terça-feira, 24 de junho de 2008

A MÍSTICA DE UM ASSESSOR II


A MÍSTICA DE UM ASSESSOR II


Falávamos no primeiro artigo que a mística e a espiritualidade de um assessor da PJ não se dá apenas no trabalho pastoral, no trabalho em sociedade, mas preferencialmente na oração cotidiana. É a oração cotidiana que fortalece o caminhar do assessor.

Sem oração, o assessor não é nada.

No seguimento radical a Jesus de Nazaré, é preciso saber orar e orar sempre. Cada um no seu tempo , do seu jeito , irá fazendo esta ligação com o Pai. O caminho é árduo. Exige concentração, dedicação , despojamento e humildade: “ Fala, pois teu servo escuta” (1Sm 3,11).

A oração nos torna íntimos de Deus e da comunidade.

Um grande problema que identifico, hoje, com mais clareza do que a alguns anos atrás, com uma profunda reflexão e análise de causa: nas CEBS, na PJ: rezamos e oramos pouco. Acredito que deveríamos exercitar mais o nosso jeito de rezar. Por conta de inúmeros compromissos, às vezes, esta parte importante de nossa formação passa batida. É preciso carinho com ela.

Volto a repetir: oração é oração, nada mais!

Ao tentarmos viver profundamente a opção preferencial pelos pobres e pelos jovens, como sugeriu Puebla, e digo isso reconhecendo que fiz assim inúmeras vezes, se viveu, vivi, mais a ação do que a oração. O discurso era mais politizado , com um tom mais partidário do que participativo. O que fez muita gente se afastar da PJ por acreditar que a mesma fosse uma das tendências do Partido dos Trabalhadores, e fez com que vários bispos e padres proibissem ou barrassem seus projetos por pensarem desta forma.

Sabemos que a PJ sempre foi uma Universidade sem diploma, que levou muito de nós, a militarmos num partido político, acredito que não tenha sido a intenção de ninguém transparecer para a hierarquia e para as comunidades que este era o posicionamento da PJ que é uma pastoral social, comprometida com a defesa da vida e o desenvolvimento do protagonismo juvenil.

Não que estivéssemos totalmente errados, mas aconteceram inúmeros problemas de comunicação de ambas as partes, poderíamos dizer que a conjuntura levava a crer que bastava apenas a ação e um pouquinho de formação pastoral que tudo se resolveria...Pagamos um preço muito caro, como assessores, como membros e representantes dos grupos de base, das paróquias, das áreas, das dioceses e dos regionais.

Muita gente se afastou, se retiraram da Igreja, se isolaram no partido político, não acreditaram mais na proposta salvífica do Reino. Tudo bem, o contexto era outro, as pessoas eram outras. Mas, o Evangelho, não era o mesmo de hoje?

Não consigo permanecer calado por isso pergunto: a fraqueza das CEBS e da PJ é a falta de oração?

E por favor, aqui não está se colocando em questão o que os movimentos religiosos fazem ou dizem ou acreditam que seja oração .

Este meu ponto de vista vem carregado de preocupação que tem seu fundamento: não sabemos orar?

Fomos ou somos bons no trabalho social, na ação, mas enquanto pessoas que procuram escutar a Deus através da oração...Aí precisamos parar e refletir para então assumir algum trabalho ou continuar a caminhada!

E isso, em nosso ministério da assessoria não temos percebido ou não queremos perceber. Mas que é óbvio, isto é!

Tenho observado em muitas reuniões, dentro da estrutura da PJ, o descaso, a rapidez, a pressa, a desorganização, a falta de silêncio, em alguns casos até o não fazer a oração .

Tenho observado em muitas reuniões, quando se reza o Ofício Divino das Comunidades, não se tem cuidado em colocá-lo dentro do tempo litúrgico, não há uma preparação prévia; o resultado é terrível.

Sinceramente, acredito que a reunião está fadada a fracassar e todas as pessoas ali reunidas saírem estressadas e magoadas.

Quando se lê um texto bíblico, por exemplo , não está se vivendo o que está sendo proclamado , portanto, não se transmite para os outros que escutam que é o próprio Jesus que nos fala. Isso é lamentável.

E nós, assessores, muitas vezes permanecemos insensíveis a tudo isto; muitas vezes deixamos o barco correr solto, empurramos com a barriga. Neste serviço que procuramos prestar, se faz necessário sugerir que tais ações dentro de uma reunião, começando, ou no meio e ou terminando, são belíssimas e são expressões deste Deus que se faz jovem, só acontecem em sua totalidade se forem antes de tudo preparadas com toda solenidade que merece e acima de tudo com todo amor.

É nossa obrigação dar este toque, quando isto acontece de forma que ninguém saia magoado.

Infelizmente, muitos assessores ainda não despertaram para a importância da oração cotidiana .

É comum em nossos discursos e explanações sobre a teologia da libertação, sobre a Espiritualidade da Libertação, que precisamos lutar para que a sociedade mude, que precisamos reivindicar nossos direitos enquanto cidadãos... Tudo isto é importantíssimo! Mas não atuaríamos melhor se tudo que acreditamos, fosse colocado nas mãos de Deus através da nossa oração comunitária também?

E que no silêncio e na nossa humildade pudéssemos escutar dEle algumas pistas e sugestões de como adaptá-las a este tempo de agora, nesta Igreja que a cada dia fecha um pouco as suas portas ao progresso pastoral e eclesial proposto pelo Concílio Vaticano II e que se volta para uma cristandade medieval.

Todas estas perguntas me faço cotidianamente. Toda esta argumentação apontada até aqui estão dentro do meu coração, me inquieta, me faz pesquisar e procurar uma resposta.

Temos uma enorme responsabilidade pela frente.

Somos seres humanos cabíveis de erros e acertos.

De todo coração , sei o quanto a oração ajuda a enfrentar as crises e os problemas que surgem durante a caminhada.

Acredito que as CEBS e a PJ possam se tornar de fato um novo jeito de ser Igreja não copiando o jeito dos outros rezarem, mas buscando em suas raízes, as características fundamentais de sua caminhada; entre elas estará a oração.

Oração que não aliena, mas que coloca a gente em contato com o Pai, com o Filho e com o Espírito Santo.

Abre a nossa visão para o mundo, para a Terra, fazendo-nos perceber o quanto somos amados e queridos, que somos dotados de inteligência para escolher proteger ou acabar com a vida. Oração é oração. Nada mais!

Que possamos conversar e debater um pouco mais nos grupos de assessores, junto às coordenações.

Um assessor que faz sua oração cotidiana tem coragem de dar a vida pelas causas do Reino nas causas do Povo .

Há três grandes virtudes que devem estar presentes em um assessor, sem que pra isso ele tenha que falar ou mostrar:

1a. DIAKONIA – o serviço humilde, discreto e silencioso, que faz por si o questionamento em relação à sociedade que oprime e exclue.

2a. KOINONIA – a comunhão com a juventude , com os pobres, sendo o menor entre eles.

3a. MARTÍRIA – doar a vida pela opção preferencial pelos pobres e pelos jovens, defendendo-a e anunciando-a sem medo, pois se há perseguição é por que se está no verdadeiro caminho.

São atitudes que são adquiridas com o caminhar junto à juventude, junto as comunidades. Se planto oração, colherei oração.

Espero que árvores frutíferas possam nascer e crescer.

Escutar é o verbo que mais se usa neste itinerário .

Escutar, escutar, escutar...

Você, assessor, já fez sua oração de hoje?

Sim ou sim?



Emerson Sbardelotti
Mestre em Teologia pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo


Nenhum comentário: