terça-feira, 10 de junho de 2008

MÍSTICA EM TEMPO DE CRISE PASTORAL

MÍSTICA EM TEMPO DE CRISE PASTORAL

Na última década do século XX e nestas primeiras décadas do século XXI estamos acompanhando, muitas vezes com certa indignação e apatia, os rumos que a Igreja Católica tem tomado em relação ao trabalho pastoral em suas comunidades, que já não possuem características de comunidades eclesiais de base.

Estamos pecando por omissão quando não nos pronunciamos frente aos desmandos políticos, frente à morte cada dia mais violenta em nossas cidades urbanas e rurais.

Estamos deixando a profecia de lado para apenas repetirmos gestos congelados pelo tempo de estagnação e de retrocesso que sugere o atual cenário de Igreja...a profecia de hoje está presa dentro das paredes da Igreja...o que está do lado de fora da Igreja, parece não mais ser importante. E é preciso sair para fora da sacristia e ir em direção de quem está humilhado, esquecido, excluído.

É um tempo de crise!

Crise ética, moral, política, social, da fé e da humanidade.

A busca do imediatismo se faz presente em todos os momentos e setores da vida cotidiana.

Nada é construído com um projeto de vida, a longo prazo...o importante é a satisfação plena do e no agora…o individualismo se tornou global e local, arrastando e atraindo tudo para si.

Como falar da mística que nos faz viver em tempo de crise pastoral?

Não estamos em crise com o Pastor que é Jesus de Nazaré, mas estamos numa crise de identidade pastoral, numa crise de discernimento pastoral, numa crise tão profunda que não sabemos onde iremos aportar nosso pequeno barco, já que o mar não está para peixe pequeno.

Há uma crise de identidade. Estamos misturando características de movimentos eclesiais nas pastorais sociais. Essa bagunça não faz bem, pois a pessoa não viverá bem nenhuma das duas e o vazio existencial será bem maior, levando-a inclusive ao afastamento da Igreja.

Quando falamos de mística estamos nos referindo ao mistério que nos faz viver.

É o mistério que comunica, é o sentido que tende a construir uma fraternura na Terra: harmonia com a Natureza, com as coisas, entre nós, com Deus.

Mística: a palavra tem sua raiz na palavra MISTÉRIO (mysterion – em grego; cf. Mc 4,11; 1Cor 2,1.7; Cl 1,27; Ef 1,9).

Qual é o mistério que nos faz viver?

Qual é o mistério que nos fortalece na caminhada?

Qual é o mistério que há na mística?

O que é mistica?

Mística é o fio condutor, uma linha invisível que une a memória e os sonhos, que une a História e a utopia, que une o passado e o futuro e que faz do presente uma grande festa, uma grande celebração.

No atual cenário de Igreja se apresenta algum motivo para se celebrar?

Pense muito bem antes de responder a esta pergunta, afinal, nossa reflexão quer sugerir um afastamento do imediato.

A palavra mística é muito usada hoje em dia em relação a algumas palavras como globalização, liberalismo, protecionismo. São palavras que despontam nos momentos históricos.

Quando uma palavra desponta, precisamos começar a desconfiar.

Hoje, mais do que nunca, as pessoas estão buscando as razões do existir, do nosso existir, as motivações mais profundas.

Este, sem dúvida, é o potencial mais profundo da palavra mística.

O risco que corremos é que pode significar fuga. Ao contrário, a mistica busca mais o sentido da vida!

Todos nós carregamos nas costas uma pergunta fundamental: qual é o sentido da minha , da nossa existência?

Essa pergunta ganha um contorno novo quando uma crise se abate sobre a humanidade, sobre a sociedade, sobre a Igreja, sobre a família, sobre a Pastoral da Juventude.

Em situações de crise, de instabilidade político-econômica, se começa a perguntar pela identidade.

Numa situação dessa o sagrado retorna!

Em situações de crise é comum o sagrado aparecer com força, porque na medida em que o cotidiano e a história não trazem as respostas que queremos ouvir, começa-se a apelar para o sobrenatural.

A crise da pós-modernidade faz com que os deuses retornem com toda força.

Os deuses foram banidos no começo do mundo moderno com as idéias iluministas; hoje, eles retornam com a força de águas represadas. E aparecem deuses para tudo quanto é lado e gosto.

É a lei do mercado! Deus retorna por alto! Não é Deus que retorna, são os deuses mediáticos que retornam, e aí é que está o problema!

Deuses, no plural, costuma a equivaler a ídolos!

Então qual é o Deus verdadeiro?

Como apontar se este ou aquele deus é que fará a comunidade caminhar e nela suas pastorais que ainda sobrevivem sem apoio dos bispos, padres e religiosas, que preferem apenas orar…e o mais triste ensinam o povo a orar mal.

Um orar sem a ação não é ação nem orar. Não é nada. É você balbuciando um monte de palavras vazias que não ultrapassam as paredes de concreto da Igreja.

O Deus verdadeiro é sempre o Deus desconhecido.Deuses conhecidos são deuses perigosos. Foram feitos para nossa imagem e semelhança.

Quando se conhece muito Deus, é sinal que deixou de ser Deus, passou a ser um produto em nossas mãos.

O Deus verdadeiro é sempre desconhecido.

É simplesmente outro, pois interpela, questiona e chama para caminhar.

Deuses conhecidos chamam apenas para sentar e acomodar-se, isto é o grande perigo e o que está na raiz da crise pastoral.

E com isso um outro fenômeno vai tomando mais espaço entre as comunidades e entre os seres humanos: a fé mágica.

É a busca do milagrismo, de um Jesus exorcista e milagreiro.

É onde se começa a dizer: “Deus vai dar um jeito na minha vida. Em algum momento Ele vai aparecer para mim e dará um jeito…”, “estou nessa porque Deus quer assim!”

O que é isso?

É a transferência da responsabilidade dos seres humanos para Deus.

Quando não se transfere para Deus, se joga culpa no diabo; mas, quem afinal criou o diabo?

Pense bem antes de responder a esta pergunta, dela não depende sua fé, mas, em todo caso, é melhor ruminar bastante antes de dar uma resposta ligeira.

Por causa da situação caótica, transferimos para Deus a responsabilidade de mudança.

O caminho a seguir, então, é o do espetáculo, o show, o evento de massa! É você diluindo sua dor na multidão.

Este alívio conseguido é momentâneo e enganoso. A realidade é bem diferente: o papel da mídia é vender um Jesus sem Evangelho, branco, cabelos cacheados, olhos azuis, de uma pureza ariana sem igual, um Jesus de consumo, um produto que rende muito dinheiro, que está ligado à sociedade do espetáculo, um Jesus genérico, um Jesus pirateado, um Jesus para ser guardado na prateleira, a qualquer momento poderá ser usado como poderoso medicamento…deixa de ser Jesus com J, para ser Gesus com G, G de Genérico.

Mística em tempo de crise pastoral é refazer o caminho que leva às fontes: a história pessoal e comunitária de cada um/a de nós!

De que adianta a Evangelização da Juventude se tornar um estudo e um documento e continuar na prateleira…será esquecido, ou como já está sendo comprovado, usado da pior maneira.

A mística aponta alguns símbolos que devem ou deveriam ser trabalhados quando se tenta entender e viver um compromisso com o Reino:

• A figueira (Lc 13, 6-9).

• O poço (Jo 4,5-42).

• A casa (Lc 19, 1-10).

• O caminho (Jo 14, 4-7).

• A mesa (Mt 9, 9-13).


Este artigo se propõe apenas em ser mais uma ferramenta para reflexão de nossos grupos de jovens, coordenações paroquiais e diocesanas que estão se reorganizando, organizando e para aqueles e aquelas que já estão na caminhada já algum tempo.

Na Paz militante do Reino da Vida.

Emerson Sbardelotti
Mestre em Teologia pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo

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