quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

DIMENSÕES DA FORMAÇÃO INTEGRAL

INTRODUÇÃO

As Dimensões da Formação Integral na Pastoral da Juventude, nasceram de uma necessidade natural de mulheres novas e homens novos, chamadas, chamados a serem discípulas, discípulos, missionárias e missionários, a partir de um Processo de Educação na Fé, neste Brasil marcado por contrastes, desigualdades, discriminação, exclusão, violência e extermínio das juventudes.
A Pastoral da Juventude, desde a década de 1980, do século XX, vem amadurecendo no Brasil, um projeto em conjunto com as Comunidades Eclesiais de Base – CEBs, com uma Espiritualidade e Teologia da Libertação, que adquiriu um almejado equilíbrio entre as várias dimensões da formação humana, superando inúmeras vezes a fácil tentação de absolutizar uma dimensão em detrimento da outra.
Muitas estradas foram percorridas desde então. Quem se formou, hoje está doando seu tempo na formação de outros novos seres humanos. Mas ainda há muitas pedras, espinhos e perigos.
As Dimensões da Formação Integral só acontecem com plenitude, quando as juventudes estão reunidas em pequenos grupos, inseridos nas suas comunidades eclesiais de base, comprometidos de fato com a caminhada da sua Igreja local, impulsionados pelo Sopro Divino trazido a partir da novidade do evento Jesus de Nazaré e, partilhado nos meios específicos onde há a utopia e a construção da Civilização do Amor e, portanto, da Nova Sociedade.
“Mais que a uma reflexão, somos chamados a uma maior proximidade do mundo juvenil, para que a partir da própria juventude, descubramos caminhos novos na evangelização, contemplando seus reais anseios e apresentando-lhes a pessoa de Jesus Cristo, com seu rosto verdadeiro, capaz de encantar e atrair, para que os jovens o conheçam, o sigam e encontrem nele uma resposta convincente; consigam acolher uma mensagem e tornarem-se seus discípulos [...]. A evangelização da juventude não se justifica apenas pela preocupação da Igreja em aumentar os seus membros, ou garantir seu futuro. O empenho na evangelização da juventude nasce da consciência da própria Igreja de sua missão evangelizadora, de sua fidelidade ao mandato recebido e pela convicção da riqueza presente na juventude, e que, sem ela, a Igreja seria fartamente empobrecida” (Homilia de D. José Mauro Pereira Bastos na 44ª. Assembléia Geral da CNBB).
A Pastoral da Juventude com sua metodologia, mística, alegria e proposta de formação integral é hodierna, necessária e fundamental para toda a Igreja.
Acompanhar a juventude, dar oportunidade para que se encontrem, reflitam, se conheçam, aprofundem seus conhecimentos, se decidam enquanto seres humanos e se comprometam com as propostas de Jesus de Nazaré, com uma comunidade eclesial de base e com a defesa da vida deve pontuar a leitura daqui em diante.

1. DIMENSÃO DA DESCOBERTA DO GRUPO (PERSONALIZAÇÃO)

O objetivo dessa dimensão é favorecer o autoconhecimento e a valorização da pessoa humana a partir da história de cada um, de cada uma, percebendo a importância dessa história na construção da identidade pessoal, destacando as qualidades e os defeitos, relacionando na medida do possível as principais virtudes que uma pessoa deve viver, acolhendo o Projeto de Vida de Deus no ambiente do pequeno grupo de jovens da Cebs, da realidade em que está inserida.
Personalização é a dimensão da relação do jovem consigo mesmo, também chamada de dimensão psicoafetiva. Ela tenta responder as necessidades do amadurecimento afetivo e da formação positiva da personalidade. É a busca constante da resposta à pergunta fundante: Quem sou eu?
O documento 85 da CNBB: Evangelização da Juventude – desafios e perspectivas pastorais assim diz a respeito:
“[...] As perguntas de fundo são: Quem sou eu? Qual é a relação comigo mesmo? São perguntas importantes para o autoconhecimento e para a construção da personalidade do jovem. Sem a capacidade de autoconhecimento e autocrítica, o jovem é incapaz de analisar as situações com objetividade, de administrar os conflitos e de se relacionar com outros de uma maneira equilibrada. Sem esta dimensão torna-se difícil o silêncio interior e o encontro com Deus na oração e a verdadeira conversão.”
É nessa etapa da vida que a juventude deve acolher a própria vida, ela se descobre enquanto pessoa e entende que não nasce pronto, mas vai se construindo cotidianamente. Dando estes passos, se descobre e começa a construir um projeto de vida interligado ao projeto de vida do Moreno de Nazaré.

2. DIMENSÃO DA INTEGRAÇÃO COMUNITÁRIA

O objetivo dessa dimensão é despertar para a importância e a necessidade do diálogo verdadeiro, em qualquer tipo de relacionamento, principalmente numa amizade ou durante um namoro, percebendo o que é, como ser e como ter um verdadeiro amigo, despertando o valor do grupo, da comunidade, da paróquia, levando a juventude a perceber o grande valor que é a família que cada um tem na vida de todos, enquanto jovens e enquanto pessoa.
Integração é a dimensão que corresponde à convivência social, da descoberta do outro como ser diferente e do grupo como lugar de encontro, também chamada de dimensão psicossocial. Ela gera crescimento, exercita a crítica e a autocrítica como meio de superar-se pessoalmente e colaborar no crescimento dos demais, levando a juventude a uma progressiva abertura para as relações interpessoais reconhecendo nos outros, valores, diversidades e limites. A educação na fé que será gerada será caminho a ser percorrido na comunidade. Nessa dimensão busca-se responder: Quem é o outro?
O documento 85 da CNBB diz: “[...] As perguntas de fundo são: Quem é o outro? Como relacionar-me com ele? Como tratar as relações de gênero? Como entender o relacionamento virtual hoje existente? Essa dimensão acentua a importância das relações entre as pessoas que acontecem, por exemplo, nas amizades, nos grupos, na vida em comunidade, na família, no meio ambiente. A felicidade do jovem depende da sua capacidade de comunicar-se com os outros, num diálogo que considera e respeita a cultura. [...] Há necessidade de descer ao nível da afetividade, de viver relações de fraternidade voltadas para o discipulado. [...] Comunidade pressupõe amizade, calor humano, a aproximação afetiva e um projeto de vida em comum. [...] Essa dimensão busca motivar o jovem para o envolvimento na comunidade eclesial. A sexualidade, dom de Deus, é uma dimensão constitutiva da pessoa humana, que nos impulsiona para a realização afetiva no relacionamento com o outro. ”
A pessoa humana é por natureza, um ser social, na medida em que vai se relacionando com outras pessoas, se torna mais pessoa; ao contrário, se há um fechamento em si mesma, vai se tornando menos gente, menos pessoa.

3. DIMENSÃO TEOLÓGICA E ESPIRITUAL (TEOLÓGICA-TEOLOGAL)

O objetivo dessa dimensão é mostrar a juventude a importância da Trindade como base fundamental da fé em nossa vida, conscientizando-a sobre o verdadeiro sentido da fé em confronto com a vida, refletindo a necessidade diária da oração na vida de cada um, de cada uma, e a mudança que ela faz na nossa vida, tendo para tanto os pés no chão da realidade que nos cerca, reconhecendo a pessoa, a pedagogia e a pratica libertadora de Jesus de Nazaré, levando-a a uma identificação com seu jeito de ser.
Teológica e Espiritual é a dimensão que trata da experiência, da vivência e da fundamentação da fé da juventude, e do encontro com a pessoa de Jesus Cristo, sua prática, seu projeto e seguimento em comunidade. É também chamada de Teológica Teologal e ou dimensão da mística. Nesse encontro com Jesus Cristo a juventude descobre nele o sentido da sua existência humana, pessoal e social. Nasce deste contato a experiência de fé que o faz viver como cristão autêntico. A pergunta essencial é: Quem é Deus e qual meu relacionamento com Ele?
O documento 85 da CNBB diz: “[...] As perguntas de fundo são: Qual é a minha relação com Deus? De onde vim? Para onde vou? Qual é o sentido da minha vida? Qual o sentido da morte? Qual o sentido do sofrimento? [...] A dimensão teológica é cultivada no estudo, na catequese e no aprofundamento dos dados básicos da fé. Desse aprofundamento faz parte a iniciação à leitura da Palavra de Deus, do conhecimento de Jesus Cristo e da Igreja. A dimensão espiritual corresponde à experiência de Deus. Isso pode ser feito através de retiros, da vivência sacramental, da oração e do serviço aos pobres. Não basta estudar Deus; é necessário também ter uma experiência de Deus. A relação com Deus está também presente nas outras dimensões e as ilumina. Os aspectos teológico e espiritual não só caminham juntos mas também se complementam.”
A juventude descobrirá um Deus libertador, que ouve o clamor do seu povo. A Igreja Primitiva aparece como fonte de inspiração e espiritualidade.

4. DIMENSÃO DA CONSCIENTIZAÇÃO SOCIOPOLÍTICO – ECOLÓGICA

O objetivo dessa dimensão é compreender a relação existente entre fé, política e ecologia, como ela acontece no dia a dia e de que maneira se pode participar da transformação da sociedade, entendendo como está organizada e como influencia o viver das pessoas, procurando apresentar argumentos e elementos fundamentais, de crítica consciente e usual na realidade em que se vive.
Conscientização Sociopolítico-Ecológica é a dimensão que busca inserir a juventude na sociedade. Trata-se da convivência social com relações de justiça e solidariedade, com igualdade de direitos e deveres. Capacita-a para ser cidadã consciente, sujeito de sua própria e nova história, em favor da justiça e da defesa da vida, digna para todos. É conhecida como dimensão de participação-conscientização. Essa experiência comunitária que a juventude saboreia a faz confrontar com problemas cuja solução exige convergência de esforços e vontade política. A pergunta que não se cala é: Como se organizar em sociedade? Como viver em e na sociedade?
O documento 85 da CNBB diz: “[...] As perguntas de fundo são: Qual minha relação com a sociedade ao meu redor? Como organizar a convivência social? Podemos mudar a sociedade? Como me percebo como “ser” integrado à natureza? A consciência da cidadania faz ver que todo poder emana do povo e em seu nome é exercido. Essa dimensão abre o jovem para os problemas sociais locais, nacionais e internacionais. [...] Não se pode pregar um amor abstrato que encobre os mecanismos econômicos, sociais e políticos geradores da marginalização de grandes setores de nossa população. Aqui há necessidade de formar o jovem para o exercício da cidadania e direitos humanos à luz do ensino social da Igreja. Há necessidade de conectar a fé com a vida, a fé com a política.”
A promoção do bem comum e a construção de uma nova ordem social, política, econômica, ecológica, humana, justa e solidária dependerá da compreensão que se tem do poder, de como ele é exercido na sociedade.

5. DIMENSÃO DA CAPACITAÇÃO TÉCNICA

O objetivo dessa dimensão é refletir sobre o ser jovem e a sua condição juvenil, compreendendo a si mesmo e a outros jovens a partir de experiências grupais: as diversas formas de expressão simbólica e afetiva da juventude e sua importância na integração de sua identidade individual e grupal, possibilitando a participação dessa nos espaços eclesiais, buscando a construção de uma Igreja participativa, a partir da comunidade do Moreno de Nazaré, com eficácia e eficiência.
Capacitação Técnica é a dimensão do processo de aprender a fazer bem feito aquilo que se deve fazer. Não se trata da técnica pela técnica. Só terá sentido em vista de um objetivo concreto. No caso da Pastoral da Juventude é a construção do Reino da Vida, a Civilização do Amor, mediante a transformação da sociedade atual numa sociedade justa, igualitária e fraterna. É um processo que tem início no momento mesmo do ingresso da jovem, do jovem em um grupo e se tornará treinamento permanente. Consiste em reaprender, aprender a comunicar-se, viver em grupo, trabalhar em equipe, participar da decisão, execução e revisão da ação. Essa capacitação tem seu lugar natural na participação mesma do grupo de base, como grupo de ação-reflexão, mas necessita do reforço de atividades complementares: cursos, seminários, leituras, treinamentos etc. É também conhecida como processo metodológico. A pergunta: Afinal, porque estamos aqui?
O documento 85 da CNBB diz: “[...] As perguntas de fundo são: Qual é a minha relação com a ação? Como trabalhar? Como me organizar através de um consistente projeto pessoal de vida? Como administrar meu tempo? Como organizar as estruturas de coordenação que facilitam o acompanhamento sistemático, a comunicação, o aprofundamento e a continuidade? Como montar um curso? Como planejar e avaliar a ação evangelizadora? As habilidades são necessárias para acompanhar as estruturas de apoio para o processo de evangelização dos jovens. Sem estas habilidades, os projetos pastorais não caminham.”

Não basta ter um objetivo ou grande ideal, é preciso saber realizá-lo.

BIBLIOGRAFIA

CENTRO DE Capacitação Cristã. Dimensões da formação integral da PJ. São Paulo: CCC, 1988.

CNBB. Evangelização da Juventude – desafios e perspectivas pastorais. São Paulo: Paulinas, 2007.

INSTITUTO DE Formação Juvenil do Maranhão. Guarnicê: organizando a juventude para o compromisso e a fraternidade. São Luiz: IFJ, 2005.

PASTORAL DA Juventude. Caminhando e Crescendo – encontros para formação de grupos de jovens. São Paulo: Paulus, 5 volumes, 2010.

REDE BRASILEIRA de Institutos de Juventude. Na trilha do grupo de jovens. São Paulo: CCJ, 6 volumes, 2010.


Emerson Sbardelotti
Turismólogo, Historiador
Estudante do Curso Superior de Teologia pelo Instituto de Filosofia e Teologia da Arquidiocese de Vitória do Espírito Santo
Autor do livro O Mistério e o Sopro - roteiros para acampamentos juvenis e reuniões de grupos de jovens. Brasília: CPP, 2005 (pedidos pelo site http://www.cpp.com.br/).
Autor do livro Utopia Poética. São Leopoldo: CEBI, 2007 (pedidos pelo site http://www.cebi.org.br/).

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