistério (mysterion - em grego - cf. Mc 4,11; 1Cor 2,1.7; Cl 1,27; Ef 1,9). Espírito e Mistério são palavras que se completam, e no nosso caso, estão estritamente ligadas ao Mistério Pascal de Jesus e ao Espírito Santo de Deus que nos impulsiona e encoraja na caminhada cotidiana, de conversão, de recuos e avanços. Espiritualidade e mística, se não forem sentidas e bem usadas, se tornam fuga. E o que mais acontece hoje em dia é a fuga. Mística é o fio condutor, uma linha invisível que une a memória e os sonhos, que une a história e a utopia, que une o passado e o futuro e que faz do presente uma grande festa, uma grande celebração. E porque se faz uma grande celebração? Porque Deus é fiel e nós reconhecemos isso. Se Deus é fiel, nós até gostamos!

Mas quais são os passos para fazer um itinerário na espiritualidade?

Primeiro passo: fazer silêncio. A juventude deve perceber que é no silêncio que Deus se revela a nós e nós nos revelamos a Ele; deve entender que ao calarmos nossas vozes interiores e exteriores, todo o nosso ser se cala e aguçam-se nossos sentidos na escuta daquele que vem.

Segundo passo: pedir humildemente a ajuda do Espírito Santo. É necessário pedir ao Pai que mande o seu Espírito. Pois, sem esta ajuda do Espírito de Deus, não é possível descobrir o sentido que a Palavra de Deus tem para o seu povo hoje.

Terceiro passo: a Leitura Orante da Bíblia. É necessário subir os degraus:

Primeiro degrau: a leitura - o que o texto diz em si?

Segundo degrau: a meditação - o que o texto diz para mim, para você?

Terceiro degrau: a oração - o que o texto me faz dizer a Deus?

Quarto degrau: a contemplação - ver o mundo em que vivemos com os olhos de Deus, saboreando o jeito de ser e agir de Deus; o quanto Ele é bondoso e o que faz para nós.

Quarto passo: a reza do Ofício Divino das Comunidades – Ofício Divino da Juventude.

Quinto passo: o contato com a literatura especializada sobre o tema.

3 Se há jovens profetas, onde eles estão?

É uma pergunta difícil de ser respondida no atual cenário de Igreja, em que há a supervalorização de uma experiência da fé de fora para dentro da Igreja, sendo uma experiência muitas vezes fundamentalista, alienante, desapegada da práxis libertadora.

A juventude não se vê mais apaixonada pela mensagem da Igreja, eis a questão.

Ela está apaixonada pelos prazeres que o mundo pode lhe oferecer.

Se não há um amor verdadeiro da juventude pela Igreja e da Igreja pela juventude, não há evangelização da juventude, não há civilização do amor.

Não é de agora que a catequese (Primeira Eucaristia, Crisma, Catecumenato) não é assumida pela juventude, portanto não há uma continuidade do chamado iniciado com o Batismo; continua ainda nas mãos de adultos, bem intencionados, mas muitas vezes, desfalcados de conhecimentos históricos, bíblicos e teologais, de carinho, compreensão e entendimento do pensamento e dos sentimentos dos jovens espalhados nas paróquias deste País. Entender o mundo juvenil não é prática comum, não é para qualquer pessoa.

E o que dizer sobre os jovens que estão nas comunidades eclesiais de base e que assumem, com certos custos, a missão de evangelizar a juventude, e que não contam muitas vezes com o apoio da própria comunidade, de outros jovens, do padre, da religiosa, do bispo...são como águias estressadas, avistam o horizonte ao longe, mas já não conseguem bater suas asas e voar bem alto, próximas do sol...querem comer, mas já não sabem caçar. Reclamam mas não conseguem avançar.

Mesmo tendo uma estrutura bem montada na Igreja, com um belo trabalho por parte de uma juventude militante, não se consegue ouvir a voz da profecia. Quando isso ocorre, com certeza, por conta de uma ação isolada não atingiu o todo da Igreja, por todo o País. De fato, os gritos estão silenciados e não evidenciados. Há uma incoerência programada no meio da juventude militante de pensar que, por estarem nos lugares mais altos dentro da estrutura, que não devam mais participar e partilhar suas experiências nas suas comunidades e paróquias de origem, enfraquecendo toda a engrenagem de formação de novas lideranças juvenis. Se estes militantes (coordenadores e assessores), mais experimentados, assumem coordenações diocesanas, regionais e a nacional, mas não são conhecidos, reconhecidos, e não estão a disposição em suas bases, qual o crédito que terá, se dará, a tais testemunhos no seio das comunidades que os enviaram em missão? Afinal, o jovem é sujeito da História, é o sujeito de sua realidade, mas o protagonismo é da comunidade eclesial de base que chama em nome de Deus e envia para a evangelização, de dentro para fora da Igreja. Ao agirem, distanciando-se da base, pregando que ela não é importante, desvalorizando e caluniando o trabalho de outros coordenadores e assessores, por pensarem e agirem diferente, estão sendo os culpados pelo calar-se da profecia; e o que é pior, arrastam outros jovens a cometerem o mesmo pecado.

O cansaço e o desânimo tem levado a juventude a desistir muito facilmente da Palavra de Deus e de todo comprometimento que ela sugere para a humanidade. Tem levado-a para o encontro e o diálogo com várias outras ideologias que são diferentes daquelas oriundas de um ambiente religioso familiar onde a fé é mais cultural e tradicional do que pessoal.

Do ano de 2003 até o atual, se pode constatar um pequeno crescimento e melhora na educação e na saúde, beneficiando assim a juventude. Mas ainda é pouco. É necessário que se tome ações mais enérgicas. A juventude é chamada a ser portadora de profecia e de espiritualidade, numa sociedade globalizada, onde há uma inevitável mudança de valores, do aumento do individualismo, do sexo desenfreado, do fundamentalismo, da violência e do extermínio de jovens. A violência permeia a vida humana desde os primórdios, sendo que nos últimos anos aniquilou de várias maneiras a existência juvenil no Brasil. Se mata e se morre muito mais no Brasil, por conta das drogas lícitas e ilícitas, do trânsito, das DST, do que durante a Primeira e a Segunda Guerra Mundial, um verdadeiro extermínio.

O jovem envolvido com a violência e sem uma estrutura familiar e de um círculo de amizades, não quer perder tempo encontrando um emprego em que o salário mínimo não irá lhe garantir a realização dos seus sonhos e prazeres imediatos, ele prefere ser uma “mula” do tráfico na escola em que estuda, não importando se irá ficar reprovado ou não; prefere tomar conta da “boca” exterminando os rivais e mantendo a polícia longe, pois assim terá poder material e pessoal. A violência tem povoado os noticiários, os programas de TV, as discussões no barzinho da esquina. Os crimes cometidos contra a juventude e pela juventude deixam aos poucos de serem números preocupantes, pois se tornam senso comum. E aumenta o coro daqueles políticos que querem diminuir a maioridade penal. Será que é essa a solução para todos os problemas?

As ações são tímidas e as vozes proféticas na Igreja não são ouvidas!

A injustiça está batendo à porta e não se faz nada.

Enquanto houver injustiça e pobres o Reinado da Vida não acontecerá.



4 Considerações Finais

Juventude é um tempo propício de educação, de encontro e diálogo, de oferta e descoberta. Tempo em que o amor avança para uma relação nova. Relação em que o jovem experimenta o Transcendente a partir de uma análise da própria vida e da própria vocação. Os mesmos passos que Deus percorreu para dar uma resposta adequada à sua vocação: ouvir, lembrar, ver, conhecer, descer, decidir, chamar. Eis o desafio da profecia e da espiritualidade juvenil.

Falamos aqui da profecia e da espiritualidade que borbulha dentro e para além de nossa Pastoral da Juventude: O Mistério Pascal do Moreno de Nazaré. Muitos jovens vieram antes de nós e testemunharam os ares da abertura do Concílio Vaticano II, de Medellin, de Puebla; se colocaram em missão e levaram o Evangelho a todos os cantos deste Continente. Somos frutos destes testemunhos proféticos; somos frutos da libertação de uma teologia européia para uma Teologia da Libertação, onde o centro é o Moreno de Nazaré e sua prática e pedagogia libertadora em direção aos pobres. Muitas cruzes foram levantadas, sangue inocente foi derramado por causa da Palavra germinada nestas terras continentais, de rostos indígenas, negros e brancos. Nossa profecia e espiritualidade é martirial. E com o sangue de nossos mártires não se pode brincar. Nossa profecia e espiritualidade é diaconal, é de comunhão, é de anúncio e de denúncia, é de defesa constante da Vida.

No Brasil, na Nossa América Afro-Latíndia, o compromisso com as causas do Reino, nas causas do Povo, fizeram da Pastoral da Juventude, um ponto de encontro, um porto seguro, para as discussões sócio-políticas, religiosas e econômicas, que não podem e nem devem ser vividas, entendidas e interpretadas separadamente: é o Caminho de Emaús a ser percorrido!

E não há caminho a ser percorrido sem cruz a ser carregada! Falar de profecia e espiritualidade nos dias atuais é encontrar em nós e na comunidade, o mistério que nos faz viver com os pés no chão, atentos aos apelos e aos clamores do povo, com o coração e os ouvidos bem abertos para o que Deus tem a nos dizer.

Que nossa juventude possa retomar a profecia ao experimentar do cálice...há muita coisa a ser feita...o Reino ainda não chegou...mas continuamos na luta!

Na Paz militante do Reino da Vida! No Sonho do Outro Mundo Novo Possível!



5 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

 
CASALDÁLIGA, Pedro. VIGIL, José Maria. Espiritualidade da Libertação. Rio de Janeiro: Vozes, 4ª. ed. 1996.
CELAM – Conselho Episcopal Latino – Americano. Seção Juventude – SEJ. Civilização do Amor: Tarefa e Esperança. Orientações para a Pastoral da Juventude Latino-Americana. São Paulo: Paulinas, 1997.
CNBB. Evangelização da Juventude – Desafios e Perspectivas Pastorais. São Paulo: Paulinas, 2007.
COMBLIN, José. A Profecia na Igreja. São Paulo: Paulus, 2008.
DICK, Hilário. Gritos Silenciados, Mas Evidenciados – Jovens Construindo Juventude na História. São Paulo: Edições Loyola, 2003.
LIBANIO, J.B. Jovens em Tempos de Pós-Modernidade – Considerações socioculturais e pastorais. São Paulo: Edições Loyola, 2004.
TAVARES, Emerson Sbardelotti. O Mistério e o Sopro – Roteiros para Acampamentos Juvenis e Reuniões de Grupos de Jovens. Brasília: CPP, 2005.
____________. Utopia Poética. São Leopoldo: CEBI, 2007.

VASCONCELLOS, Pedro L. SILVA, Valmor da. Caminhos da Bíblia – Uma História do Povo de Deus. São Paulo: Paulinas, 2003.

sábado, 13 de novembro de 2010

CURRICULUM VITAE PASTORALE

Nascido em 13 de setembro de 1972, Vitória – Espírito Santo, durante o pontificado de Sua Santidade Paulo VI, durante o arcebispado de D. João Baptista da Motta e Albuquerque na Arquidiocese de Vitória do Espírito Santo.


Sua atuação sempre foi com Juventude: Pastoral da Juventude, Crisma, Música.

É Agente de Pastoral Leigo da Paróquia Nossa Senhora da Conceição Aparecida em Cobilândia, Vila Velha – Espírito Santo.

É professor de História da Igreja e de Espiritualidade Litúrgica na Escola de Teologia João Maria Vianney, na mesma Paróquia, onde assessora as formações para ministros extraordinários da Sagrada Comunhão.

Faz conferências nas áreas de Espiritualidade e Mística, Juventude, Bíblia e Liturgia.

É autor do livro O MISTÉRIO E O SOPRO – ROTEIROS PARA ACAMPAMENTOS JUVENIS E REUNIÕES DE GRUPOS DE JOVENS, publicado pelo Centro de Pastoral Popular em 2005 (cf. www.cpp.com.br). É apresentado por D. Pedro Casaldáliga – bispo emérito de São Félix do Araguaia – MT.

É autor do livro UTOPIA POÉTICA, publicado pelo Centro de Estudos Bíblicos em 2007 (cf. www.cebi.org.br), apresentado pelo poeta e cantador Zé Vicente.

Começou suas atividades pastorais em 1980, quando fez a Primeira Eucaristia, indo servir na equipe de catequese da comunidade eclesial de base Nossa Senhora do Magnificat. Conheceu a Pastoral da Juventude em 1985, nas comemorações do Ano Internacional da Juventude, no Ginásio Dom Bosco-Salesiano, Vitória-ES. Participou de todas as instâncias da PJ: grupo, paróquia, área pastoral, coordenação arquidiocesana, foi secretário arquidiocesano, e micro-capixaba (as quatro dioceses capixabas). Participou da equipe que elaborou o projeto Momento Novo – projeto de formação de lideranças jovens; o projeto Germinando – projeto de formação para coordenadores paroquiais e de grupos de jovens. Participou da equipe que preparou o DNJ Estadual de 1992: Ouça o Eco da Vida. Reunindo na Prainha em Vila Velha – ES, mais de 30 mil jovens vindos de todas as paróquias do Estado.

De 1993 a 1996 estuda e se forma em Turismo, atuando na equipe de crisma paroquial, assessorando os grupos e as catequistas.

Em 2000 entrou para o grupo de assessores da PJ da Arquidiocese de Vitória do Espírito Santo, passando a acompanhar a coordenação da área Serrana.

Em 2004 foi viver uma experiência vocacional junto à congregação dos padres do Sagrado Coração de Jesus no Maranhão, morando na casa paroquial do Monte Castelo com o então padre, hoje bispo de Caxias-MA, D. Vilson Basso, scj; antigo assessor nacional da PJ. No mesmo ano foi morar em Imperatriz do Maranhão, atuando enquanto assessor nesta diocese até o final daquele ano.

Em 2005 publica seu primeiro livro e retoma seus trabalhos pastorais na Paróquia de Cobilândia.

Em 2007 publica seu segundo livro e volta a assessorar grupos de jovens na Arquidiocese de Vitória do Espírito Santo.

Atualmente está cursando o Bacharelado de Teologia pelo Instituto de Filosofia e Teologia da Arquidiocese de Vitória do Espírito Santo, custeado pela Paróquia de Cobilândia.

Se coloca a disposição para assessorar em qualquer diocese do País, desde que seja dado uma contribuição (um salário mínimo) ou próxima daquelas dadas a outros assessores, as passagens de ida e volta (avião – para locais longe / ônibus – para locais próximos), hospedagem, alimentação, transporte, toda a estrutura (notbook, data show, material de secretaria, material litúrgico, etc) para desenvolver a temática proposta com a antecedência de um mês, para que o material escrito possa ser feito e mandado para o contratante. Mas pode haver um acordo que beneficie tanto o assessor como quem o contrata, pois o mesmo vive de seus livros e das assessorias que faz.

YVY MARÃ EI

YVY MARÃ EI (A TERRA SEM MALES)
- Releitura do Êxodo 3: enquanto vejo Tupinikins e Guarani sendo mortos pela Aracruz Celulose -
Muito tempo depois morreu o Imperador do Mal, e os Filhos do Sol, gemendo sob o peso da escravidão e da extinção, clamavam, e do fundo da escravidão e da extinção o seu clamor subiu até Tupã. E Tupã ouviu os seus lamentos e gemidos; Tupã lembrou-se do dia em que dançou com os grandes caciques, com os grandes pajés, com os grandes xamãs com os grandes anciãos. Tupã viu o os Filhos do Sol e os conheceu e se compadeceu.
Eis que caçava e pescava Galdino, Pataxó Hã-Hã-Hãe, as margens do Araguaia, próximo aos Karajás, num território que já não pertencia a ele, nem aos seus semelhantes, muito menos aos seus antepassados e isso aumentava ainda mais o sofrimento que trazia em sua alma. E Tupã lhe apareceu no meio dos toros. Os toros originaram o Quarup. E os toros dançavam, como se estivessem vivos e estavam. E os toros dançavam ao som do canto dos pássaros da floresta, ao som de tambores que Galdino nunca tinha ouvido antes. E Galdino disse: "Darei uma volta e verei este fenômeno estranho, verei por que os toros dançam, como se vivos estivessem, como se guerreiros fossem".
E Tupã viu que Galdino deu uma volta para ele ver. E Tupã o chamou: "Galdino, Pataxó Hã-Hã-Hãe".
Galdino respondeu: "Eis-me aqui".
Tupã disse: "Eis a Criação! Dance! Dance para te aproximar. Eis a Pacha Mama e teus antepassados, eis a Grande Gaia! Eu sou Tupã! Eu sou Tupã!"
E Galdino dançou, e ouviu os cantos dos pássaros e dos tambores. E dançou ao redor dos toros onde estava Tupã.
E disse Tupã: "Eu vi, eu vi a miséria do meu povo que está nesta terra continental. Ouvi o seu clamor, o seu lamento por causa dos opressores; pois eu conheço as suas angústias. Por isso desci a fim de liberta-lo da mão do Mal, e para faze-lo subir desta terra a uma terra boa e vasta, terra onde se pesca e caça, onde se planta e colhe, terra onde não existe a morte, onde não há extinção, terra em que não há exclusão. Agora o clamor dos Filhos do Sol chegou até a mim, e também sinto a opressão com que o Mal está oprimindo. Vai, agora, pois eu te enviarei para subir desta terra e ir para o lugar que se chamaYvy marã ei, onde dançaremos a feliz dança da vida".
Então Galdino disse a Tupã: "Como farei sair os Filhos do Sol para a terra sem males?"
"Eu estarei contigo", disse Tupã. E disse ainda: "Vai, reúne os caciques e anciãos e diga-lhes: "Tupã, o Deus de nossos pais, de nossas mães, me apareceu dizendo: "Subirão todos para Yvy marã ei, e dançaremos a dança da vida".
Mas disse Galdino: "Não nos deixarão sair. Seremos assassinados... Destruirão nossa cultura. Nos queimarão vivos enquanto dormimos!"
E disse Tupã: "Estenderei minha mão e ferirei aquele que se diz poderoso. Neste dia a onça pintada não sairá para caçar, o jacaré não entrará no rio, as piranhas não se alimentarão, os pássaros não irão voar nem cantarão, pois Tupã ferirá a casa d'Aquele que se diz poderoso. Se ouvirá em toda a floresta, vale ou campina, na praia ou sertão, o som da guerra em favor do meu povo. E quando todo o povo indígena partir, uma vida nova estará nascendo por essa nova estrada em que caminham os meus guerreiros, as minhas guerreiras.
Eis a terra que lhes dou: Yvy marã ei!"
E Galdino saiu da presença de Tupã com seu espírito fortalecido. Sentira agora, coisas que o sofrimento apagara de seu coração guerreiro. Correndo pela floresta fez a experiência plena na certeza da vitória, pois Tupã desceu e se fez indígena no meio do seu povo.

Emerson Sbardelotti
Prêmio Páginas Neobíblicas da Agenda Latinoamericamundial 2003.