sexta-feira, 13 de junho de 2008

A MÍSTICA DE UM ASSESSOR!

A MÍSTICA DE UM ASSESSOR!

• Qual é o papel do assessor?

• Qualquer um pode ser assessor?

• É preciso ter vocação?

• Quem escolhe o assessor? O grupo de base, as coordenações paroquiais, áreas, dioceses, regionais?

• Tem que fazer curso?

• Tem que pertencer a algum partido político?

• Assessor tem que fazer opções?

Estas perguntas são constantes e não querem calar.

Bom para jovens e adultos que alcançaram uma militância e almejam contribuir com os grupos de base da Pastoral da Juventude a partir do MINISTÉRIO DA ASSESSORIA.

É sempre importante lembrar que, assessoria não é etapa que deve ser cumprida e ou vencida na caminhada da PJ; não acontece por acaso. Faz parte de um discernimento. De um processo de educação na fé.

Espero poder responder tais perguntas com serenidade e com o pouco que vivo enquanto assessor nestes anos todos de militância; não sou o dono da verdade, portanto, todas as críticas construtivas ajudarão no entendimento do tema aqui proposto.

Tenho refletido que o papel de um assessor se dá no acompanhamento ao grupo de base, no desenvolvimento de uma temática, na valorização e exaltação do protagonismo juvenil, nas dicas e sugestões para possíveis projetos de vida, na silenciosa humildade de descobrir e despertar novas lideranças e sobretudo escutá-las. O acompanhamento nas estruturas que surgem depois é resultado de um excelente trabalho na base.

Para ser assessor é preciso ter vocação; portanto, nem todo mundo ou qualquer pessoa pode ser assessor. Há um caminho a ser percorrido. Exige tempo, escuta de si mesmo, testemunho na e da comunidade, perseverança e humildade, compromisso com o Povo no meio em que está inserido.

O assessor não está aí para mandar; está para escutar e levar uma palavra de aconchego e acalanto nas horas de crise e nos momentos de dor; levar o abraço, o sorriso e a festa nos momentos de alegria e nas horas de conquistas. Deve, junto com o grupo, agradecer pelos erros e bendizer pelos acertos.

Na maioria das vezes, num processo democrático, o assessor é indicado, seja pelo grupo, pelas coordenações paroquiais, de área, diocesanas, regionais, conforme a necessidade de cada um.

São observados inúmeros detalhes, os mais comuns são: tempo de caminhada na PJ, disponibilidade, compromisso com os pobres, idade, etc. É feita uma lista, onde os nomes indicados são consultados; após uma resposta positiva dos mesmos se começa a preparação. Muitos falam de curso, eu prefiro a palavra capacitação.

Esta capacitação dentro de um planejamento, aí pelos regionais e ou pelas dioceses, pode durar de um à três anos. Nem todos os indicados irão exercer o ministério da assessoria junto às coordenações de área, diocesanas e regionais; poderão exercê-lo na base: grupo e paróquia. O que é um trabalho que requer muito mais atenção, carinho e cuidado por parte do assessor, estará ajudando a formar novas lideranças. Sem esse trabalho da assessoria nas bases, fica difícil manter uma estrutura. A preparação e a capacitação são necessárias, precisamente estando dentro das cinco dimensões da pessoa humana.

Sinceramente, penso, se é para pertencer a algum partido, que se pertença aquele que defenda a Vida; principalmente a vida dos Pobres, e no caso em questão: a Vida do Jovem!

Ultimamente, com todos os problemas que os partidos de esquerda e de direita estão enfrentando e criando, se faz necessária uma reflexão muito profunda na hora de se filiar à algum deles.

Já fui filiado ao Partido dos Trabalhadores, a militância na PJ me levou a isto; hoje por uma questão de liberdade de expressão e imparcialidade, prefiro estar do lado de fora, pois acredito que um outro mundo é possível, pois acredito no que está escrito em At 2, 44-46: “...Os fiéis estavam todos unidos e possuíam tudo em comum; vendiam bens e posses, e os repartiam segundo a necessidade de cada um. Diariamente acorriam fielmente ao templo; em suas casas partiam o pão, compartilhavam a comida com alegria e simplicidade sincera”.

O partido político não é o único caminho para a construção de uma sociedade mais humana e fraterna.

É claro, que quem pertence a algum partido, e o faz com dignidade e ética, já é um bom começo. Mas não é o que tenho visto por aí...Política e Religião andam juntas a muito tempo, e há momentos que não se consegue separá-las.

O assessor tem que fazer opções sim! E bem claras! Principalmente aquele que irá trabalhar com os grupos de base da PJ.

E a opção primeira de um assessor da PJ é o seguimento radical de Jesus de Nazaré.

É o ponto fundante de sua mística: seguir Jesus de Nazaré!

Já dizia Monseñor Romero: “...El seguimiento radical de Jesús significa seguir lo en los pobres. “Todo lo que hacen a uno de estos mis hermanos pequeños a mí me lo hacen” (Mt 25). En el rostro sufriente de los pobres encontramos hoy el rostro de Cristo. La verdadera espiritualidad cristiana tiene su piedra de toque en la opción preferencial por los pobres...”

No seguimento a Jesus de Nazaré precisamos ter na mente e no coração as últimas palavras de João Batista no Evangelho de João: “Ele deve crescer, eu diminuir” (Jo 3,30).Esta frase deve nortear a caminhada do assessor no serviço de acompanhamento aos grupos de base ou na explanação de temáticas. É para toda a Vida!Ao viver esta frase, o assessor nunca irá se deixar levar pela tentação de ser “o maioral”, “o chefe”, “o sabe-tudo”, “aquele que tem a última palavra”.

O assessor tem que ser um verdadeiro profeta.

O profeta do Reino é aquele que em nome de Deus anuncia a vida, denuncia a morte e ameaça quem produz  corrupção, violência e extermínio.

E todo profeta antes de falar, ele escuta; esta é a grande virtude de um profeta. Esta é a maior virtude de um assessor.

Os falsos profetas não escutam a voz de Deus, muito menos a voz do Povo, a voz dos Jovens, a voz dos Pobres.

O falso assessor não escuta ninguém, carrega o grupo nas costas, não assume a defesa da Vida.

A mística e a espiritualidade de um assessor da PJ não se dá apenas no trabalho pastoral, mas preferencialmente na oração cotidiana.

Oração é oração.

Oração não é mística.

Oração não é espiritualidade.

Oração é oração.

O assessor tem que ser uma pessoa de oração, de fé e vida, de íntima ligação com as causas do Reino.

Mais uma vez cito Monseñor Romero: “... La verdadera oración consiste em pedirle a Dios la fuerza de su Espíritu para hacer lo que debemos hacer: quitar el pecado del mundo, destronar la injusticia, derribar los ídolos opresores, sembrar las semillas del reino de Dios. Es nuestra tarea.(...) Dios nos escucha en la oración si colaboramos con él en la construcción de su reino.(...) Si, oración, mucha oración, pero una oración que nos haga consecuentes como el samaritano:Por eso insisto yo, mucha oración. Oremos, pero no con una oración que nos aliene, no con una oración que nos haga fugarmos de la realidad. Jamás vayamos a la iglesia huyendo de nuestros deberes de la tierra. Vayamos a la iglesia a tomar fuerzas y claridad para retornar a cumprir mejor los deberes del hogar, los deberes de la politica, los deberes de la organización, la orientación sana de estas cosas de la tierra. Estos son los verdaderos liberadores”.

Os verdadeiros libertadores ensinam a libertar caminhando junto, fazendo junto as ações e as orações.

Como deveria ser a oração diária de um assessor?

Pessoalmente, costumo rezar o Ofício Divino das Comunidades e mais recentemente a Oração das Horas, mas o método da Leitura Orante da Bíblia é indispensável neste itinerário místico.

Frei Carlos Mesters diz que “ao iniciar a Leitura Orante da Bíblia, você não vai estudar; não vai ler a Bíblia para aumentar conhecimentos nem preparar algum trabalho apostólico; não vai ler para ter experiências extraordinárias. Vai ler a Palavra de Deus para escutar o que Deus lhe tem a dizer, para conhecer a Sua Vontade e viver melhor o Evangelho de Jesus Cristo”.

Mas qual deveria ser o texto bíblico a ser lido (1o. passo), meditado (2o. passo), orado (3o. passo) e contemplado (4o. passo)?

Tenho alguns textos que venho meditando, ruminando, percebendo a profundidade de cada um e tentando vivê-los no dia à dia. A tarefa é árdua; os textos que sugiro, um para cada dia da semana, não haverá problema em mudar a ordem:

• Jo 3, 22 – 30 (domingo)

• Sl 25 (segunda)

• Is 50, 4 – 8 (terça)

• Jo 8, 1 – 11 (quarta)

• Lc 24, 13 – 35 (quinta)

• Jo 21, 1 – 17 (sexta)

• Mt 21, 23 – 32 (sábado)

Quatro perguntas que devem estar na mente e no coração sempre que usar o método da Leitura Orante da Bíblia:

A - O que diz o texto? (leitura)

B – O que o texto me diz? (meditação)

C – O que o texto me faz dizer a Deus? (oração)

D – O que Deus me diz para fazer? (contemplação)
O assessor sem oração não serve para ser assessor.Se não reza um pouco por dia, não serve para a assessoria.

D. Pedro Casaldáliga, um dia em sua casa, me disse que “o caminho se faz caminhando, e no caminho se tem a oração, que dá força para caminhar.”

E todos os dias quando eu me levantava e ia me banhar, lá estava ele, sentado num banquinho, aproveitado de um tronco de árvore, na capela, do quintal de sua casa, concentrado, de olhos fechados, rezando e aguardando o povo se ajuntar para a reza do Ofício Divino das Comunidades. Isso me marcou muito!

Ele talvez não saiba, mas me inspiro muito nele e em seu testemunho de radicalidade no seguimento à Jesus Cristo, na defesa da Vida, e na opção preferencial pelos pobres.

Rezo por ele e sei que quando pode reza por mim também.

Aprendi a ser um ser humano melhor, um assessor melhor, escutando e rezando junto com D. Pedro Casaldáliga; acredito que esta seja a mística da caminhada: escutar a Deus para que Ele cresça e eu diminua.


Emerson Sbardelotti
Mestre em Teologia pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo.

2 comentários:

PJ Ponta Grossa disse...

Olá Emerson!

Eu sou administrador do Website PJ Ponta Grossa - www.pjpontagrossa.net
Gostei dos seus artigos e lhe pergunto se me autoriza a publicá-los no site mantendo a sua autoria.

Grande abraço, fé na caminhada!

Administração Website PJ Ponta Grossa
E-mail: administrador@pjpontagrossa.net

Poeta Emerson disse...

Admnistrador, pode utilizar meus textos sim...mas seria mais importante para mim se eu pudesse escrever para o website, o que você acha?
Abraços e sigamos na luta diária em defesa da vida.

Emerson Sbardelotti